Demi Lovato: da estrela da Disney às sequelas de uma overdose e a um novo capítulo no Rock in Rio

Anos depois de quase perder a vida, cantora voltou ao palco do Rock in Rio e teve as consequências da overdose de 2018 novamente discutidas nas redes sociais

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A apresentação de Demi Lovato no Rock in Rio 2026 foi marcada por hits, potência vocal e uma participação especial de Pabllo Vittar. No Palco Mundo, a cantora apresentou músicas como “Heart Attack”, “Confident”, “Tell Me You Love Me”, “Skyscraper” e “Cool for the Summer”, além de mostrar uma fase mais pop de sua carreira. Mas, enquanto Demi cantava diante de milhares de pessoas, outro assunto relacionado à artista voltava a chamar atenção nas redes sociais: as mudanças em sua visão após a overdose que quase tirou sua vida em 2018.

A repercussão fez com que internautas relembrassem uma das fases mais difíceis da trajetória da cantora. O que para muitos começou como uma discussão sobre sua aparência e sua visão acabou trazendo novamente à tona uma história marcada por fama precoce, problemas de saúde, dependência química, recaídas e, principalmente, sobrevivência.

Do Disney Channel ao estrelato

Demi Lovato começou a trabalhar ainda criança e ganhou projeção mundial ao interpretar Mitchie Torres em Camp Rock, produção do Disney Channel lançada em 2008. Ao lado dos Jonas Brothers, a personagem transformou Demi em um dos grandes nomes da geração de artistas que cresceram dentro da Disney.

Demi em Camp Rock Reprodução/Disney

Pouco depois, a cantora também estrelou a série Sunny entre Estrelas e iniciou uma carreira musical própria. Álbuns como Don’t Forget, Here We Go Again e Unbroken ajudaram a consolidar seu nome na música pop.

A ascensão, porém, aconteceu enquanto Demi enfrentava problemas pessoais que começaram muito antes de ela chegar ao auge da fama.

Ainda adolescente, a cantora passou por dificuldades relacionadas à alimentação, automutilação e uso de substâncias. Em 2010, aos 18 anos, ela deixou a turnê que fazia com os Jonas Brothers e entrou em tratamento. Anos depois, Demi revelou que aquele primeiro período de recuperação não significou o fim de seus problemas com drogas e álcool.

Em documentários e entrevistas, ela contou que continuou enfrentando uma relação complicada com as substâncias e com a própria imagem. Em Simply Complicated, lançado em 2017, Demi falou abertamente sobre transtornos alimentares, automutilação e dependência.

A história mostra que a recuperação não aconteceu de maneira linear. Houve períodos de sobriedade, recaídas e novas tentativas de reconstruir a própria vida.

Pôster do documentário Reprodução/youtube

O caminho até 2018

Em junho de 2018, Demi lançou “Sober”, uma música na qual falava sobre uma recaída e sobre o fato de não estar mais conseguindo manter a sobriedade. Pouco mais de um mês depois, em julho, ela sofreu uma overdose em sua casa, em Los Angeles.

O episódio foi tão grave que Demi sofreu três derrames e um ataque cardíaco. Segundo o relato da própria cantora, os médicos disseram que ela tinha apenas alguns minutos de vida. O episódio também provocou falência de órgãos e deixou consequências neurológicas permanentes.

É importante entender que não existe uma explicação simples para o que aconteceu. A própria trajetória de Demi mostra uma combinação de fatores: anos de luta contra a dependência, problemas relacionados à alimentação e à saúde mental, traumas e as pressões de uma vida exposta ao público desde a adolescência.

A overdose, portanto, não apareceu como um acontecimento isolado, mas como o momento mais grave de uma batalha que a cantora já enfrentava havia anos.

As marcas que ficaram

Demi sobreviveu, mas a overdose deixou sequelas que continuam presentes.

