O Demolidor: como um filme de 1993 chegou tão perto de prever o mundo de 2026

Videoconferências, carros autônomos, comandos de voz, telas portáteis e rastreamento digital aparecem no futuro imaginado pelo filme três décadas atrás

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Em 1993, fazer uma reunião de trabalho com várias pessoas aparecendo simultaneamente em uma tela parecia coisa de ficção científica. Conversar com a casa, entrar em um carro capaz de dirigir sozinho ou carregar uma tela fina para acessar informações também estava distante da rotina da maioria das pessoas.

Tudo isso, porém, já aparecia em “O Demolidor” (Demolition Man).

Estrelado por Sylvester Stallone, Wesley Snipes e Sandra Bullock, o filme apresenta uma sociedade futurista ambientada em 2032. Mais de três décadas depois de seu lançamento — e faltando apenas seis anos para o ano retratado na história —, algumas das tecnologias imaginadas pelo longa fazem parte do cotidiano.

Não significa que os roteiristas tenham literalmente previsto o futuro. Algumas ideias já eram discutidas ou experimentadas pela indústria tecnológica. Ainda assim, vistas em 2026, várias cenas chamam atenção pela semelhança com tecnologias que usamos diariamente.

Videoconferências antes de Zoom, Teams e WhatsApp

Uma das coincidências mais evidentes está nas chamadas de vídeo.

Em “O Demolidor”, personagens conversam por meio de telas e uma reunião apresenta participantes remotamente em diferentes monitores. Hoje, a experiência parece banal diante de plataformas de videoconferência e das chamadas de vídeo realizadas por computadores e smartphones.

O que em 1993 era apresentado como parte da rotina de 2032 acabou chegando bem antes.

O próprio Paul Taglianetti, que trabalhou nas interfaces exibidas nas telas do filme, comentou décadas depois sobre a fama de “profético” adquirida pelo longa. Segundo ele, tecnologias como videoconferências eram vistas pela equipe mais como uma possível evolução natural das comunicações do que como uma tentativa deliberada de adivinhar o futuro.

Telas portáteis que lembram tablets

Outro elemento visual chama atenção.

Personagens utilizam telas planas e dispositivos portáteis para consultar informações. Vistos atualmente, alguns deles lembram tablets modernos.

O detalhe é o contexto histórico: o filme chegou aos cinemas em 1993. Computadores pessoais ainda eram equipamentos predominantemente de mesa, smartphones não existiam como os conhecemos e o iPad só seria lançado pela Apple em 2010.

As interfaces futuristas do filme incluíam telas planas, sistemas de informação instalados nos carros e dispositivos semelhantes a pranchetas digitais.

Carros que dirigem sozinhos

John Spartan, personagem de Stallone, também encontra um mundo no qual os automóveis podem assumir o controle da direção.

Carro Autônomo da Polícia – Filme: O Demolidor

A ideia deixou de pertencer exclusivamente à ficção científica.

Atualmente, diferentes fabricantes utilizam sistemas avançados de assistência ao motorista, enquanto veículos totalmente autônomos já operam comercialmente de forma limitada em determinadas cidades e condições.

O filme não acertou todos os detalhes de como essa tecnologia evoluiria, mas antecipou uma discussão que hoje movimenta algumas das maiores empresas de tecnologia e do setor automotivo.

Mapas digitais e localização

As telas dos veículos de San Angeles também exibem mapas e informações de localização.

Para um espectador atual, a experiência lembra sistemas de navegação por GPS e aplicativos utilizados diariamente para calcular rotas, encontrar endereços e acompanhar o trânsito.

Existe ainda outra semelhança mais incômoda.

No universo do filme, pessoas podem ser localizadas por sistemas eletrônicos. Na vida real, smartphones, relógios inteligentes, automóveis e aplicativos podem gerar continuamente dados de localização — sujeitos a configurações, permissões e regras de privacidade.

