O e-commerce de uma cidade de 12 mil habitantes que quer faturar R$ 500 milhões

Sem investidores externos e com apenas 30 funcionários, a Cofari transformou uma operação familiar no interior de Santa Catarina em um negócio que atende 99% dos municípios brasileiros.

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Enquanto boa parte dos grandes e-commerces brasileiros disputa espaço por meio de aportes milionários, aquisições e estruturas concentradas nos grandes centros, uma empresa do interior de Santa Catarina vem seguindo um caminho diferente.

Instalada em Rodeio, município de pouco mais de 12 mil habitantes no Vale do Itajaí, a Cofari construiu uma operação capaz de atender 99% dos municípios brasileiros, vender simultaneamente em seis marketplaces e projetar um faturamento acumulado de R$ 500 milhões até o fim de 2026. Tudo isso com uma equipe de apenas 30 colaboradores.

A trajetória da empresa chama atenção não apenas pelos números, mas pelo ritmo de crescimento. Em 2023, importou seu primeiro contêiner. Em 2024, foram dois. Em 2025, quatro. Para este ano, a expectativa é receber 55 contêineres exclusivamente de produtos de marca própria, consolidando uma estratégia voltada à verticalização do negócio.

O crescimento acontece em um momento em que o comércio eletrônico brasileiro continua em expansão. Segundo a Associação Brasileira do Comércio Eletrônico (ABComm), o setor faturou R$ 235,5 bilhões em 2025, alta de 15,3% em relação ao ano anterior, impulsionado principalmente pelo avanço dos marketplaces e pela consolidação das marcas próprias.

Um negócio construído com dados, não com apostas

A história da empresa começou em 2007, quando Junior Cristofolini iniciou a venda de acessórios automotivos no Mercado Livre, operando a partir da própria casa.

Sem grandes investimentos, a estratégia sempre foi baseada em análise de dados.

Antes de aumentar estoques ou ampliar categorias, cada produto era testado em pequena escala.

Com o passar dos anos, a empresa percebeu que o segmento automotivo apresentava margens cada vez menores e maior pressão regulatória. A resposta veio antes que o mercado obrigasse.

Em 2014 nasceu a Casa Ferrari, reunindo produtos para casa, utilidades domésticas, eletrodomésticos, brinquedos e itens de decoração. O negócio passou a trabalhar também com fabricantes da região que ainda não possuíam presença no comércio eletrônico.

“A gente sempre avaliou a demanda antes de investir em estoque. Testava cada produto em pequena escala e só escalava quando os números confirmavam a tração. Parece óbvio, mas a maioria não faz isso, e é exatamente isso que nos salvou mais de uma vez“, afirma Bianca Ferrari Pacher, sócia-fundadora da empresa.

A pandemia acelerou, mas a ressaca exigiu mudanças

Assim como ocorreu em boa parte do varejo digital, a pandemia impulsionou o crescimento da empresa.

O aumento das vendas levou a operação para um novo patamar de gestão, incluindo a migração para o regime de Lucro Real e investimentos em tecnologia.

O cenário mudou entre 2022 e 2023, quando o consumo voltou a desacelerar e novos concorrentes internacionais passaram a disputar espaço no mercado brasileiro.

Em vez de manter o mesmo modelo, a empresa decidiu rever seu portfólio e reduzir custos antes que a situação comprometesse os resultados.

“A ressaca pós-pandemia foi brutal para muita gente no e-commerce. O que nos diferenciou foi não ter esperado a situação piorar para agir. A gente olhou para os números, aceitou o que eles estavam dizendo e mudou a rota antes de precisar. A empresa que espera sinal de fumaça para reagir já está atrasada“, diz Junior Cristofolini, sócio-fundador e líder estratégico.

A reestruturação foi acompanhada por uma série de reconhecimentos de mercado, entre eles a certificação RA1000, o Prêmio Reclame Aqui 2025 na categoria Artigos para o Lar, o Magazord Awards e o selo Great Place to Work.

A estratégia mudou: vender menos produtos dos outros e mais produtos próprios

Depois de anos atuando como revendedora, a empresa decidiu investir em uma estratégia que hoje ganha força entre grandes operações digitais: desenvolver marcas próprias.

O objetivo é reduzir a dependência de fornecedores, aumentar margens e fugir da competição baseada exclusivamente em preço.

O primeiro passo foi dado em 2023, com a importação do primeiro contêiner para validar toda a cadeia logística.

Dois anos depois nasceu a Bem Casa, marca própria voltada ao segmento de utilidades domésticas.

“Quando você revende, está sempre numa guerra que não tem fim. Quando você tem marca própria, você sai dessa guerra e começa a jogar um jogo diferente. A Bem Casa não é só uma linha de produtos, é a nossa aposta de que daqui a dez anos ainda vamos estar aqui, crescendo“, afirma Bruna Ferrari Pacher, sócia-fundadora.

A projeção para 2026 é importar 55 contêineres da marca própria. Para 2027, a meta é ultrapassar a marca de 100.

Logística construída longe dos grandes centros

Arquivos Cofari

Outro diferencial da operação está na logística.

A empresa continua instalada em Rodeio, onde mantém um centro de distribuição de aproximadamente 4 mil metros quadrados.

Inicialmente, todos os pedidos eram enviados pela agência dos Correios da cidade.

Com o crescimento da demanda, a operação passou a utilizar transportadoras regionais e centros de distribuição em outros estados.

Hoje, cerca de 20% das entregas já são expedidas fora de Santa Catarina, reduzindo em até dois dias o prazo para consumidores de regiões mais distantes.

Segundo a empresa, a cobertura alcança atualmente 99% dos municípios brasileiros.

Rebranding marca nova fase

Em abril de 2026, a Casa Ferrari passou a se chamar Cofari.

Segundo a empresa, a mudança representa mais do que uma alteração de identidade visual. O novo nome reúne as sílabas de CO (Coração), FA (Família) e RI (Ferrari), sintetizando os valores que orientam o negócio desde sua fundação.

Para Junior Cristofolini, o reposicionamento acompanha uma nova etapa da empresa.

“Cofari não é só um nome novo. É o compromisso de que tudo que construímos até aqui foi o começo, não o destino“, afirma.

Um modelo que foge do padrão das startups

Enquanto boa parte das empresas de tecnologia cresce apoiada em rodadas de investimento, a Cofari construiu sua expansão de forma orgânica, financiando o próprio crescimento e priorizando eficiência operacional.

O caso ilustra uma tendência observada no comércio eletrônico brasileiro: empresas que investem em inteligência de dados, logística própria e marcas exclusivas conseguem aumentar competitividade sem depender exclusivamente da disputa por preço.

Partindo de uma pequena cidade catarinense, a empresa busca agora consolidar uma nova etapa de crescimento. A meta é alcançar R$ 500 milhões de faturamento acumulado até o fim de 2026, reforçando um modelo baseado em expansão gradual, verticalização do negócio e decisões orientadas por dados.

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