O marketing de influência se tornou estratégia quase onipresente para marcas que buscam ampliar alcance e engajamento. Porém, casos recentes mostram que associar-se a influenciadores digitais pode trazer riscos significativos à reputação e às finanças das empresas.
Acusações criminais, comportamentos inadequados e declarações polêmicas, vários episódios no Brasil expõem como uma crise envolvendo o creator rapidamente respinga na marca parceira, levando a cancelamentos, boicotes e perdas comerciais.
Conforme destaca um estudo da USP, influenciadores “estão sujeitos a enfrentar uma crise de reputação que pode afetar a marca a eles associada”.
A seguir, reunimos exemplos reais – incluindo o caso mais recente do influenciador Hytalo Santos – e análises sobre os riscos dessas parcerias, com dados de impacto e lições para profissionais de marketing.
Caso Hytalo Santos: investigação expõe marca a prejuízos

O paraibano Hytalo Santos, de 27 anos, ilustra bem os perigos de um envolvimento sem due diligence adequado.
Conhecido por vídeos de dança com adolescentes – a quem chamava de “crias” – ele atraiu milhões de seguidores, mas passou a ser investigado em 2024 por possível “adultização” e exploração de menores em seu conteúdo.
Em agosto de 2025, a situação culminou na prisão preventiva do influenciador e de seu marido e numa série de medidas judiciais severas.
Além de ter suas contas em redes sociais suspensas, a Justiça determinou o cancelamento da monetização de seus vídeos e a proibição de contato com os jovens envolvidos, numa tentativa de estancar os danos.
Do ponto de vista comercial, o caso evidenciou como uma marca associada pode ver sua imagem arranhada e operações interrompidas.
Hytalo promovia em seu canal a empresa de rifas online Fartura Premiações, que oferecia sorteios milionários. Diante das denúncias, o Ministério Público solicitou a suspensão da licença de operação dessa empresa.
A repercussão pública foi gigantesca: um vídeo-denúncia que expôs o caso ultrapassou 28 milhões de visualizações em poucos dias, gerando intensa pressão social e midiática.
Outra associação de Hytalo também foi alvo de escrutínio: em 2023, ele lançou um perfume com a marca de cosméticos WePink, batizado de “Cancelled” (“Cancelado”). O produto foi descontinuado dois anos depois e, até o momento, nem a influenciadora Virginia Fonseca nem a WePink se pronunciaram sobre o assunto.
O silêncio sugere uma estratégia de contenção de danos, evitando nova exposição negativa. O saldo do caso mostra o impacto profundo na imagem e nos negócios, transformando um influenciador antes rentável em risco para patrocinadores.
Racismo e cancelamento: Júlio Cocielo perde patrocinadores
Em 2018, o youtuber Júlio Cocielo fez um comentário racista sobre o jogador francês Mbappé, durante a Copa do Mundo, gerando revolta e resgate de tuítes antigos com teor preconceituoso.
Grandes empresas reagiram rapidamente: Adidas, Itaú, Coca-Cola, McDonald’s e Submarino romperam contratos e declararam publicamente seu repúdio ao racismo.
O caso se tornou exemplo de como um deslize pode gerar prejuízos imediatos tanto para o influenciador quanto para as marcas.
Mau exemplo na pandemia: Gabriela Pugliesi
Em abril de 2020, durante a quarentena da Covid-19, a influenciadora fitness Gabriela Pugliesi promoveu uma festa em casa, desrespeitando regras sanitárias.
O episódio resultou na perda de pelo menos oito contratos em 48 horas, incluindo Liv Up, Baw Clothing, Hope, Desinchá e Rappi.
Apesar do pedido público de desculpas, o prejuízo de imagem e financeiro foi severo, levando-a a desativar temporariamente seu Instagram.
Discurso extremo custa caro: Flow Podcast
Em fevereiro de 2022, durante uma transmissão ao vivo, Monark, apresentador do Flow Podcast, defendeu a criação de um partido nazista no Brasil.
A fala provocou rompimento imediato com patrocinadores e perdas estimadas em R$ 8 milhões em contratos assinados, além de outros R$ 8 milhões em negociações canceladas. A crise forçou a demissão do apresentador e a reformulação do programa.
Conflito de valores: Jojo Todynho e Avon
A cantora e influencer Jojo Todynho, embaixadora da Avon, anunciou que retiraria das plataformas a música “Arrasou, Viado”, antes considerada um hino à comunidade LGBTQIA+.
A repercussão negativa gerou especulações sobre o fim da parceria. A Avon confirmou que não renovaria o contrato, reafirmando seu compromisso com diversidade e empoderamento.
Lições para marcas
Os casos mostram que, apesar dos benefícios do marketing de influência, os riscos reputacionais são altos. Especialistas recomendam:
- Due diligence antes da contratação, analisando histórico e valores do influenciador.
- Cláusulas contratuais de moralidade para rompimento rápido em caso de crise.
- Monitoramento contínuo da conduta do influenciador durante a parceria.
- Reação ágil e clara para proteger a reputação da marca.
Fontes:
USP – Revista Organicom; CNN Brasil; Metrópoles; InfoMoney/Estadão; VEJA; Folha de Pernambuco; VEJA Rio; Terra; Exame; Nexo Jornal; Avon – Comunicado oficial; Patricia Punder – E-Commerce Update; Jusbrasil.

