Óculos com IA podem gravar você? Nova geração reacende debate sobre privacidade

Popularização de dispositivos com câmeras, microfones e inteligência artificial provoca questionamentos sobre consentimento de quem está ao redor

Priorizar nos meus resultados Google

Imagine entrar em um restaurante, conversar com alguém no trabalho ou simplesmente caminhar pela rua enquanto uma pessoa próxima usa óculos aparentemente comuns.

A diferença é que esses óculos podem ter câmera, microfone e inteligência artificial capazes de registrar imagens, ouvir comandos e interpretar o ambiente ao redor.

À medida que empresas de tecnologia apostam nos dispositivos vestíveis como uma possível evolução do smartphone, uma discussão ganha força: como proteger a privacidade de quem está diante desses aparelhos, mas nunca escolheu utilizá-los?

O debate ganhou novo impulso com a popularização dos óculos inteligentes da Meta e com denúncias envolvendo gravações sem consentimento. Empresas como Samsung, OpenAI e diferentes startups também trabalham em dispositivos de inteligência artificial que tentam levar a computação para além das telas dos celulares.

O desafio agora não é apenas fazer a tecnologia funcionar. É garantir que as pessoas ao redor consigam entender quando estão sendo registradas.

Como saber se um óculos inteligente está gravando?

No caso dos óculos com inteligência artificial da Meta, existe um indicador visual.

Segundo a empresa, um LED de captura acende quando o usuário tira uma fotografia ou grava um vídeo. A Meta afirma ainda que existem mecanismos para impedir a captura caso a luz seja coberta.

A companhia orienta os usuários a pedirem autorização às pessoas próximas antes de fotografá-las ou filmá-las.

A presença do indicador, entretanto, não encerra a discussão.

Diferentemente de um smartphone levantado na direção de alguém, um par de óculos pode permanecer no rosto durante toda uma conversa. Uma pessoa que não conhece o produto pode não identificar o pequeno LED ou compreender imediatamente o que aquela luz significa.

Essa diferença está no centro das preocupações de autoridades e especialistas em privacidade.

França investiga gravações de mulheres nas ruas

O problema já ultrapassou a discussão teórica.

Promotores de Paris abriram investigações após denúncias de mulheres que afirmam terem sido filmadas nas ruas sem consentimento por pessoas utilizando óculos inteligentes.

As autoridades francesas apontaram uma tendência crescente nas redes sociais envolvendo gravações desse tipo e posterior publicação dos vídeos.

A marca dos aparelhos utilizados nos casos investigados não foi identificada pelas autoridades.

A autoridade francesa de proteção de dados também vem recebendo questionamentos relacionados aos dispositivos, inclusive de empresas preocupadas com o uso de óculos inteligentes no ambiente de trabalho.

Os casos mostram como a popularização da tecnologia pode criar situações novas para estabelecimentos, empregadores e espaços públicos.

Meta enfrenta ações judiciais nos Estados Unidos

Nos Estados Unidos, a discussão chegou aos tribunais.

Mais de 70 pessoas que compraram, utilizaram ou alegam terem sido gravadas pelos óculos inteligentes da Meta participam de uma ação que questiona o tratamento dado a imagens e vídeos capturados pelos dispositivos.

Os autores alegam que registros sensíveis chegaram a trabalhadores terceirizados responsáveis por revisar e classificar conteúdos utilizados em processos relacionados aos sistemas de inteligência artificial da empresa.

Entre as alegações apresentadas na ação estão imagens de pessoas em situações íntimas, utilizando banheiros ou trocando de roupa.

As acusações ainda estão sendo discutidas judicialmente e não representam uma conclusão de que a Meta tenha cometido as irregularidades apontadas.

A empresa contesta as alegações.

A Meta afirma que, quando usuários utilizam recursos de sua inteligência artificial, determinados dados podem ser revisados para melhorar seus produtos e que adota medidas para remover informações identificáveis e proteger a privacidade.

A câmera também pode ser usada pela inteligência artificial

A questão fica ainda mais complexa porque a câmera não serve apenas para produzir fotografias ou vídeos tradicionais.

Nos óculos da Meta, ela também pode ser utilizada para permitir que a inteligência artificial interprete aquilo que o usuário está vendo.

Uma pessoa pode perguntar, por exemplo, qual é uma planta diante dela ou solicitar informações sobre determinado ponto turístico.

Nesse momento, a câmera fornece contexto visual para que a IA consiga responder.

