Durante mais de duas décadas, empresas investiram em SEO para conquistar as primeiras posições do Google. Agora, uma nova disputa começa a ganhar bilhões de dólares: ser encontrado, citado e recomendado pelas inteligências artificiais.
A Profound, startup especializada em analisar e melhorar a presença de marcas em respostas produzidas por ferramentas como ChatGPT, Gemini e Perplexity, captou US$ 180 milhões em uma nova rodada de investimentos e passou a ser avaliada em US$ 1,8 bilhão.
O investimento, anunciado nesta terça-feira (15), foi liderado pela Sequoia Capital e pela Kleiner Perkins e aconteceu menos de sete meses depois de a empresa captar outros US$ 96 milhões.
Mais do que a valorização de uma startup, o movimento mostra o surgimento de um novo mercado em torno da forma como consumidores encontram empresas, produtos e serviços na era da inteligência artificial.
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Do Google para as respostas da inteligência artificial
No modelo tradicional de busca, uma pessoa procura algo no Google e recebe uma página com diferentes resultados.
Empresas disputam essas posições utilizando estratégias de SEO, sigla em inglês para otimização para mecanismos de busca.
A popularização dos assistentes de inteligência artificial começa a modificar essa jornada.
Um consumidor pode perguntar diretamente ao ChatGPT, Gemini ou Perplexity:
“Qual é o melhor notebook para trabalhar?”
“Qual hotel escolher no Rio de Janeiro?”
“Qual plataforma devo usar para criar uma loja virtual?”
“Quais empresas oferecem determinado serviço?”
Em vez de apresentar apenas uma lista de links, a inteligência artificial pode construir uma resposta, comparar alternativas e mencionar determinadas marcas.
Para as empresas, surge uma nova pergunta: como fazer uma marca aparecer nessas respostas?
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GEO e AEO criam novo mercado no marketing digital
Essa transformação impulsionou termos como GEO (Generative Engine Optimization) e AEO (Answer Engine Optimization).
Apesar de existirem diferenças entre as definições utilizadas pelo mercado, ambos estão relacionados à tentativa de compreender e melhorar a presença de marcas e conteúdos em sistemas que produzem respostas utilizando inteligência artificial.
A lógica possui semelhanças com o SEO, mas não é idêntica.
No Google tradicional, profissionais acompanham fatores como palavras-chave, backlinks, autoridade, estrutura das páginas e posicionamento nos resultados.
Nas ferramentas de IA, é necessário também entender quais fontes os modelos consultam, como descrevem determinada empresa, quais concorrentes aparecem e quais informações influenciam a resposta final.
É justamente nesse novo mercado que a Profound cresceu.
Profound já atende mais de mil grandes empresas
Fundada em 2024, em Nova York, a Profound começou como uma plataforma de análise para mostrar às empresas como consumidores encontravam suas marcas por meio da inteligência artificial.
A companhia afirma atender atualmente mais de mil marcas empresariais.
Entre os clientes citados pela empresa estão Walmart, Comcast, Estée Lauder, Royal Bank of Canada, Zoom, ServiceNow, Figma, MongoDB e Cursor.
Segundo a Profound, sua plataforma é utilizada por mais de um terço das empresas que fazem parte da Fortune 100.
A startup afirma ainda que sua receita triplicou nos últimos seis meses.
Os números são divulgados pela própria companhia e ajudam a mostrar a velocidade com que grandes empresas começaram a acompanhar sua presença nos mecanismos de resposta baseados em IA.
Empresa quase dobrou de valor em sete meses
O crescimento também aparece nas rodadas de investimento.
Em fevereiro, a Profound captou US$ 96 milhões e alcançou uma avaliação de US$ 1 bilhão.
Agora, menos de sete meses depois, a nova rodada de US$ 180 milhões elevou essa avaliação para US$ 1,8 bilhão.
Desde sua criação, a empresa já levantou mais de US$ 335 milhões.