Em 2021, durante a divulgação do documentário Dancing with the Devil, a cantora revelou que havia ficado com danos cerebrais. Ela contou que passou um período com a visão extremamente prejudicada e que tinha dificuldade até mesmo para ler. Também explicou que não dirige porque ficou com pontos cegos na visão.

Pôster do documentário Reprodução/Youtube

Anos depois, em 2023, Demi voltou a falar sobre o assunto e afirmou que ainda convivia com deficiência visual e auditiva decorrente da overdose. Segundo a cantora, os chamados “pontos cegos” permaneciam em sua visão.

É justamente essa informação que voltou a circular nas redes após sua apresentação no Rock in Rio. A imagem de Demi no palco, cantando e dançando diante de uma multidão, contrasta com a realidade de que parte das consequências daquele episódio ainda faz parte de sua vida.

Transformando dor em música

Depois da overdose, Demi passou a falar ainda mais abertamente sobre sua experiência.

Em 2021, lançou o álbum Dancing with the Devil… The Art of Starting Over, acompanhado pelo documentário Demi Lovato: Dancing with the Devil. O projeto revisitou momentos difíceis de sua vida e abordou temas como dependência, trauma, abuso, transtornos alimentares e recuperação.

No ano seguinte, com Holy Fvck, Demi voltou às raízes pop-rock e adotou uma sonoridade mais pesada. O álbum também trouxe músicas que conversavam diretamente com experiências difíceis de sua trajetória e com a tentativa de reconstruir sua identidade depois de tantos anos sob os holofotes.

Demi Lovato na era Holy Fvck Reprodução/@ddlovato

Em 2025, Demi lançou It’s Not That Deep, seu nono álbum de estúdio, marcando uma nova fase em sua carreira. Diferentemente dos trabalhos mais confessionais que vieram após a overdose, o disco apresenta uma abordagem mais leve e voltada para o pop, explorando relacionamentos, diversão, desejo e diferentes experiências da vida adulta. O álbum também representa uma mudança de perspectiva para a cantora, que passou a se permitir falar sobre sua vida sem necessariamente transformar todas as experiências em relatos sobre suas fases mais difíceis.

Ao longo desse processo, uma característica permaneceu: a capacidade de transformar experiências pessoais em música. Se antes Demi era conhecida principalmente como a estrela adolescente da Disney, sua carreira adulta passou a ser marcada também pela disposição de falar sobre assuntos que durante muito tempo foram tratados como tabu.

Do quase fim a um novo começo

A apresentação no Rock in Rio ajuda a dimensionar a trajetória de Demi Lovato.

Em 2018, ela esteve próxima da morte. Anos depois, carrega sequelas físicas daquele episódio, inclusive alterações na visão e na audição. Ainda assim, voltou aos grandes palcos, lançou novos discos, continuou sua carreira e, em setembro de 2026, subiu novamente ao Palco Mundo do Rock in Rio.

A apresentação teve ainda um momento especial para o público brasileiro: Demi chamou Pabllo Vittar ao palco e as duas encerraram o show cantando “Cool for the Summer”.

A história de Demi, porém, não deve ser resumida à ideia de uma “superação” perfeita. Recuperação não significa apagar o que aconteceu ou deixar de carregar consequências. No caso da cantora, significa continuar vivendo e trabalhando apesar das marcas que ficaram.

Demi Lovato nos bastidores do Rock in Rio Reprodução/@ddlovato

Por isso, talvez o que mais chame atenção na imagem de Demi hoje não seja apenas a mudança em sua visão. É o fato de que, mesmo convivendo com sequelas permanentes de um dos momentos mais graves de sua vida, ela continua subindo ao palco.

A menina que um dia ficou conhecida por cantar para uma geração inteira no Disney Channel se tornou uma mulher que precisou reconstruir a própria vida diante dos olhos do mundo. E, anos depois de quase perder a voz, a carreira e a própria vida, Demi Lovato continua cantando.

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