Durante quase três décadas, pesquisar na internet esteve associado a uma ação praticamente automática: abrir o Google, escrever algumas palavras e escolher um dos links apresentados na tela.
Aos 28 anos, o Google começa a transformar justamente essa experiência.
A empresa celebrou seu aniversário neste domingo (27) com um Doodle que recuperou uma versão nostálgica de seu logotipo. Mas, enquanto olha para o passado, o buscador atravessa uma das maiores mudanças de sua história: a incorporação da inteligência artificial ao centro da pesquisa na internet.

As tradicionais páginas formadas por links agora dividem espaço com respostas produzidas por IA, conversas, pesquisas multimodais e sistemas capazes de realizar tarefas em nome do usuário.
Segundo o próprio Google, as Visões Gerais Criadas por IA, conhecidas como AI Overviews, já superam 2,5 bilhões de usuários ativos mensais, enquanto o Modo IA ultrapassou 1 bilhão.
A mudança é tão significativa que a empresa classificou a reformulação apresentada em 2026 como a maior atualização da Busca em mais de 25 anos.
O Google chega aos 28 anos, portanto, tentando reinventar o produto que ajudou a transformar a empresa em uma das maiores companhias de tecnologia do planeta.
De uma lista de links para respostas produzidas por IA
O funcionamento básico dos mecanismos de busca permaneceu relativamente reconhecível durante décadas.
O usuário digitava uma consulta e recebia uma página com sites considerados relevantes. A partir dali, cabia a ele abrir os resultados, comparar informações e encontrar a resposta desejada.
A inteligência artificial está alterando esse processo.
Com as AI Overviews, o Google passou a apresentar respostas geradas por IA diretamente na página de resultados, acompanhadas de links utilizados para aprofundar a pesquisa.
O Modo IA leva essa transformação ainda mais longe.
Em vez de realizar sucessivas pesquisas independentes, o usuário pode manter uma conversa com o buscador, fazer perguntas complementares e utilizar texto, imagens, arquivos, vídeos e outras informações para explicar o que procura.
Em maio, o Google também anunciou uma reformulação da tradicional caixa de pesquisa. A empresa passou a permitir consultas mais complexas e multimodais, tentando reduzir a dependência das antigas combinações de palavras-chave.
A lógica começa a se aproximar daquela popularizada por ferramentas como ChatGPT: em vez de apenas procurar páginas, o usuário conversa com um sistema capaz de interpretar sua intenção.
Google diz que pessoas estão pesquisando mais com IA
A mudança também levanta uma pergunta importante: se uma inteligência artificial consegue responder diretamente às perguntas, as pessoas ainda precisarão utilizar mecanismos de busca?
Os dados divulgados pelo Google indicam, até agora, o movimento contrário.
A companhia afirma que o volume total de pesquisas atingiu níveis recordes e que as consultas realizadas no Modo IA vêm crescendo rapidamente.
Segundo a empresa, o número de buscas feitas por meio do recurso mais que dobrou a cada trimestre desde seu lançamento.
O comportamento também estaria mudando.
Em vez de utilizar apenas consultas curtas, usuários começam a formular perguntas maiores e mais específicas, justamente porque os modelos de inteligência artificial conseguem interpretar contexto e acompanhar uma sequência de perguntas.
Isso transforma a Busca de uma ferramenta baseada principalmente em palavras-chave em uma experiência cada vez mais conversacional.
Próxima etapa são agentes que pesquisam sozinhos
A transformação não termina nas respostas geradas por IA.
O Google também começou a levar agentes de inteligência artificial para a Busca.
Esses sistemas podem receber uma tarefa e continuar trabalhando em segundo plano, pesquisando informações em sites, notícias, redes sociais e bases de dados para acompanhar determinado assunto.
Um usuário poderá, por exemplo, criar um agente para monitorar preços, acompanhar um tema específico ou identificar mudanças relacionadas a algo que pretende comprar.
Em vez de pesquisar repetidamente pela mesma informação, o próprio sistema passa a realizar parte desse trabalho.
É uma mudança significativa na função original de um mecanismo de busca.
O Google nasceu para ajudar pessoas a encontrar informações. Agora tenta construir sistemas capazes de encontrar, interpretar, acompanhar e até agir sobre essas informações.
