Selic cai para 14% ao ano e Copom mantém cautela diante de inflação e cenário externo

Banco Central reduz juros em 0,25 ponto percentual, como esperado pelo mercado, mas evita sinalizar os próximos passos da política monetária

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O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central reduziu nesta quarta-feira (6) a taxa básica de juros da economia de 14,25% para 14% ao ano, em decisão unânime e amplamente esperada pelo mercado financeiro. O corte de 0,25 ponto percentual não trouxe surpresa para investidores, mas o comunicado da autoridade monetária concentrou as atenções ao combinar o reconhecimento de uma desaceleração gradual da atividade econômica com a manutenção de um discurso cauteloso sobre a inflação.

No texto, o Banco Central afirma que a economia continua resiliente, embora apresente sinais de perda de ritmo, e destaca que a inflação cheia desacelerou nas divulgações mais recentes. Ainda assim, ressalta que os índices permanecem acima do limite superior da meta e que as expectativas seguem desancoradas, justificando a manutenção de uma política monetária restritiva.

O cenário externo também permanece no radar da autoridade monetária. O Copom voltou a citar os conflitos no Oriente Médio, a volatilidade dos preços das commodities e as incertezas sobre a condução da política monetária nas economias avançadas como fatores que exigem cautela dos países emergentes.

As projeções atualizadas do Banco Central apontam inflação de 5,1% em 2026, 3,8% em 2027 e 3,2% no primeiro trimestre de 2028, horizonte atualmente considerado relevante para a política monetária.

Apesar de iniciar mais uma etapa de flexibilização dos juros, o Comitê evitou antecipar seus próximos movimentos. O comunicado reforça que a magnitude do ciclo continuará sendo calibrada de acordo com a evolução da inflação, das expectativas, da atividade econômica e do ambiente internacional.

Na avaliação de Vitor Kayo, economista sênior da Nomad, a principal novidade não foi o corte da Selic, mas a mudança na leitura do Banco Central sobre a economia. Segundo ele, o comunicado substitui a avaliação anterior de aceleração da atividade por uma percepção de moderação gradual, embora ainda sustentada por um mercado de trabalho aquecido. O economista também destaca que o Copom reforçou a preocupação com a desancoragem das expectativas ao explicitar a assimetria altista no balanço de riscos, mas preferiu preservar flexibilidade para as próximas decisões.

“A porta ficou aberta para mais um corte em setembro, mas a decisão dependerá da evolução dos dados.”

A leitura é semelhante à do economista-chefe da Brasilprev, Robson Pereira. Para ele, o comunicado adota um tom relativamente neutro do ponto de vista da sinalização da política monetária. Embora o Banco Central reforce os riscos inflacionários e mantenha a preocupação com as expectativas acima da meta, o texto não fecha a possibilidade de continuidade do ciclo de flexibilização.

Segundo Pereira, outro ponto importante foi a manutenção da projeção de inflação em 3,2% para o primeiro trimestre de 2028, indicando estabilidade no cenário-base utilizado pelo Banco Central, mesmo diante da deterioração das expectativas de mercado.

“Há uma preocupação com os riscos inflacionários e a explicitação de uma assimetria altista. Mas, ao mesmo tempo, o Banco Central não fecha as portas para decisões que venham trazer a Selic ainda mais para baixo nas próximas reuniões.”

Para Sara Paixão, analista de Macroeconomia da InvestSmart XP, o texto reforça que o ambiente global continua cercado de incertezas, tanto pelos conflitos geopolíticos quanto pelas decisões de política monetária das principais economias. No cenário doméstico, a autoridade monetária reconhece a desaceleração gradual da atividade, mas mantém atenção ao mercado de trabalho aquecido e às expectativas de inflação acima da meta.

Na avaliação da especialista, o destaque do comunicado está na confirmação da assimetria altista dos riscos inflacionários e na decisão do Copom de não antecipar os próximos passos da política monetária.

“O comitê manteve em aberto o cenário para as próximas reuniões, condicionando os próximos passos à evolução dos dados econômicos.”

Parte do mercado já projeta um novo corte de 0,25 ponto percentual na reunião de setembro, o que levaria a Selic para 13,75% ao ano. No entanto, essa expectativa dependerá da confirmação da desaceleração da atividade econômica, do comportamento da inflação e da evolução de fatores como os preços das commodities energéticas, o câmbio e os impactos climáticos sobre os preços.

Ao repetir expressões como “serenidade”, “cautela” e “restrição adequada”, o Banco Central sinaliza que pretende conduzir o ciclo de flexibilização de forma gradual, preservando margem para ajustar a política monetária conforme a evolução do cenário econômico. A mensagem deixada pelo Copom é que o início do corte dos juros não representa um compromisso com uma sequência automática de reduções, mas uma decisão condicionada ao comportamento dos indicadores nos próximos meses.

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