Imagine querer criar um sistema para administrar uma pequena empresa. Em vez de contratar uma equipe de desenvolvedores ou aprender uma linguagem de programação, você abre uma plataforma de inteligência artificial e escreve:
“Crie um sistema para cadastrar clientes, registrar vendas e mostrar o faturamento mensal em um painel.”
A inteligência artificial interpreta o pedido, cria a estrutura do aplicativo, escreve o código necessário e apresenta uma primeira versão funcionando. Se algo não estiver como esperado, o usuário pode continuar a conversa:
“Adicione um cadastro de funcionários.”
“Agora crie uma tela de login.”
“Coloque um gráfico comparando as vendas dos últimos seis meses.”
Essa forma de desenvolver software ficou conhecida como vibe coding e está por trás do rápido crescimento de plataformas que prometem permitir a criação de produtos digitais utilizando principalmente linguagem natural.
Na prática, o usuário passa menos tempo escrevendo linhas de código e mais tempo explicando para a inteligência artificial o que deseja construir.
O que significa vibe coding?
O termo foi popularizado em 2025 pelo pesquisador e engenheiro de inteligência artificial Andrej Karpathy, conhecido por ter trabalhado na OpenAI e liderado a área de inteligência artificial da Tesla.
A expressão rapidamente se espalhou pelo setor de tecnologia e foi escolhida pelo Collins Dictionary como Palavra do Ano de 2025.
Em sua definição, vibe coding é o uso de inteligência artificial orientada por comandos em linguagem natural para escrever código de computador.
A ideia representa uma mudança importante na relação entre pessoas e programação.
No desenvolvimento tradicional, alguém precisa conhecer linguagens como JavaScript, Python, Java ou PHP e escrever instruções utilizando a sintaxe exigida por cada tecnologia.
No vibe coding, parte dessa tradução fica sob responsabilidade da IA.
O usuário explica o resultado que deseja e o modelo transforma essas instruções em código.
Como uma plataforma de vibe coding funciona?
Embora cada serviço tenha características diferentes, o processo normalmente começa com um prompt, nome dado ao comando fornecido à inteligência artificial.
O usuário pode escrever, por exemplo:
“Quero criar um site para uma agência de viagens. Ele precisa ter página inicial, catálogo de pacotes, formulário para solicitar orçamento e uma área administrativa.”
A plataforma analisa as instruções e começa a construir o projeto.
Dependendo da ferramenta, a IA pode criar a interface, páginas, menus, formulários e componentes, escrever o código, configurar banco de dados e autenticação, conectar serviços externos e preparar a aplicação para publicação.
A partir daí começa um processo de conversa.
Em vez de editar manualmente centenas de linhas de código, o usuário pode pedir:
“Troque a posição deste botão.”
“Crie uma página para cada destino.”
“Permita que o administrador altere os preços.”
“Envie um e-mail quando alguém solicitar orçamento.”
“Faça o site funcionar melhor no celular.”
A IA interpreta cada solicitação e modifica o projeto.
É justamente essa dinâmica que diferencia essas plataformas dos antigos construtores de sites baseados apenas em modelos prontos.
Lovable, Replit e Bolt são exemplos
O crescimento do mercado criou diferentes tipos de ferramentas.
A Lovable se tornou um dos exemplos mais conhecidos ao permitir que usuários descrevam um produto e utilizem IA para construir aplicações web completas. A companhia afirma que seu objetivo não é simplesmente entregar código, mas possibilitar que o usuário chegue a um produto publicado.
A empresa ultrapassou recentemente US$ 600 milhões em receita anualizada, enquanto aplicações construídas por usuários da plataforma recebem, conjuntamente, quase 1 bilhão de visualizações mensais.
A Replit também utiliza agentes de inteligência artificial capazes de desenvolver aplicações a partir de instruções fornecidas pelo usuário.
Já ferramentas como Bolt permitem criar e executar projetos diretamente pelo navegador.
Existem ainda produtos como Cursor e Claude Code, mais próximos do ambiente tradicional de programação e voltados principalmente a desenvolvedores que utilizam IA para acelerar seu trabalho.
Apesar das diferenças, todos fazem parte de uma transformação maior: utilizar modelos de inteligência artificial para reduzir o trabalho manual necessário para desenvolver software.
É preciso saber programar para fazer vibe coding?
Não necessariamente.
