A próxima geração de assistentes de inteligência artificial pode não precisar de um aplicativo próprio. Em vez de abrir ChatGPT, Gemini ou outra plataforma, a proposta é simplesmente enviar uma mensagem e deixar a IA realizar a tarefa.
Essa é a ideia por trás do SZN, agente de inteligência artificial criado por um ex-engenheiro da Apple que trabalhou no desenvolvimento do Apple Intelligence.
O serviço funciona diretamente pelo iMessage, aplicativo de mensagens presente no iPhone, iPad e Mac, e permite solicitar tarefas utilizando uma conversa semelhante à que o usuário teria com outra pessoa.
A diferença é o que acontece depois da mensagem.
Em vez de apenas responder como executar determinada tarefa, o agente pode navegar por sites, pesquisar opções, conversar com prestadores de serviços e realizar compras em nome do usuário.
A proposta representa uma mudança importante na evolução dos assistentes digitais: a inteligência artificial deixa de apenas fornecer informações e começa a executar ações no mundo digital.
Da resposta para a execução
Chatbots popularizaram uma dinâmica relativamente simples.
O usuário faz uma pergunta e a inteligência artificial produz uma resposta.
Se alguém pergunta onde encontrar determinado produto, por exemplo, a IA pode apresentar opções de lojas, comparar preços ou explicar as diferenças entre os modelos disponíveis.
Um agente procura avançar uma etapa.
Em vez de apenas recomendar onde comprar, ele pode receber uma instrução como:
“Encontre esse produto pelo menor preço e compre para mim.”
A partir daí, o sistema precisa interpretar o pedido, pesquisar na internet, comparar alternativas, acessar uma loja, preencher informações e concluir a operação de acordo com as permissões concedidas pelo usuário.
É justamente esse tipo de experiência que empresas de inteligência artificial começam a chamar de agentes.
SZN funciona dentro do iMessage
Uma das diferenças do SZN está na interface escolhida.
O usuário não precisa necessariamente aprender a utilizar um novo aplicativo ou painel. A interação ocorre dentro do próprio iMessage.
A ideia é transformar a conversa em uma espécie de controle remoto para serviços disponíveis na internet.
O usuário escreve o que deseja e o agente tenta descobrir quais etapas são necessárias para concluir a solicitação.
Isso pode envolver pesquisar um produto, localizar um serviço ou navegar por diferentes páginas até encontrar a opção adequada.
A estratégia também aponta para uma tendência maior no mercado de inteligência artificial: fazer os agentes aparecerem dentro das ferramentas que as pessoas já utilizam, em vez de obrigar o usuário a acessar uma nova plataforma para cada tarefa.
Quem criou o SZN?
O projeto foi desenvolvido por Jesse Zhang, ex-engenheiro da Apple que trabalhou no Apple Intelligence.
Depois de deixar a companhia, Zhang passou a trabalhar em uma abordagem baseada em agentes capazes de operar computadores e navegar pela internet.
A proposta é reduzir a quantidade de etapas necessárias para realizar tarefas digitais.
Em vez de abrir um navegador, pesquisar diferentes sites, comparar opções e concluir manualmente uma operação, parte desse processo passa a ser delegada à inteligência artificial.
O modelo se aproxima da ideia de um assistente pessoal digital, conceito perseguido pela indústria de tecnologia há décadas.
A diferença é que os atuais modelos de IA conseguem interpretar linguagem natural e utilizar ferramentas externas de maneira muito mais sofisticada do que assistentes tradicionais como Siri, Alexa ou Google Assistant.
Agentes de IA começam a entrar no comércio eletrônico
O SZN não está sozinho nessa corrida.
Grandes empresas de tecnologia trabalham em sistemas capazes de transformar inteligência artificial em intermediária entre consumidores e lojas.