Uma sociedade controlada pela voz

Luzes, computadores e outros sistemas do futuro de “O Demolidor” respondem à voz.

Trinta anos depois, dizer uma frase para acender uma lâmpada, tocar uma música, controlar aparelhos domésticos ou obter uma informação deixou de parecer futurista.

Assistentes digitais e sistemas de automação residencial transformaram comandos de voz em uma interface comum entre pessoas e máquinas.

A comparação é tão direta que análises posteriores do filme frequentemente destacam as casas controladas por voz entre as tecnologias imaginadas pelo longa que acabaram se aproximando da realidade.

Rastreamento constante também deixou de ser ficção

Talvez uma das previsões mais interessantes não esteja em um aparelho específico, mas na infraestrutura existente ao redor dos personagens.

San Angeles é uma cidade altamente conectada, na qual sistemas eletrônicos acompanham atividades e ajudam a localizar pessoas.

A tecnologia atual tomou um caminho diferente, mas chegou a uma situação parcialmente semelhante: smartphones podem registrar localização, câmeras utilizam reconhecimento facial em determinados contextos e serviços digitais acumulam enormes quantidades de informações sobre seus usuários.

Uma análise do San Francisco Chronicle observa justamente a semelhança entre o rastreamento apresentado no filme e a capacidade dos celulares modernos de determinar nossa localização.

Até Arnold Schwarzenegger entrou na política

Uma das coincidências mais divertidas envolve alguém que nem aparece no filme.

Em determinada cena, Lenina Huxley menciona a Biblioteca Presidencial Schwarzenegger. Spartan fica surpreso ao descobrir que, naquele futuro fictício, Arnold Schwarzenegger teria se tornado presidente dos Estados Unidos.

Quando “O Demolidor” chegou aos cinemas, Schwarzenegger era mundialmente conhecido principalmente como astro de filmes de ação.

Dez anos depois, em 2003, ele seria eleito governador da Califórnia.

A previsão, portanto, não se concretizou: Schwarzenegger nunca foi presidente dos Estados Unidos. Além disso, por ter nascido na Áustria, ele não atende atualmente ao requisito constitucional de cidadão nato para ocupar a Presidência. O próprio filme resolve o problema inventando uma futura emenda constitucional.

Ainda assim, a transformação de um dos maiores astros de Hollywood em governador tornou a piada de 1993 muito mais curiosa anos depois.

Mas o filme também errou

É justamente aqui que a ideia de que “O Demolidor previu o futuro” precisa ser relativizada.

O filme imaginou acontecimentos que não ocorreram, além de tecnologias que continuam distantes da realidade.

A criogenia capaz de congelar seres humanos durante décadas e posteriormente reanimá-los com segurança, por exemplo, permanece no terreno da ficção. O longa também imaginou profundas transformações políticas e sociais que não aconteceram.

E há, claro, um dos maiores mistérios da história da ficção científica: em 2026, a humanidade continua sem descobrir como substituir o papel higiênico pelas famosas três conchas do banheiro de 2032.

Mais do que prever tecnologias, o filme antecipou discussões

Talvez o aspecto mais interessante de rever “O Demolidor” atualmente não seja contar quantas tecnologias o filme “acertou”.

A sociedade de San Angeles é extremamente conectada, automatizada e regulada. Máquinas participam da vida cotidiana, comportamentos são monitorados e tecnologias desenvolvidas para oferecer conforto também aumentam a capacidade de controle sobre os indivíduos.

Quando o filme foi lançado, boa parte disso funcionava como exagero cômico.

Em 2026, videoconferências, dispositivos móveis, assistentes digitais, inteligência artificial, localização permanente e veículos cada vez mais automatizados fazem parte de discussões reais sobre tecnologia, privacidade e comportamento.

Talvez “O Demolidor” não tenha previsto exatamente o futuro.

Mas, três décadas atrás, conseguiu imaginar algumas das perguntas que estaríamos fazendo quando ele chegasse.

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