As casas de apostas movimentaram bilhões de reais, financiaram clubes de futebol, compraram espaços publicitários e se transformaram em um dos segmentos mais visíveis da economia brasileira. Mas a rápida popularização das chamadas bets também deixou uma conta social.
Em poucos anos, apostar deixou de exigir a ida a um estabelecimento físico. O cassino, de certa forma, passou a caber no bolso: pelo celular, tornou-se possível apostar 24 horas por dia, em partidas esportivas, jogos online e diferentes eventos.
A facilidade de acesso veio acompanhada de problemas que passaram a preocupar autoridades econômicas e de saúde pública.
Endividamento, comprometimento da renda das famílias, transtorno do jogo, exposição de crianças e adolescentes à publicidade e transferência de recursos que poderiam ser destinados ao consumo estão entre os principais efeitos negativos associados à expansão das apostas online no Brasil.
Lula proíbe bets no Brasil; entenda o que muda para apostadores e empresas
Mais de R$ 20 bilhões movimentados por mês
Um estudo do Banco Central ajuda a dimensionar a velocidade dessa expansão.
Entre janeiro e agosto de 2024, as empresas de apostas receberam, em média, R$ 20,8 bilhões por mês em transferências realizadas por brasileiros.
A estimativa apontava aproximadamente 24 milhões de pessoas realizando apostas no período.
O Banco Central calculou ainda que cerca de 15% dos valores apostados permaneciam com as empresas, enquanto o restante retornava aos usuários na forma de prêmios.
O levantamento foi realizado quando o país ainda preparava a entrada definitiva do mercado regulamentado, que começaria em janeiro de 2025.
Dinheiro das apostas começou a competir com o orçamento familiar
Um dos maiores alertas surgiu quando estudos começaram a relacionar as apostas ao orçamento doméstico.
Dados citados no Senado em 2024, a partir de levantamento da consultoria Strategy&, da PwC, indicavam que 63% dos apostadores online tiveram parte da renda comprometida pelas apostas.
Entre eles, 23% disseram ter deixado de comprar roupas, 19% reduziram gastos em supermercados e 14% diminuíram despesas com produtos de higiene e beleza.
O problema se torna mais sensível quando envolve famílias de baixa renda.
Levantamento do Banco Central revelou que beneficiários do Bolsa Família enviaram R$ 3 bilhões às empresas de apostas via Pix em agosto de 2024.
O dado não significa que todo esse dinheiro tenha sido perdido — parte dos valores retorna aos jogadores na forma de prêmios — nem permite afirmar que os recursos transferidos tenham vindo diretamente do benefício social. Ainda assim, o volume acendeu um alerta sobre a presença das apostas entre grupos economicamente vulneráveis.
Apostar não é investir
A promessa de ganhar dinheiro rapidamente também criou outro problema: a percepção de que apostar poderia funcionar como uma alternativa de renda ou investimento.
O tema chegou ao Congresso e aos órgãos responsáveis pela regulamentação.
A CPI das Bets registrou casos de campanhas e influenciadores que apresentavam as apostas como possibilidade de obtenção de renda. O relatório também apontou publicidade direcionada ou acessível a menores de idade.
A lógica financeira, entretanto, é diferente de um investimento.
Em uma aposta, o jogador coloca dinheiro em um resultado incerto e pode perder integralmente o valor apostado. Além disso, o modelo econômico das plataformas pressupõe que uma parcela dos recursos permaneça com as próprias empresas.
Saúde mental virou questão de saúde pública
Talvez o impacto mais grave esteja fora das planilhas.
O Ministério da Saúde passou a tratar os problemas relacionados às apostas como uma questão de saúde pública e estruturou orientações específicas para atendimento pelo SUS.
O chamado Transtorno do Jogo é reconhecido como um transtorno de comportamento aditivo.
Entre os sinais estão dificuldade de controlar o impulso de apostar e manutenção do comportamento mesmo diante de prejuízos financeiros, familiares, profissionais ou emocionais.
