Criar um aplicativo deixou de ser uma tarefa restrita a quem sabe programar. Essa mudança começa a aparecer também nos números das empresas que apostaram na chamada programação por inteligência artificial. A Lovable, uma das principais plataformas de “vibe coding” do mercado, ultrapassou a marca de US$ 600 milhões em receita anualizada (ARR).
O número foi revelado pelo cofundador da empresa, Fabian Hedin, durante o HumanX, realizado em Amsterdã, e representa mais um salto no crescimento da startup. Em junho, a companhia informava uma receita anualizada próxima de US$ 500 milhões.
A Lovable também vem avançando no mercado corporativo. Segundo Hedin, funcionários de aproximadamente dois terços das empresas da Fortune 500 já utilizam a plataforma. Microsoft, Nvidia e Deutsche Telekom estão entre as companhias citadas como clientes.
Mais do que o crescimento de uma startup, os números ajudam a dimensionar um mercado que praticamente não existia há poucos anos: o de pessoas e empresas construindo softwares completos por meio de comandos em linguagem natural.
Do comando de texto para um produto funcionando
O conceito de vibe coding ganhou espaço com ferramentas capazes de transformar instruções escritas pelo usuário em código. A proposta da Lovable, entretanto, procura avançar algumas etapas.
Em vez de entregar apenas trechos de código, a plataforma busca permitir que o usuário construa o produto, conecte banco de dados e serviços externos, publique a aplicação e continue desenvolvendo o sistema utilizando conversas com a inteligência artificial.
Essa diferença foi destacada pelo próprio Hedin ao falar sobre concorrentes como Codex e Claude Code. Para o executivo, enquanto algumas ferramentas têm o código como resultado, a Lovable procura entregar um produto e, cada vez mais, possibilitar a construção de um negócio.
Os aplicativos construídos na plataforma já estariam recebendo, conjuntamente, quase 1 bilhão de visitas mensais, segundo dados apresentados pelo executivo.
Lovable já vale US$ 13,3 bilhões
O crescimento da receita veio acompanhado de uma rápida valorização.
Em dezembro de 2025, a Lovable levantou US$ 300 milhões em uma rodada que avaliou a companhia em US$ 6,6 bilhões. Oito meses depois, em agosto de 2026, uma nova rodada Série C captou outros US$ 400 milhões, elevando a avaliação para US$ 13,3 bilhões.
Em apenas essas duas rodadas, portanto, foram mais de US$ 700 milhões captados, enquanto o valor atribuído à empresa praticamente dobrou.
O movimento mostra como investidores estão apostando que a inteligência artificial poderá reduzir uma das principais barreiras existentes para a criação de produtos digitais: a necessidade de equipes especializadas para transformar uma ideia em software.
Plataforma começa a ir além da criação de aplicativos
A Lovable também está ampliando o escopo de sua ferramenta.
Nesta semana, a empresa liberou uma modalidade que permite conversar gratuitamente com a IA antes de começar a construir um projeto. O usuário pode, por exemplo, discutir uma ideia, analisar feedback de clientes, elaborar um plano ou trabalhar sobre uma aplicação já existente.
Outra frente são os agentes de inteligência artificial. A companhia detalhou uma arquitetura que permite que esses agentes mantenham informações sobre suas atividades e continuem funcionando mesmo depois de novas versões de uma aplicação serem publicadas.
Também em setembro, a Lovable anunciou a aquisição da Sutro, integração com o Salesforce, um programa de parceiros e uma infraestrutura desenvolvida em Rust para tornar a visualização dos projetos mais rápida e consumir menos memória.
A velocidade das mudanças mostra que a disputa começa a deixar de ser apenas sobre quem consegue gerar código melhor com inteligência artificial.
O objetivo agora é transformar essas plataformas em ambientes completos para construir, publicar, administrar e manter negócios digitais.
A própria Lovable virou um aplicativo da Lovable
Um dos experimentos mais interessantes ocorreu dentro da própria companhia.
Em agosto, a empresa informou ter migrado o site lovable.dev, que recebe cerca de 42 milhões de visitantes mensais, para sua própria plataforma. A estrutura envolvia aproximadamente 400 rotas e 850 mil linhas de código e foi migrada, em grande parte, com a utilização de agentes de IA.
O caso funciona como uma demonstração da ambição da companhia: mostrar que ferramentas inicialmente associadas à criação rápida de protótipos podem também sustentar aplicações de grande escala.
Essa talvez seja a próxima fronteira do vibe coding. A questão já não é apenas se uma pessoa sem formação em programação consegue criar um aplicativo utilizando inteligência artificial, mas até onde esses sistemas podem substituir partes do processo tradicional de desenvolvimento de software.