OpenAI, Google, Anthropic e outras companhias vêm desenvolvendo recursos nos quais modelos podem navegar pela internet, pesquisar produtos e executar etapas de tarefas em nome do usuário.
Esse movimento deu origem a uma expressão que começa a ganhar espaço no mercado: agentic commerce, ou comércio realizado por agentes.
A ideia é que, no futuro, parte das compras online possa acontecer sem que o consumidor visite diretamente todas as lojas envolvidas.
Em vez disso, ele poderá dizer:
“Encontre um hotel em São Paulo perto do evento, com café da manhã e diária de até R$ 500.”
Ou:
“Compre um presente de aniversário de até R$ 200 e entregue até sexta-feira.”
A inteligência artificial faria a pesquisa e apresentaria uma opção ou, dependendo da autorização concedida, poderia concluir a operação.
Bancos já discutem riscos desse modelo
A possibilidade de agentes realizarem compras também cria novos desafios.
Instituições financeiras começaram a discutir como identificar uma transação realizada legitimamente por uma inteligência artificial autorizada pelo consumidor e diferenciá-la de uma fraude.
Também surge uma questão de responsabilidade.
Se um agente comprar o produto errado, contratar um serviço diferente do solicitado ou pagar um preço superior ao esperado, quem será responsável?
- O consumidor?
- A empresa que desenvolveu o agente?
- A loja?
- A instituição responsável pelo pagamento?
Essas perguntas tendem a ganhar importância conforme sistemas autônomos passam a receber acesso a cartões, contas e outros meios de pagamento.
Privacidade também entra na discussão
Para realizar tarefas em nome do usuário, agentes precisam ter acesso a informações.
Dependendo da atividade, isso pode envolver nome, endereço, localização, preferências, histórico de compras e dados necessários para pagamentos.
Quanto maior a autonomia do agente, maior tende a ser a quantidade de permissões necessárias.
Esse é um dos principais desafios para a próxima geração de produtos de inteligência artificial.
Um chatbot pode funcionar com acesso relativamente limitado às informações do usuário.
Um agente capaz de comprar uma passagem aérea, reservar um restaurante ou contratar um serviço precisa interagir com diferentes sistemas e transmitir determinados dados para concluir essas operações.
Empresas terão de encontrar um equilíbrio entre conveniência e controle.
O aplicativo pode deixar de ser a principal interface?
O SZN também levanta outra questão interessante para o mercado de tecnologia.
Durante mais de uma década, o smartphone foi organizado em torno de aplicativos.
Para pedir comida, o usuário abre um app. Para comprar uma passagem, abre outro. Para reservar um hotel, outro. Para chamar transporte, outro.
Agentes de inteligência artificial podem modificar essa dinâmica.
Em vez de decidir qual aplicativo utilizar, o usuário simplesmente explica o que deseja fazer.
A própria IA poderia então decidir quais serviços consultar para executar a tarefa.
Nesse cenário, mensagens e assistentes se transformariam em uma camada entre o consumidor e os aplicativos tradicionais.
Isso poderia afetar não apenas empresas de inteligência artificial, mas também comércio eletrônico, marketplaces, plataformas de viagens e negócios que hoje dependem do acesso direto dos consumidores aos seus aplicativos.
Uma nova fase dos assistentes digitais
Ainda é cedo para saber se serviços como o SZN conseguirão substituir parte das interações que hoje acontecem em aplicativos e sites.
Questões envolvendo segurança, pagamentos, privacidade e confiabilidade ainda precisam ser resolvidas.
Mas a direção da indústria começa a ficar mais clara.
A primeira geração de IA generativa mostrou que máquinas conseguem conversar de maneira convincente com usuários.
A próxima disputa é fazer com que esses sistemas consigam agir.
Quando isso acontece, o valor de um assistente deixa de ser medido apenas pela qualidade da resposta.
Passa a depender também de uma pergunta mais prática: o que essa inteligência artificial consegue fazer por você depois que a conversa termina?


