O Banco Mundial está negociando apoio financeiro emergencial com 30 a 40 países afetados pela alta dos preços da energia e de outros produtos essenciais. A instituição poderá mobilizar até US$ 100 bilhões caso a situação econômica internacional se agrave, segundo seu presidente, Ajay Banga.
A informação foi divulgada neste domingo (11), em entrevista à Reuters, às vésperas das reuniões anuais do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional (FMI), realizadas em Bangkok, na Tailândia.
As negociações ocorrem em meio aos efeitos econômicos da guerra no Oriente Médio, que pressionou os preços do petróleo, do diesel e dos fertilizantes. Países em desenvolvimento enfrentam ainda juros elevados e dificuldades para administrar suas dívidas.
O Banco Mundial não divulgou a relação das nações envolvidas nas conversas. Também não há confirmação de que o Brasil esteja entre os países que solicitaram assistência.
Banco Mundial já disponibilizou US$ 25 bilhões para emergências
Quando o conflito no Oriente Médio começou, no fim de fevereiro, o Banco Mundial disponibilizou US$ 25 bilhões para apoiar países afetados pela crise.
A procura inicial pelos recursos foi relativamente baixa. Segundo Banga, a economia global apresentou resistência maior do que a esperada, impulsionada, entre outros fatores, pelos investimentos em inteligência artificial e pela adaptação do mercado de petróleo.
Entretanto, o aumento dos preços dos combustíveis e dos insumos agrícolas começou a ampliar as dificuldades de diversas economias.
Além dos US$ 25 bilhões inicialmente disponibilizados, os países podem acessar aproximadamente US$ 35 bilhões por meio da readequação de projetos já aprovados.
Com isso, o volume de recursos potencialmente acessíveis chega a uma faixa de US$ 50 bilhões a US$ 60 bilhões.
Caso as condições internacionais piorem, a instituição afirma ter capacidade para ampliar o apoio financeiro até US$ 100 bilhões.
Esse valor representa uma possibilidade de financiamento, e não uma quantia já liberada aos países.
Alta do diesel e dos fertilizantes preocupa economias emergentes
O aumento dos custos de energia está entre os principais fatores de preocupação do Banco Mundial.
O diesel possui participação importante no transporte de mercadorias, nas atividades industriais e na produção agrícola. Quando seu preço sobe, diferentes setores podem enfrentar custos operacionais maiores.
Os fertilizantes também são essenciais para a agricultura. A elevação dos preços desses insumos pode encarecer a produção de alimentos e pressionar os preços ao consumidor.
Além disso, o Banco Mundial acompanha os riscos associados à possível ocorrência de um episódio intenso do fenômeno El Niño, capaz de provocar alterações nos regimes de chuva e temperatura em diferentes regiões.
A combinação desses fatores preocupa especialmente países que dependem da importação de combustíveis, alimentos ou fertilizantes.
Países em desenvolvimento enfrentam dívida de US$ 400 bilhões
Outro problema destacado pelo presidente do Banco Mundial é o elevado endividamento das economias em desenvolvimento.
Segundo estimativas da instituição, esses países terão aproximadamente US$ 400 bilhões em obrigações com credores externos em 2026.
Cerca de um terço desse valor corresponde ao pagamento de juros.
O cenário dificulta a capacidade dos governos de investir em infraestrutura, saúde, educação e outras áreas essenciais.
Com juros internacionais elevados, a contratação de novos financiamentos também pode se tornar mais cara.
Banga afirmou que parte dos países demonstra maior interesse em reorganizar projetos já existentes do que em solicitar imediatamente novos recursos emergenciais.
A instituição também trabalha com alternativas para reestruturação de dívidas e mobilização de investimentos privados.
Como a crise internacional pode afetar o Brasil?
Embora não exista confirmação de participação brasileira nas negociações emergenciais, os fatores que motivaram a iniciativa do Banco Mundial também merecem atenção no país.
O Brasil possui uma cadeia agrícola de grande dimensão e utiliza fertilizantes importados em diferentes culturas. Alterações nos preços internacionais desses produtos podem elevar os custos de produção.
O diesel, por sua vez, tem importância para o transporte rodoviário de cargas e para a movimentação de mercadorias.
A persistência de preços elevados pode pressionar empresas e consumidores, dependendo das condições do mercado interno, do câmbio e das medidas econômicas adotadas.
Isso não significa que haverá necessariamente novos aumentos de preços no Brasil. O impacto depende de diferentes fatores, incluindo a duração das pressões internacionais e a capacidade de adaptação dos setores produtivos.
O país também mantém projetos de desenvolvimento e operações financeiras com instituições do Grupo Banco Mundial, mas essas iniciativas não devem ser confundidas com o mecanismo emergencial discutido atualmente.
Banco Mundial busca ampliar participação de investidores privados
Além do apoio financeiro aos governos, o Banco Mundial pretende ampliar a participação do setor privado no financiamento de projetos de desenvolvimento.
Segundo a instituição, foram mobilizados US$ 112 bilhões em capital privado no último exercício financeiro, acompanhados por US$ 123 bilhões em recursos próprios.
O objetivo é estimular investimentos em infraestrutura, geração de empregos e serviços essenciais, reduzindo a dependência exclusiva dos orçamentos públicos.
A América Latina está entre as regiões que receberam volumes expressivos de capital privado mobilizado pela instituição, com o Brasil figurando entre os principais destinos globais.
As próximas decisões dependerão das negociações com os países interessados e da evolução das condições econômicas internacionais.
Por enquanto, o anúncio demonstra que o Banco Mundial está se preparando para uma possível ampliação da demanda por financiamento emergencial, em um cenário marcado por energia mais cara, endividamento elevado e riscos climáticos.