Essa é justamente uma das razões para o crescimento dessas plataformas.
Uma pessoa sem experiência avançada em desenvolvimento pode conseguir criar um site, protótipo, ferramenta interna ou até determinadas aplicações completas apenas descrevendo o que precisa.
Isso está permitindo que profissionais de áreas como marketing, design, vendas, administração e empreendedorismo experimentem ideias que anteriormente dependeriam de uma equipe técnica.
Também começa a surgir uma categoria de microaplicativos: programas criados para resolver necessidades muito específicas de uma pessoa ou empresa.
Em vez de procurar um software pronto para cada pequeno problema, alguém pode simplesmente pedir para uma IA construir uma ferramenta personalizada.
Mas não precisar escrever código não significa que conhecimento técnico tenha deixado de ser importante.
Vibe coding não elimina os desenvolvedores
Quanto mais complexo e crítico for um sistema, maior tende a ser a necessidade de conhecimento técnico.
A inteligência artificial pode produzir código que funciona aparentemente bem, mas contém problemas de segurança, arquitetura, desempenho ou manutenção que não são facilmente percebidos por alguém sem experiência.
Um aplicativo simples utilizado por poucas pessoas possui riscos muito diferentes de um sistema responsável por pagamentos, dados médicos, informações financeiras ou milhões de usuários.
Também existem questões envolvendo banco de dados, autenticação, permissões, APIs, custos de infraestrutura, privacidade e proteção de informações.
Por isso, plataformas de vibe coding podem reduzir drasticamente a barreira para começar a desenvolver, mas não necessariamente eliminam a necessidade de profissionais especializados quando o projeto cresce.
Para desenvolvedores, essas ferramentas também podem funcionar como aceleradores. Em vez de escrever manualmente componentes repetitivos, o profissional pode delegar parte do trabalho à IA e concentrar sua atenção em arquitetura, segurança e decisões mais complexas.
Quais são os riscos?
A facilidade para criar software também traz novos problemas.
Um usuário pode colocar uma aplicação no ar sem compreender completamente o código produzido pela inteligência artificial.
Isso pode resultar em falhas de segurança, exposição indevida de bancos de dados, permissões configuradas incorretamente ou dependência excessiva de serviços externos.
Outro risco é acreditar que uma aplicação está pronta simplesmente porque sua interface funciona.
Um botão pode realizar a ação esperada na tela enquanto, nos bastidores, existem problemas que só aparecerão quando o número de usuários crescer ou quando ocorrer uma situação não prevista durante a construção.
Por isso, testes, revisão de segurança, controle de acesso, backups e monitoramento continuam importantes.
Qual a diferença entre no-code, low-code e vibe coding?
Os conceitos podem parecer semelhantes, mas existem diferenças.
Ferramentas no-code tradicionalmente permitem construir aplicações utilizando interfaces visuais, blocos e componentes previamente configurados.
No low-code, parte do desenvolvimento ocorre visualmente, mas código ainda pode ser necessário para funções mais específicas.
No vibe coding, a principal interface passa a ser a própria linguagem.
Em vez de arrastar um botão para determinada posição, o usuário pode simplesmente dizer:
“Coloque o botão abaixo do formulário e faça com que fique verde quando o cadastro for concluído.”
A IA interpreta a intenção e decide quais alterações técnicas serão necessárias.
A diferença fundamental está, portanto, na interface entre pessoa e máquina: a conversa passa a funcionar como uma linguagem de programação de alto nível.
Qualquer pessoa poderá criar seu próprio aplicativo?
Essa é uma das grandes apostas do setor.
Durante décadas, criar software exigiu dominar linguagens e ferramentas específicas ou contratar profissionais capazes de utilizá-las.
A inteligência artificial começa a reduzir essa barreira.
Isso não significa que qualquer pessoa conseguirá construir imediatamente um banco digital, uma rede social global ou um sistema empresarial complexo apenas escrevendo alguns prompts.
Mas tarefas que anteriormente exigiam dias ou semanas de desenvolvimento já podem, em determinados casos, ser prototipadas em horas.
É essa mudança que explica o interesse de investidores e grandes empresas nas plataformas de vibe coding.
O software pode estar começando a passar pela mesma transformação que ocorreu em outras áreas com a inteligência artificial generativa: a capacidade técnica continua importante, mas a distância entre ter uma ideia e conseguir executá-la ficou consideravelmente menor.