O problema pode estar associado a ansiedade, depressão, culpa e isolamento social.
Em 2026, o Ministério da Saúde lançou uma campanha nacional específica para alertar sobre os danos relacionados às apostas online e divulgar os serviços disponíveis para apostadores e familiares.
O SUS oferece atendimento tanto nas Unidades Básicas de Saúde quanto nos Centros de Atenção Psicossocial, os Caps.
Celular tornou a aposta disponível 24 horas
As características das plataformas digitais também aumentaram a preocupação das autoridades de saúde.
Diferentemente de modalidades tradicionais de jogo, as bets podem ser acessadas praticamente a qualquer momento.
O Ministério da Saúde chama atenção para mecanismos como notificações, bônus, apostas em tempo real e recompensas variáveis, recursos capazes de estimular a permanência e a repetição das apostas.
Uma pessoa pode acompanhar uma partida de futebol e realizar diversas apostas durante os 90 minutos. Nos jogos de cassino online, os intervalos entre uma aposta e outra podem ser ainda menores.
Essa disponibilidade permanente aumenta o risco de pessoas vulneráveis gastarem mais dinheiro ou permanecerem jogando por mais tempo do que haviam planejado.
Publicidade levou bets para dentro do cotidiano
Outro efeito da expansão foi a presença quase permanente das apostas no ambiente esportivo e digital.
Camisas de clubes, placas nos estádios, programas esportivos, transmissões, redes sociais e influenciadores passaram a divulgar marcas do setor.
Um estudo divulgado pelo Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict) em 2025 identificou, durante análise do ecossistema digital das apostas, desinformação, violações à legislação e riscos para públicos vulneráveis, incluindo crianças, adolescentes e consumidores em situação de fragilidade econômica.
A preocupação com os menores também apareceu em processos de fiscalização.
Órgãos públicos passaram a investigar publicidade potencialmente direcionada a crianças e adolescentes e a atuação de influenciadores na promoção de plataformas ilegais.
Clubes reagem ao fim das bets e alertam para impacto bilionário no futebol
O dinheiro que vai para as bets deixa de circular em outros setores?
A expansão das apostas também abriu um debate econômico.
Quando parte da renda disponível de uma família é destinada às apostas, esse dinheiro deixa de ser utilizado — ao menos naquele momento — em outras formas de consumo, poupança ou investimento.
Estudos apresentados no Senado apontaram redução de despesas com roupas, supermercados e produtos de higiene entre parte dos apostadores.
Isso não significa que cada real apostado represente automaticamente um real perdido pela economia. As empresas pagam prêmios, salários, impostos, publicidade e patrocínios.
O problema econômico aparece principalmente quando as apostas comprometem uma parcela relevante da renda disponível das famílias ou contribuem para endividamento e inadimplência.
Da diversão para um problema nacional
As apostas esportivas não criaram o jogo no Brasil. Loterias, jogo do bicho e outras modalidades existem há décadas.
O que as bets mudaram foi principalmente a escala e a facilidade de acesso.
O smartphone eliminou boa parte das barreiras físicas para apostar. A publicidade ampliou a exposição das marcas e a associação com o futebol ajudou a inserir as plataformas na rotina de milhões de brasileiros.
A regulamentação implementada a partir de 2025 tentou responder a parte desses problemas, estabelecendo limites para publicidade, regras de jogo responsável, mecanismos de fiscalização e exigências para as empresas autorizadas.
Mas os efeitos acumulados durante a expansão do setor permaneceram no centro da discussão.
A trajetória das bets no Brasil mostrou que o impacto de um mercado bilionário não pode ser medido apenas pelo faturamento das empresas, pelos impostos arrecadados ou pelo dinheiro destinado ao futebol.
A conta também precisa considerar quanto os brasileiros perderam apostando, o comprometimento da renda das famílias, os efeitos sobre pessoas que desenvolveram comportamento problemático e os custos sociais e de saúde associados à expansão do jogo online.


