A inteligência artificial está ganhando um novo papel na área da saúde: monitorar o funcionamento do cérebro sem a necessidade de exames invasivos ou consultas frequentes.
A startup americana Mantis Biotech desenvolveu o Parva, um software que analisa silenciosamente a maneira como o usuário utiliza o computador para identificar alterações cognitivas ao longo do tempo.
A proposta é diferente da maioria das ferramentas médicas atuais. Em vez de comparar uma pessoa com padrões populacionais, o sistema estabelece uma linha de base individual e passa a medir qualquer mudança em relação ao histórico do próprio usuário.
Segundo a fundadora e CEO da Mantis Biotech, Georgia Witchel, esse modelo pode ser especialmente útil para condições que apresentam sintomas variáveis, como covid longa, demência, TDAH, depressão, burnout e alterações cognitivas relacionadas à menopausa.
Como funciona o monitoramento
Após ser instalado no computador, o Parva acompanha, em segundo plano, indicadores comportamentais durante o uso cotidiano do equipamento.
Entre os dados observados estão:
- tempo entre as teclas digitadas;
- velocidade e precisão dos movimentos do mouse;
- tempo de permanência em determinadas abas;
- velocidade de resposta em mensagens e outras atividades digitais.
Esses sinais são armazenados em um banco de dados protegido por normas de privacidade da área da saúde e comparados continuamente com o histórico individual do usuário.
A ideia é detectar pequenas mudanças cognitivas antes que elas se tornem perceptíveis em consultas médicas tradicionais, que normalmente acontecem apenas uma vez por mês ou em intervalos ainda maiores.
Mulheres podem ser as maiores beneficiadas
Um dos focos da tecnologia é reduzir falhas históricas nos diagnósticos femininos.
De acordo com Witchel, muitos critérios utilizados atualmente para identificar transtornos como o TDAH foram desenvolvidos com base em estudos realizados predominantemente com meninos, o que pode dificultar o reconhecimento dos sintomas em mulheres.
Além disso, fatores hormonais influenciam diretamente aspectos como atenção, memória, humor e capacidade de autorregulação, tornando avaliações pontuais menos precisas.
Dados citados pela empresa mostram que:
- uma mulher de 45 anos possui aproximadamente 20% de risco ao longo da vida de desenvolver Alzheimer, o dobro da estimativa para homens da mesma idade;
- mulheres também apresentaram 31% mais chances de desenvolver covid longa em comparação aos homens, segundo o estudo federal americano RECOVER.
Da engenharia esportiva para a saúde cerebral
Antes de criar a Mantis Biotech, Georgia Witchel trabalhava com modelos físicos utilizados para prever lesões em atletas profissionais.
A experiência levou a empreendedora a aplicar o mesmo conceito ao cérebro humano, utilizando modelos personalizados para identificar mudanças individuais em vez de depender apenas de análises estatísticas baseadas em grandes grupos populacionais.
Segundo ela, algoritmos tradicionais são eficientes para prever comportamentos médios da população, mas tendem a perder precisão quando precisam analisar diferenças individuais.
Mercado em crescimento
A empresa já levantou US$ 7,4 milhões em investimentos em uma rodada liderada pelo fundo Decibel, com participação da aceleradora Y Combinator e da Liquid 2 Ventures.
O Parva atua em um segmento que reúne diferentes mercados emergentes da saúde digital, incluindo:
- biomarcadores digitais;
- biometria comportamental;
- “gêmeos digitais” aplicados à medicina.
Essas áreas vêm atraindo investimentos à medida que cresce o interesse por tecnologias capazes de acompanhar continuamente indicadores de saúde sem exigir equipamentos específicos ou visitas constantes aos consultórios.
Ainda não substitui o diagnóstico médico
Apesar da proposta inovadora, o Parva ainda não realiza diagnósticos clínicos.
Atualmente, o software identifica alterações no padrão cognitivo e informa níveis de risco, cabendo aos médicos interpretar os resultados e solicitar exames complementares quando necessário.
A Mantis Biotech também busca aprovação da Food and Drug Administration (FDA), agência reguladora dos Estados Unidos, para ampliar a utilização clínica da plataforma.
Enquanto isso, o acesso ao sistema ocorre principalmente por meio de clínicas especializadas em TDAH, neurologia, psiquiatria, terapia e atendimento a pacientes com covid longa ou sintomas cognitivos relacionados à menopausa.
Especialistas avaliam que ferramentas desse tipo representam uma nova tendência na medicina personalizada, ao permitir que o acompanhamento da saúde cerebral aconteça de forma contínua e baseada no comportamento real de cada indivíduo, em vez de depender apenas de avaliações ocasionais realizadas em consultório.
Fonte: Forbes


