Uma semana depois de clubes brasileiros se unirem em um manifesto contra restrições ao mercado de apostas, o cenário mudou de forma significativa. A decisão do governo federal de proibir as bets no Brasil abre uma nova frente de preocupação no futebol, que nos últimos anos passou a receber investimentos bilionários de empresas do setor.
A reação começou antes mesmo do anúncio oficial. Clubes das Séries A e B já vinham discutindo os impactos de uma eventual proibição e algumas casas de apostas começaram a notificar equipes sobre a possibilidade de rescisão dos contratos de patrocínio.
Nesta sexta-feira (25), o Flamengo voltou a se posicionar publicamente contra a medida. O clube argumenta que a proibição pode reduzir investimentos no esporte, comprometer empregos e estimular a migração dos apostadores para plataformas ilegais.
Em nota, o clube afirmou que o Brasil levou anos para construir a regulamentação do setor e defendeu o combate às empresas ilegais e o fortalecimento da proteção aos apostadores.
Manifesto antecipou preocupação dos clubes
A reação desta sexta-feira é um desdobramento de uma mobilização iniciada na semana passada.
Em 17 de setembro, clubes e federações divulgaram um manifesto conjunto defendendo a manutenção do mercado regulamentado. Entre as equipes que participaram da mobilização estavam Flamengo, Fluminense, Vasco, Botafogo, Palmeiras, Santos, São Paulo e Cruzeiro, além das federações Paulista e do Estado do Rio de Janeiro.
No documento, os clubes reconheceram os impactos sociais provocados pelas apostas, principalmente sobre consumidores mais vulneráveis, mas defenderam que a resposta deveria passar pelo fortalecimento da fiscalização e da regulamentação.
Um dos principais argumentos apresentados foi econômico. As equipes afirmaram que os investimentos das empresas autorizadas haviam se transformado em uma importante fonte de receita para o esporte, alcançando não apenas grandes clubes, mas também divisões inferiores e competições com menor exposição comercial.
Na ocasião, a discussão estava concentrada principalmente na possibilidade de proibição dos jogos de cassino online. A decisão anunciada nesta sexta ampliou o alcance da medida e estabeleceu o fim da operação das bets no país.
Flamengo estima impacto de até R$ 3 bilhões
O Flamengo, dono de um dos maiores contratos de patrocínio do futebol brasileiro, estima que o impacto financeiro sobre todo o ecossistema do esporte possa chegar a R$ 3 bilhões em 2027.
A projeção não considera apenas os contratos estampados nas camisas dos clubes. Empresas de apostas também investem na compra de propriedades comerciais de campeonatos, publicidade em transmissões, placas nos estádios e diferentes ações de marketing relacionadas ao futebol.
O clube carioca mantém contrato com a Betano, que prevê aproximadamente R$ 266 milhões anuais pelo espaço principal da camisa rubro-negra.
A própria Betano também possui direitos comerciais relacionados a competições nacionais, ampliando o alcance financeiro das casas de apostas dentro da indústria do futebol.
Bets já notificam clubes sobre contratos
Antes mesmo da confirmação da proibição, algumas empresas começaram a se movimentar.
Corinthians, São Paulo e Fluminense estavam entre os clubes que receberam alertas sobre a possibilidade de rescisão dos acordos comerciais caso as empresas fossem impedidas de operar no Brasil.
A medida cria uma questão contratual imediata: se as marcas não puderem mais oferecer seus serviços ou fazer publicidade no país, a manutenção dos acordos perde sua finalidade comercial.
O Corinthians, por exemplo, mantém acordo com a Esportes da Sorte estimado em R$ 150 milhões anuais.
São Paulo e Fluminense possuem contratos com a Superbet. No caso do clube paulista, o acordo prevê cerca de R$ 80 milhões em 2026. Para o Fluminense, o valor é estimado em R$ 53 milhões, com possibilidade de chegar a R$ 86 milhões conforme condições previstas no contrato.
Clubes discutem alternativas financeiras
A preocupação com as bets ocorre em um momento no qual clubes das Séries A e B já discutem com o governo federal alternativas para melhorar sua situação financeira.
Uma das propostas em negociação envolve a criação de uma linha de crédito por meio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), destinada principalmente à renegociação de dívidas e investimentos em infraestrutura.
A CBF participa das conversas como articuladora, enquanto o Ministério do Esporte também acompanha as discussões.
Ainda não há definição sobre o tamanho da eventual linha de financiamento nem sobre os critérios para acesso aos recursos.
Com a proibição das bets, entretanto, a discussão ganha um novo componente. Além do endividamento acumulado ao longo dos últimos anos, parte dos clubes poderá precisar substituir rapidamente uma das principais fontes de receita comercial do futebol brasileiro.


