Empresas brasileiras já usam IA, mas tecnologia ainda tem pouco impacto no caixa

Pesquisa com 350 empresas mostra avanço no uso de inteligência artificial, mas aponta dificuldade para transformar adoção da tecnologia em redução de custos e resultados financeiros

Priorizar nos meus resultados Google

A inteligência artificial já ganhou espaço nas empresas brasileiras, mas transformar o uso da tecnologia em aumento de receita, redução de custos e eficiência operacional ainda é um desafio. É o que aponta a terceira edição do Panorama Mindset Digital, pesquisa que avaliou a maturidade digital de 350 empresas de 15 segmentos.

O levantamento foi conduzido pelo Brivia_Group em parceria com o Instituto Caldeira e a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e apresentado nesta segunda-feira (21), durante a Semana Caldeira, em Porto Alegre. A coleta de dados ocorreu entre setembro de 2025 e março de 2026.

Em uma escala de zero a 100, as empresas pesquisadas alcançaram média de 72 pontos no Digital Maturity Score (DMS). Entre os sete pilares analisados, entretanto, justamente o indicador de “IA & Gestão Eficiente” apresentou o pior desempenho, com 56 pontos.

O resultado indica uma diferença entre adotar ferramentas de inteligência artificial e incorporá-las efetivamente à estratégia do negócio.

IA chegou às empresas, mas ainda precisa chegar ao resultado

Segundo o estudo, assistentes virtuais e ferramentas de IA generativa já são utilizados em atividades operacionais. A presença da tecnologia, porém, diminui quando são consideradas decisões da alta administração e aplicações diretamente relacionadas a custos e resultados financeiros.

O cenário identificado pelo Panorama Mindset Digital encontra paralelo em outros levantamentos sobre o mercado brasileiro.

Pesquisa State of AI in the Enterprise 2026, da Deloitte, com mais de 3 mil executivos de 24 países — incluindo 115 brasileiros —, mostrou que 82% das organizações da amostra brasileira permitem o uso da IA para pelo menos 20% dos profissionais.

Quando a análise chega ao resultado financeiro, entretanto, o cenário muda: apenas 22% dos entrevistados brasileiros disseram perceber aumento de receita diretamente associado à utilização da inteligência artificial.

Outro levantamento, da PwC, aponta um problema adicional. Apenas 9% das empresas brasileiras pesquisadas redesenham fluxos de trabalho para incorporar IA. Segundo a consultoria, grande parte das organizações ainda adiciona novas ferramentas aos processos existentes sem promover mudanças mais profundas na maneira como o trabalho é realizado.

Empresas ainda concentram IA em tarefas operacionais

Para Christiaan van Hattem, estrategista de negócios do Brivia_Group, parte do problema está justamente na forma como a tecnologia vem sendo empregada.

“A pesquisa aponta que a inteligência artificial no Brasil ainda resume reuniões, enquanto a maturidade real exige IA prescritiva para preço, logística e churn. Sem governança da alta diretoria, a adoção algorítmica não atinge o balanço financeiro”, afirma.

Na avaliação apresentada pelo estudo, alcançar um estágio mais avançado exige aplicações capazes de interferir diretamente em questões como precificação, logística, automação e retenção de clientes.

A estrutura de dados também aparece como obstáculo. O Panorama registrou 69 pontos no pilar “Aprendizado Orientado por Dados” e 67 em “Digitalização”, resultados associados pelo levantamento à permanência de processos manuais e à falta de centralização das informações dentro das organizações.

Farmacêuticas lideram maturidade digital

As diferenças também são significativas entre os setores da economia.

A indústria farmacêutica alcançou 83 pontos e apresentou o melhor resultado entre os 15 segmentos analisados. Transporte e logística aparecem em seguida, com 79 pontos, enquanto energia registrou 77.

No meio da tabela estão educação e tecnologia da informação, ambas com 75 pontos, bens de consumo e comunicação, com 74, e varejo, com 67.

Na parte inferior aparecem serviços financeiros, com 66 pontos; agricultura e pecuária, com 64; e saúde, que apresentou o menor índice, com 54 pontos.

No agronegócio, o estudo identifica uma situação particular: tecnologias avançadas já são utilizadas na atividade produtiva, incluindo máquinas autônomas, biotecnologia e drones, enquanto processos corporativos, relacionamento com clientes e integração de dados apresentam digitalização menor.

Na saúde, apesar da presença de equipamentos médicos e sistemas avançados de diagnóstico, a pesquisa aponta fragmentação na jornada digital dos pacientes.

Desafio agora é transformar experimentação em escala

O avanço da IA também coloca as empresas diante de outra etapa: fazer com que projetos experimentais deixem de ser iniciativas isoladas.

Segundo a Deloitte, apenas 23% das organizações brasileiras participantes de seu levantamento conseguiram colocar em operação pelo menos 40% dos projetos-piloto de inteligência artificial. Em 58% delas, no máximo 20% dos experimentos chegaram à implementação em escala.

O Panorama Mindset Digital aponta integração dos dados, mudanças na cultura de inovação, melhor utilização de dados próprios sobre clientes e maior participação da alta liderança nas estratégias envolvendo inteligência artificial entre os caminhos para aumentar o impacto da tecnologia.

Para as empresas, portanto, a próxima fase da adoção de IA tende a ser menos sobre simplesmente disponibilizar ferramentas aos funcionários e mais sobre conseguir responder a uma questão essencial para qualquer investimento: quanto a tecnologia efetivamente acrescenta ao resultado do negócio?

Mais notícias

+
- Publicidade -
- Publicidade -

Veja também