O prazo para aderir ao Novo Desenrola Brasil termina na próxima segunda-feira, 31 de agosto, abrindo uma última janela para consumidores renegociarem dívidas bancárias com condições especiais. Mas conseguir desconto ou reduzir a parcela não significa, por si só, resolver o problema financeiro.
Isso porque o programa permite que dívidas antigas sejam liquidadas por meio de uma nova operação de crédito, com condições diferenciadas. Se a prestação resultante da renegociação não couber no orçamento, o consumidor corre o risco de apenas substituir uma dívida em atraso por um novo compromisso que também poderá deixar de pagar.
O alerta ganha relevância diante do nível de inadimplência no país. Em julho, o Brasil chegou a 83,9 milhões de consumidores inadimplentes, maior número da série histórica da Serasa.
Como funciona o Novo Desenrola
O Novo Desenrola Brasil atende pessoas físicas com renda mensal de até cinco salários mínimos.
Podem entrar na renegociação dívidas de cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal contratadas até 31 de janeiro de 2026 e que estejam em atraso entre 91 dias e dois anos.
Entre as condições previstas estão descontos que podem chegar a 90%, taxa de juros máxima de 1,99% ao mês e prazo de pagamento de até 48 meses.
A nova dívida, depois dos descontos, pode chegar a R$ 15 mil por pessoa e por instituição financeira.
Por isso, além de observar o desconto oferecido, o consumidor precisa avaliar quanto efetivamente pagará, qual será o valor da prestação e por quanto tempo ela comprometerá a renda.
Parcela precisa entrar no orçamento
Para José Leonardo de Campos, especialista em educação financeira e cofundador da Plano Fintech, a renegociação precisa ser acompanhada por uma reorganização das despesas.
“A renegociação muda a dívida, mas não muda automaticamente a forma como o dinheiro é administrado. Se a família mantém a mesma estrutura de gastos que existia antes do acordo, a nova parcela pode se transformar rapidamente em outro problema”, afirma.
Na prática, a prestação do acordo deve ser tratada como uma despesa mensal fixa, assim como aluguel, energia, alimentação e outras obrigações recorrentes.
“Depois do acordo, a pergunta é objetiva: de onde sairá o dinheiro da parcela todos os meses? Se o consumidor não consegue identificar essa fonte no orçamento, o desequilíbrio ainda não foi resolvido”, explica Ricardo Hiraki, administrador, CEO e cofundador da Plano.
Desconto alto não significa necessariamente acordo bom
Um dos principais cuidados antes da adesão é não avaliar a proposta apenas pelo percentual de desconto.
A capacidade de pagamento mensal também precisa entrar na conta. Uma renegociação pode reduzir significativamente o saldo devedor, mas ainda criar uma prestação incompatível com a renda disponível da família.
Se o acordo acrescentar, por exemplo, R$ 300 às despesas mensais, será necessário identificar de onde esse dinheiro sairá.
Assinaturas pouco utilizadas, compras parceladas e despesas recorrentes que possam ser reduzidas estão entre os gastos que podem ser revistos.
O objetivo é evitar que a nova prestação dependa do dinheiro que eventualmente sobrar no fim do mês.
Crédito após limpar o nome exige cuidado
Outro momento considerado delicado ocorre depois da regularização da situação financeira.
Com a retirada da negativação e a recuperação gradual do acesso ao crédito, o consumidor pode voltar a receber ofertas de cartões, empréstimos e compras parceladas.
Para os especialistas, esse não deve ser interpretado como um sinal de que há espaço para assumir imediatamente novas dívidas.
“Limpar o nome é uma etapa importante, mas recuperação financeira significa conseguir pagar a dívida renegociada sem criar outra. O consumidor precisa recuperar margem no orçamento antes de assumir novos compromissos”, afirma Hiraki.
A prioridade deve ser manter as parcelas do acordo em dia e, quando possível, começar a reconstruir uma reserva financeira para despesas inesperadas.
Entender como a dívida começou também faz parte do processo
Além dos números, os especialistas recomendam identificar o comportamento que contribuiu para o endividamento.
Uso recorrente do cartão de crédito para complementar a renda, excesso de compras parceladas, ausência de controle das despesas e contratação de crédito para pagar outras dívidas podem indicar que o problema não será solucionado apenas com a renegociação.
“O acordo resolve uma dívida que ficou para trás. A organização financeira é o que reduz a chance de repetir o problema nos meses seguintes”, conclui José Leonardo.
Para quem pretende aderir ao Novo Desenrola, a recomendação é consultar as condições oferecidas pela instituição financeira e comparar o valor da nova prestação com a renda disponível antes de fechar o acordo.
O prazo atual de adesão termina em 31 de agosto.


