Uma startup brasileira está levando os agentes de inteligência artificial da recepção para dentro do consultório médico.
A Tivita desenvolveu um agente capaz de acompanhar a conversa entre profissional de saúde e paciente e transformar as informações em um registro clínico organizado no prontuário eletrônico.
Batizado de Tom, o sistema funciona como uma espécie de escriba digital. Enquanto o profissional conduz o atendimento, a tecnologia registra a conversa e utiliza inteligência artificial para organizar as informações que poderão compor a documentação da consulta.
A ferramenta integra uma estratégia iniciada pela startup com agentes voltados principalmente para tarefas administrativas. A Tivita já utiliza IA para atender pacientes pelo WhatsApp, realizar agendamentos e lidar com procedimentos relacionados a convênios médicos.
A entrada da tecnologia no consultório, porém, leva a automação a uma área mais sensível: a própria conversa entre paciente e profissional.
IA funciona como escriba durante a consulta
O Tom é integrado ao prontuário eletrônico oferecido pela Tivita.
Segundo a empresa, o agente acompanha a conversa durante o atendimento e transforma as informações em um registro clínico estruturado e organizado.
A proposta é reduzir o tempo que profissionais gastam digitando anotações ou preenchendo informações durante e depois das consultas.
Esse tipo de tecnologia vem sendo chamado internacionalmente de ambient clinical intelligence ou escriba médico por IA.
Em vez de o profissional interromper constantemente a conversa para registrar informações no computador, a IA acompanha o diálogo e auxilia na produção da documentação clínica.
Isso não significa, porém, que a inteligência artificial substitua o médico ou seja responsável pelo diagnóstico. A proposta da ferramenta está relacionada ao registro e à organização das informações produzidas durante o atendimento.
Tivita começou automatizando a recepção
A chegada da IA ao prontuário representa uma nova etapa de uma estratégia que a Tivita começou a implementar em 2025.
Naquele ano, a empresa apresentou duas agentes digitais: Júlia e Tais.
Júlia foi criada para atuar no relacionamento inicial com os pacientes. Pelo WhatsApp, a inteligência artificial pode responder dúvidas, interpretar mensagens de texto e voz, consultar horários disponíveis e realizar agendamentos.
O atendimento funciona 24 horas por dia.
Já Tais foi desenvolvida para lidar com uma das áreas mais burocráticas das clínicas: os convênios médicos.
A agente automatiza processos como preenchimento de guias, solicitações de autorização e acompanhamento de procedimentos relacionados ao faturamento.
Com isso, a estratégia da empresa passou a cobrir três momentos diferentes da operação: antes da consulta, com Júlia; nos processos administrativos e de convênios, com Tais; e durante o atendimento, com Tom.
Empresa afirma ter reduzido trabalho administrativo
Os primeiros resultados divulgados pela Tivita ajudam a mostrar por que a empresa está ampliando a utilização dos agentes.
Em testes realizados antes do lançamento comercial de Tais, em 2025, a companhia afirma que a ferramenta automatizou mais de 10 mil tarefas relacionadas ao faturamento de convênios.
Segundo dados divulgados pela própria startup na época, o processo teria economizado 205 horas de trabalho humano e alcançado retorno sobre investimento de 1,92 vez.
A empresa também afirmou que os agendamentos realizados pela Júlia eram oito vezes mais rápidos e produziram aumento médio de 20% na conversão de pacientes durante os testes.
Os resultados foram divulgados pela própria Tivita e devem ser interpretados como métricas fornecidas pela empresa, e não como uma avaliação independente da tecnologia.
Atualmente, a plataforma reúne ferramentas para agenda, faturamento, documentos, prontuário eletrônico e outras etapas da gestão de clínicas.
Startup recebeu R$ 32 milhões de investidores
A expansão da inteligência artificial ocorre depois de a Tivita levantar R$ 32 milhões em uma rodada de investimento.
Entre os investidores estão FinTech Collective, Maya Capital, K50 Ventures e SSV.
A empresa também participou, em 2025, do Google for Startups Accelerator: AI First, programa voltado a startups que desenvolvem produtos baseados em inteligência artificial.
A Tivita nasceu inicialmente como uma plataforma de gestão financeira e administrativa para clínicas e passou posteriormente a desenvolver agentes especializados em diferentes tarefas.
A estratégia é utilizar a base de dados e as integrações construídas pela plataforma para permitir que os agentes executem atividades diretamente nos sistemas utilizados pelas clínicas.
IA começa a deixar de apenas responder perguntas
A tecnologia também ilustra uma mudança maior no mercado de inteligência artificial.
Os primeiros chatbots generativos ficaram conhecidos principalmente pela capacidade de responder perguntas, escrever textos e produzir imagens.
A nova geração de agentes tenta ir além.
Em vez de apenas sugerir o que deve ser feito, esses sistemas recebem acesso a ferramentas e processos para executar tarefas específicas.
No caso de uma clínica, isso pode significar verificar uma agenda, marcar uma consulta, preencher uma guia ou organizar informações para um prontuário.
A diferença é importante porque coloca a IA diretamente dentro do fluxo operacional das empresas.
E os dados da conversa entre médico e paciente?
A utilização de inteligência artificial dentro de uma consulta também levanta uma questão que não aparece com a mesma intensidade em tarefas administrativas: a proteção dos dados do paciente.
Informações sobre saúde são classificadas como dados pessoais sensíveis pela Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
Isso exige cuidados adicionais sobre coleta, tratamento, armazenamento, acesso e segurança das informações.
A Tivita afirma que seus processos de migração e tratamento de dados seguem a LGPD e apresenta sua plataforma como um ambiente seguro para registros clínicos. A utilização de um agente que acompanha uma consulta, entretanto, torna especialmente relevantes questões como transparência para o paciente, finalidade do tratamento das informações e mecanismos de segurança empregados.
Também existe uma questão clínica: informações geradas ou organizadas pela inteligência artificial precisam ser tratadas de maneira que eventuais erros do sistema não sejam incorporados automaticamente à documentação médica.
Esses pontos ganham importância à medida que tecnologias desse tipo começam a participar de uma etapa cada vez mais próxima da relação entre profissional e paciente.
Da recepção para dentro do consultório
A evolução dos agentes da Tivita ajuda a mostrar a velocidade dessa transformação.
Em 2025, a empresa apresentou inteligência artificial para responder mensagens no WhatsApp e automatizar tarefas de convênios.
Agora, a tecnologia também pode acompanhar o atendimento e auxiliar na construção do prontuário.
A mudança parece pequena quando vista apenas como mais uma funcionalidade de software, mas representa uma diferença importante na relação entre saúde e inteligência artificial.
A IA deixa de atuar somente nos bastidores administrativos e passa a estar presente no momento em que profissional e paciente conversam.
Para clínicas, a promessa é reduzir burocracia e liberar mais tempo para o atendimento. Para pacientes e profissionais, a expansão também cria uma nova necessidade: entender exatamente quando uma inteligência artificial está participando da consulta, quais informações recebe e o que acontece com esses dados depois que o atendimento termina.