A nova rodada foi coliderada por Sequoia Capital e Kleiner Perkins, com participação de investidores como Lightspeed Venture Partners, Khosla Ventures, Saga Ventures, Evantic e South Park Commons.
Não basta mais aparecer no ChatGPT
A estratégia da Profound também está mudando.
A companhia começou analisando como as marcas apareciam em respostas produzidas por inteligência artificial, mas está ampliando o negócio para diferentes etapas do marketing.
Uma das novas ferramentas é o AI Marketer, agente que analisa dados da marca e respostas das IAs para identificar oportunidades e executar tarefas utilizando outros agentes especializados.
A empresa também desenvolveu o Context Manager, que reúne informações sobre a organização e sua comunicação, além do Ads Studio, voltado à criação e gestão de campanhas publicitárias.
A ideia é sair da simples pergunta “minha empresa aparece no ChatGPT?” para participar de diferentes etapas da estratégia de marketing.
Por que aparecer nas respostas da IA vale tanto?
A aposta dos investidores está relacionada a uma mudança potencial no comportamento do consumidor.
Se mais pessoas começarem a utilizar inteligências artificiais para pesquisar produtos, comparar serviços e tomar decisões de compra, aparecer nessas respostas poderá adquirir valor comercial semelhante ao que ocupar boas posições no Google possui atualmente.
Há, porém, uma diferença importante.
Uma página de resultados tradicional pode apresentar diversos links.
Uma resposta produzida por inteligência artificial pode selecionar, resumir ou recomendar um número muito menor de empresas.
Isso potencialmente torna a disputa por visibilidade ainda mais concentrada.
Ao mesmo tempo, os mecanismos utilizados pelos modelos para construir suas respostas podem mudar rapidamente e variam entre diferentes plataformas.
SEO vai acabar?
O crescimento do GEO e do AEO não significa necessariamente o fim do SEO.
Buscadores continuam movimentando enorme volume de pesquisas, e os próprios sistemas de inteligência artificial dependem de informações disponíveis em sites, documentos, avaliações, notícias e outras fontes digitais.
Na prática, as estratégias tendem a se complementar.
Um site tecnicamente bem estruturado, com informações claras, conteúdo original, autoridade e presença consistente na internet continua sendo importante.
A diferença é que as empresas passam a pensar em dois tipos de descoberta: pessoas chegando diretamente aos seus sites por mecanismos de busca e pessoas conhecendo suas marcas dentro de respostas produzidas por IA.
Conteúdo jornalístico também entra nessa disputa
A transformação não interessa apenas a lojas e grandes marcas.
Veículos de comunicação, blogs e produtores de conteúdo também precisam acompanhar como suas informações aparecem nos mecanismos de inteligência artificial.
Uma reportagem pode ser encontrada pelo Google, utilizada como referência em uma resposta de IA ou servir como uma das fontes consultadas para responder a uma pergunta.
Isso cria novos desafios para publishers.
Além de conquistar tráfego, será cada vez mais importante compreender quando um conteúdo é citado, como a fonte é apresentada e se a presença dentro das respostas de IA gera audiência, reconhecimento ou receita.
É uma mudança particularmente importante para veículos que historicamente construíram estratégias de distribuição apoiadas em SEO.
Do SEO para a era da busca por IA
A avaliação de US$ 1,8 bilhão da Profound não significa que GEO ou AEO substituirão o SEO.
Também ainda não existe uma fórmula definitiva para garantir que uma empresa seja recomendada por um modelo de inteligência artificial.
Os sistemas mudam constantemente e cada plataforma possui métodos próprios para encontrar, processar e apresentar informações.
O crescimento da Profound mostra, porém, que grandes empresas já estão dispostas a investir para compreender esse novo ambiente.
Depois de anos perguntando “como aparecer primeiro no Google?”, departamentos de marketing começam a enfrentar uma segunda pergunta:
“O que a inteligência artificial diz sobre a minha marca quando alguém pergunta por ela?”


