Em 2006, quando O Diabo Veste Prada se tornou um fenômeno, o universo da moda e do jornalismo passou a ocupar o imaginário de jovens que sonhavam em atravessar avenidas com um café na mão e se tornar a próxima Miranda Priestley (Meryl Streep). O filme vendia uma promessa que hoje já não se sustenta da mesma forma.
Duas décadas depois, a sequência não tenta reconstruir esse encanto; escolhe encará-lo de frente. O jornalismo utópico da Hollywood dos anos 2000 dá lugar a um cenário instável, em que o prestígio cede espaço à performance. Em um ambiente cada vez mais digital, as revistas impressas não desapareceram por completo, mas se tornam, pouco a pouco, uma lembrança distante do que o jornalismo já foi.
No longa, a revista Runway, antes intocável, surge em crise, obrigada a justificar sua própria existência. A lógica mudou: já não basta uma boa reportagem ou uma capa impactante — é preciso gerar engajamento e acompanhar o ritmo das plataformas. Nesse contexto, a continuação encontra sua razão de existir ao construir um retrato melancólico e nostálgico de redações que seguem ativas, mas deslocadas, tentando se adaptar a uma realidade dominada por redes sociais, home office e podcasts.
O jornalismo retratado nas telas evidencia que as decisões deixaram de passar apenas pelo olhar editorial e passaram a ser guiadas por métricas que definem o que merece ou não existir. Nesse cenário, Andy (Anne Hathaway) ganha um novo significado: mais do que personagem, ela se torna símbolo de resistência de um jornalismo que ainda acredita no valor de uma boa história. Em meio a tantas transformações, representa aquilo que não deveria ser descartado.
O Diabo Veste Prada 2 não decreta o fim do jornalismo, mas reconhece o esgotamento de um modelo conhecido — o das grandes redações idealizadas pelo cinema, marcadas por hierarquia, glamour e uma aparente estabilidade. Esse modelo, sim, fica para trás.
Ao mesmo tempo em que expõe a fragilidade da profissão diante das mudanças, o filme também demonstra sensibilidade ao olhar para aqueles que seguem valorizando boas narrativas. Há, nesse movimento, menos pessimismo e mais reconhecimento.
No fim, a sequência revisita o passado das redações com nostalgia, mas sem se apegar a ele. E talvez seja esse seu gesto mais honesto: reconhecer o que ficou para trás não como lamento, mas como memória. Porque, mesmo distante do imaginário idealizado pelo cinema, o jornalismo continua encontrando formas de nunca sair de moda.


