Brasil tem 20,3 milhões de pessoas em situação de endividamento de risco, diz BC

Número cresceu 75% em cinco anos; entre brasileiros que ganham até dois salários mínimos, dívidas comprometem 42% da renda

O número de brasileiros em situação de endividamento de risco chegou a 20,3 milhões em junho de 2026, um aumento de 75% em cinco anos. Os dados são do Relatório de Estabilidade Financeira do Banco Central, divulgado na terça-feira (27).

Esse grupo representa 17% das pessoas com dívidas no Sistema Financeiro Nacional. O levantamento também mostra que o problema afeta especialmente a população de menor renda. Entre os brasileiros que recebem até dois salários mínimos, 42% da renda está comprometida com o pagamento de dívidas.

Veja também: Brasileiros comprometem 29% da renda com dívidas, aponta Banco Central

O que é endividamento de risco?

Ter dívidas não significa necessariamente estar em dificuldades financeiras. Uma pessoa que financia um imóvel, compra um carro parcelado ou utiliza o cartão de crédito também é considerada endividada.

A situação se torna mais preocupante quando as dívidas passam a consumir uma parcela elevada da renda ou quando o consumidor precisa recorrer a diferentes empréstimos para manter seus pagamentos.

Para identificar o endividamento de risco, o Banco Central considera quatro condições:

  • Ter parcelas de crédito atrasadas há mais de 90 dias;
  • Comprometer mais de 50% da renda mensal com dívidas;
  • Utilizar simultaneamente cheque especial, empréstimo pessoal não consignado e crédito rotativo do cartão;
  • Ficar com uma renda inferior à linha de pobreza depois de pagar as dívidas.

Para entrar nessa classificação, a pessoa precisa apresentar pelo menos duas dessas condições.

Isso significa que nem todos os 20,3 milhões de brasileiros identificados pelo Banco Central estão necessariamente com contas atrasadas.

Dívidas pesam mais sobre quem ganha menos

A diferença entre as faixas de renda é um dos principais pontos do levantamento.

Entre os brasileiros que recebem até dois salários mínimos, o comprometimento da renda com dívidas chegou a 42%. Desse total, 15 pontos percentuais correspondem a compromissos relacionados ao cartão de crédito.

Para entender o impacto, imagine uma pessoa que recebe R$ 2 mil por mês. Caso comprometesse 42% da renda, teria R$ 840 destinados ao pagamento de dívidas, restando R$ 1.160 para outras despesas.

O exemplo é ilustrativo e não representa necessariamente a situação individual dos brasileiros dessa faixa de renda.

Entre aqueles que ganham mais de dez salários mínimos, o comprometimento médio informado pelo Banco Central é de 18,6% da renda.

Cartão de crédito e cheque especial preocupam

O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, demonstrou preocupação com o crescimento de modalidades de empréstimo sem garantia, como o cheque especial, o crédito rotativo do cartão e o empréstimo pessoal não consignado.

Essas modalidades podem apresentar juros elevados, aumentando o custo das dívidas para quem não consegue realizar os pagamentos integralmente.

Dados divulgados pelo Banco Central nesta quinta-feira (29) mostram que a taxa média de juros do crédito livre para pessoas físicas chegou a 62,4% ao ano em setembro, crescimento de 3,7 pontos percentuais em 12 meses.

O percentual corresponde à média de diferentes operações de crédito e não representa uma taxa única cobrada de todos os consumidores.

Banco Central prepara medidas para proteger consumidores

Diante do aumento do endividamento de risco, o Banco Central anunciou mudanças nas regras de oferta de crédito pelas instituições financeiras.

Uma das medidas prevê mecanismos para que consumidores possam bloquear publicidade e propostas ativas de empréstimos.

Para pessoas consideradas vulneráveis ou em risco de endividamento excessivo, determinadas ofertas deverão depender de autorização prévia, específica e inequívoca. Nesses casos, as propostas deverão se limitar a alternativas que melhorem as condições financeiras do cliente, como renegociação ou transferência da dívida para outra instituição.

As regras de bloqueio de ofertas estão previstas para entrar em vigor em 31 de março de 2027.

Outras medidas, programadas para julho de 2027, incluem ferramentas digitais para consultar informações sobre dívidas e restrições a ofertas de crédito durante operações iniciadas pelo Pix.

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