Hitmaker relembra promessa à avó antes de subir no Espaço Favela do Rock in Rio: “Vou representar vários Wallaces”

Em entrevista ao Portal N4 News, artista fala sobre trajetória que começou no Morro do Dezoito, na Zona Norte do Rio, e o significado de chegar ao palco dedicado à potência das periferias no festival

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Antes de subir ao palco do Espaço Favela, no Rock in Rio 2026, Hitmaker carrega uma trajetória que começou muito longe dos holofotes.

Conhecido por sucessos que embalaram rádios, festas e plataformas de streaming, Wallace Vianna construiu uma carreira como compositor e produtor musical, com trabalhos para alguns dos principais nomes da música brasileira.

Por trás dessa história, no entanto, está uma promessa feita ainda na infância à avó, Dona Nice, que ajudou a definir sua relação com a música e o caminho que o levaria até o festival.

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Uma promessa que virou propósito

Wallace cresceu ao lado da avó adotiva, Dona Nice, mulher que trabalhava lavando, passando e costurando para sustentar a família. Apaixonada pelo grupo Só Pra Contrariar, ela passava o dia ouvindo as músicas de Alexandre Pires.

Quando ficou acamada após enfrentar um câncer, desenvolver osteoporose e quebrar o fêmur, a rotina da casa mudou completamente.

O único aparelho de som da família também parou de funcionar. Sem poder comprar outro, Wallace decidiu tentar alegrar a avó de outra maneira.

“Eu sempre digo que não fui eu quem escolheu a música. Foi a música que me escolheu. Peguei um cavaquinho velho de um vizinho, com duas cordas e sem a parte de trás. Coloquei um papelão, apertei as cordas do jeito que dava e comecei a tentar tocar as músicas que minha avó gostava.”

Foi nesse momento que ele teve o primeiro contato com o universo da produção musical. Ao abrir o encarte de um CD do Só Pra Contrariar, descobriu que uma música era resultado do trabalho de dezenas de profissionais.

“Quando li aquela ficha técnica e vi compositor, produtor, arranjador, músicos… fiquei impressionado. Eu achava que o Alexandre Pires fazia tudo sozinho. Naquele dia, eu entendi por que minha avó admirava tanto aquele artista.”

Durante meses, Wallace aprendeu sozinho a tocar cavaquinho. Economizava o dinheiro da passagem de ônibus e do lanche da escola para comprar revistas de cifras e cordas novas.

Quando finalmente conseguiu aprender “Interfone”, música preferida da avó, correu para casa decidido a fazer uma surpresa. Não deu tempo.

“No mesmo dia em que consegui tocar a música, minha avó faleceu. Ali eu senti que a criança ficou para trás. A partir daquele momento, minha vida passou a ser cumprir todas as promessas que eu tinha feito para ela.”

Persistência acima das dificuldades

Sem dinheiro para estudar música, Wallace caminhava mais de uma hora até a escola para economizar a passagem. O pouco que sobrava era investido em aprendizado. Além da dedicação, encontrou apoio em um professor de matemática, que reservava parte da aula para ensinar teoria musical ao aluno.

Anos depois, os primeiros trabalhos começaram a surgir no pagode. A carreira, no entanto, sofreu uma interrupção quando assinou contrato com um empresário que, segundo ele, acabou impedindo seu crescimento como cantor.

“Eu fiquei praticamente dez anos preso nesse contrato. Na época, foi muito difícil, mas hoje entendo que aquilo também fazia parte do processo. Meu propósito nunca foi fama. Era cumprir uma promessa.”

Mesmo longe dos palcos, Wallace continuou compondo. Foi nesse período que começou a construir uma carreira nos bastidores da música brasileira.

O sucesso veio pela composição

A mudança para o funk aconteceu após procurar espaço na Furacão 2000. Lá, recebeu um conselho que mudaria completamente sua forma de produzir.

Foto: Divulgação

“Mostrei uma música cheia de acordes e ouvi: ‘No dia em que você fizer uma música com três acordes, você vai estourar’. Fiquei até bravo e resolvi fazer uma com dois. Foi assim que nasceu ‘Beijinho no Ombro’. Essa música mudou completamente a minha vida.”

O sucesso abriu portas para uma sequência de trabalhos com grandes artistas da música brasileira. Hitmaker passou a assinar composições gravadas por Belo, Sorriso Maroto, Rodriguinho, Anitta, Ludmilla, entre muitos outros.

Mesmo vivendo o reconhecimento como compositor e produtor, havia um vazio.

“Eu ajudava muita gente a realizar sonhos, mas sentia que faltava alguma coisa. Passei por praticamente todas as funções dentro da música e isso me fez entender que o meu lugar também era no palco.”

A promessa cumprida com Alexandre Pires

Entre todas as promessas feitas a Dona Nice, uma parecia impossível: conhecer Alexandre Pires e ter uma música gravada pelo cantor. O sonho foi realizado recentemente.

“Uma das promessas que fiz para minha avó era conhecer o Alexandre Pires e ter uma música gravada por ele. Essa foi a última que consegui cumprir. Há cerca de um ano e meio, ele gravou ‘Deus Tá Vendo’. Quando isso aconteceu, senti que finalmente tinha fechado um ciclo que começou lá na minha infância.”

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Da favela para o Espaço Favela

Embora já tenha participado do Rock in Rio em apresentações ao lado de outros artistas, Wallace afirma que havia um palco específico que sempre desejou alcançar. Segundo ele, esse desejo ganhou ainda mais força depois de começar a visitar escolas públicas para conversar com jovens sobre sonhos e perspectivas. Durante uma dessas visitas, um estudante respondeu que não tinha sonho porque era pobre. A frase marcou o artista.

“Naquele momento, eu percebi que minha missão não era só fazer música de sucesso. Era mostrar que é difícil, mas dá. Talvez demore mais, mas dá para vencer de forma honesta.”

Para Wallace, subir ao Espaço Favela representa muito mais do que uma conquista profissional. É a oportunidade de mostrar que pessoas vindas da periferia podem ocupar qualquer espaço.

“Durante muitos anos, eu não imaginava que pisaria no Rock in Rio. Quando recebi o convite, fiquei desacreditado. Mas, embora eu já tivesse participado do festival em outras ocasiões, o palco em que eu sempre quis pisar era o Espaço Favela. Ali eu não vou representar só o Wallace ou o Hitmaker. Vou representar vários Wallaces, vários moradores de Água Santa, de Piedade, do Lins, do Morro do 18 e tantas pessoas que sonham em chegar onde um dia acharam que não poderiam. Acho que não existia palco melhor para viver esse momento.”

Mais do que celebrar uma apresentação no maior festival de música do país, Hitmaker enxerga sua participação no Espaço Favela como o cumprimento de uma missão iniciada ainda na infância. A promessa feita à avó segue viva e, agora, ecoa diante de milhares de pessoas que compartilham da mesma origem e dos mesmos sonhos.

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