O que muda para sites e produtores de conteúdo?
A transformação também cria uma questão importante para empresas, veículos de comunicação, lojas e produtores de conteúdo que dependem do tráfego vindo das buscas.
Durante anos, a lógica foi relativamente simples: alguém pesquisava, o Google apresentava resultados e parte desses usuários clicava nos sites.
Com respostas geradas por inteligência artificial, uma parcela maior da informação pode ser apresentada diretamente dentro do próprio buscador.
Isso aumenta a importância de uma pergunta que já mobiliza o mercado digital: quantas pessoas continuarão clicando nos sites depois de receber uma resposta produzida pela IA?
O Google afirma que seus recursos de inteligência artificial continuam direcionando usuários para páginas externas e que trabalha para destacar conteúdos originais e fontes consideradas relevantes.
Em 2026, a empresa também ampliou recursos voltados aos proprietários de sites e passou a oferecer mais informações e controles relacionados à presença de conteúdo nas experiências de Busca com IA.
Além disso, introduziu mecanismos como fontes preferidas e novas formas de destacar conteúdos originais dentro das respostas.
Para publishers e profissionais de SEO, porém, a transformação exige adaptação.
A disputa deixa de ser apenas por uma posição entre os tradicionais links azuis e passa também pela possibilidade de um conteúdo ser utilizado, citado ou recomendado dentro de uma resposta produzida por inteligência artificial.
Do SEO à busca com inteligência artificial
Durante décadas, empresas construíram estratégias de SEO para ajudar mecanismos de busca a compreender seus conteúdos.
Palavras-chave, autoridade, estrutura das páginas, links e qualidade editorial continuam relevantes.
Mas a expansão da inteligência artificial adiciona uma nova camada.
Os sistemas precisam não apenas localizar uma página, mas compreender informações suficientes para utilizá-las na construção de respostas mais complexas.
Isso tende a aumentar a importância de conteúdos originais, dados próprios, informações claramente estruturadas e textos capazes de responder perguntas específicas dos usuários.
Ao mesmo tempo, o próprio Google procura preservar a relação entre sua inteligência artificial e a web aberta, já que boa parte do conhecimento utilizado por esses sistemas continua sendo produzido por sites externos.
Essa relação entre buscadores, inteligência artificial e produtores de conteúdo deverá ser uma das principais disputas da próxima fase da internet.
Por que o Google comemora aniversário em 27 de setembro?
Existe ainda uma curiosidade na celebração dos 28 anos.
A Google Inc. foi oficialmente constituída em 4 de setembro de 1998, por Larry Page e Sergey Brin. Mesmo assim, há mais de uma década a empresa comemora seu aniversário em 27 de setembro.
O próprio Google já reconheceu que a data exata de seu nascimento é motivo de debate até dentro da companhia.
O primeiro Doodle também surgiu em 1998, antes mesmo da incorporação oficial da empresa. A imagem foi criada para avisar informalmente aos usuários que os fundadores estavam fora do escritório durante uma viagem.
Neste ano, a empresa voltou às origens e utilizou em seu Doodle de aniversário uma identidade visual inspirada nos primeiros anos do buscador.
Aos 28 anos, Google tenta reinventar o próprio Google
Quando surgiu em 1998, o desafio do Google era organizar uma internet que crescia rapidamente e ajudar as pessoas a encontrar páginas relevantes em meio a uma quantidade cada vez maior de informações.
Vinte e oito anos depois, o problema é diferente.
A quantidade de informação continua crescendo, mas agora modelos de inteligência artificial conseguem ler, interpretar, resumir e combinar conteúdos antes mesmo que o usuário visite uma página.
O Google tenta responder transformando seu mecanismo de busca em algo que mistura pesquisa, inteligência artificial, conversa, personalização e agentes.
A empresa que ensinou bilhões de pessoas a pesquisar na internet agora precisa convencer esses mesmos usuários de que o Google também pode ser o lugar onde eles conversam com a inteligência artificial para encontrar respostas.
Aos 28 anos, a maior transformação da Busca pode não estar em encontrar mais links, mas em redefinir o que significa pesquisar na internet.