Isso representa uma diferença importante em relação aos primeiros dispositivos vestíveis.

Os óculos deixam de ser apenas uma câmera instalada no rosto e passam a funcionar como sensores que ajudam a inteligência artificial a interpretar continuamente o mundo físico quando determinados recursos são acionados.

A Meta diz que usuários têm controles de privacidade

A Meta afirma que oferece controles para gerenciar informações compartilhadas com seus sistemas.

Segundo a empresa, fotografias e vídeos produzidos para a galeria permanecem nos óculos até que o usuário decida transferi-los para o telefone por meio do aplicativo Meta AI.

A companhia também permite excluir gravações de voz relacionadas às interações com a inteligência artificial.

A Meta informa ainda que conversas realizadas com sua IA pelos óculos não aparecem automaticamente em feeds públicos.

Em suas orientações de uso responsável, a empresa recomenda evitar gravações em ambientes nos quais exista expectativa de privacidade e solicitar autorização antes de registrar outras pessoas.

Essas medidas, porém, dependem também do comportamento de quem está utilizando o dispositivo.

O problema é diferente do smartphone

Câmeras de celulares existem há décadas e também podem ser utilizadas para registrar alguém sem autorização.

O diferencial dos óculos inteligentes está no formato.

Quando uma pessoa levanta um smartphone e aponta a câmera, normalmente existe um sinal visual bastante evidente de que uma fotografia ou gravação pode estar acontecendo.

Nos óculos, a câmera acompanha naturalmente a direção do olhar.

Isso pode tornar a gravação menos perceptível para terceiros.

A Reuters relata que autoridades, empresas e especialistas começam justamente a questionar se os indicadores atualmente utilizados são suficientes para garantir transparência e consentimento.

Fabricantes começam a testar óculos sem câmera

A preocupação com privacidade também começa a influenciar o desenvolvimento dos próprios produtos.

Empresas estão experimentando dispositivos que reduzem a quantidade de sensores ou dão ao usuário maior controle sobre quando uma gravação começa.

Uma das alternativas são óculos inteligentes sem câmera.

Nesse modelo, o dispositivo pode oferecer inteligência artificial por voz, reprodução de áudio e outras funções sem registrar constantemente informações visuais do ambiente.

Outras empresas apostam em aparelhos que precisam ser explicitamente ativados para começar uma gravação.

Também existe uma tendência de realizar uma parcela maior do processamento diretamente no dispositivo, diminuindo a quantidade de dados que precisa ser enviada para servidores externos.

OpenAI também aposta em dispositivos de IA

A discussão deve crescer porque os óculos são apenas uma das possibilidades para uma nova geração de hardware.

Empresas estão desenvolvendo broches, pingentes, gravadores e diferentes tipos de dispositivos equipados com inteligência artificial.

A OpenAI também trabalha no desenvolvimento de novos aparelhos e seu CEO, Sam Altman, já defendeu que parte importante do processamento aconteça localmente como forma de aumentar a confiança dos usuários.

O objetivo da indústria é ambicioso: encontrar uma nova plataforma de computação capaz de assumir funções hoje concentradas no smartphone.

O mercado global de celulares movimenta centenas de bilhões de dólares e representa uma das maiores oportunidades comerciais da indústria de tecnologia.

Privacidade pode decidir quem vence a era pós-smartphone

Os óculos inteligentes possuem aplicações que vão muito além de fotografar.

Podem fornecer tradução em tempo real, orientação, informações sobre objetos, assistência por voz e recursos importantes de acessibilidade.

Para pessoas com deficiência visual, por exemplo, uma inteligência artificial capaz de interpretar o ambiente pode representar uma ferramenta de autonomia.

Por outro lado, a mesma câmera necessária para compreender o ambiente também pode registrar pessoas que nunca concordaram em participar daquela interação.

É justamente essa contradição que a indústria terá de resolver.

Depois de anos em que a principal preocupação de privacidade estava concentrada no que aplicativos faziam dentro dos smartphones, a nova geração de inteligência artificial começa a levar câmeras, microfones e sensores para objetos utilizados durante praticamente todo o dia.

A pergunta deixa de ser apenas quais dados um usuário aceita entregar ao utilizar uma tecnologia.

Passa a incluir também quais dados podem ser coletados sobre quem está ao redor sem que essas pessoas sequer tenham escolhido utilizar o dispositivo.

Mais notícias

+
- Publicidade -
- Publicidade -

Veja também