O governo dos Estados Unidos determinou nesta segunda-feira (19) a retirada dos produtos e serviços da DeepSeek dos sistemas de tecnologia da informação de órgãos federais civis. A decisão foi anunciada pelo Departamento de Segurança Interna (DHS), que aponta riscos à segurança de dados e à proteção de informações governamentais.
A medida também proíbe que essas agências adquiram novas ferramentas desenvolvidas pela empresa chinesa ou serviços de terceiros que utilizem seus modelos de inteligência artificial.
Segundo o governo americano, o uso da tecnologia poderia permitir a transferência de informações sensíveis para a China e expor sistemas federais a vulnerabilidades de segurança.
A decisão amplia restrições anteriormente adotadas por órgãos americanos e representa um novo capítulo da disputa tecnológica entre Estados Unidos e China.
Por que os Estados Unidos proibiram a DeepSeek?
O Departamento de Segurança Interna afirma que os modelos da DeepSeek apresentam potenciais riscos relacionados à proteção de informações governamentais.
Entre as preocupações citadas pelas autoridades estão a possibilidade de transferência de dados sensíveis para a China, a utilização dessas informações para produzir inteligência sobre cidadãos e instituições americanas e a existência de eventuais vulnerabilidades de segurança nos sistemas.
O governo também mencionou a possibilidade de os modelos conterem códigos maliciosos ou outras falhas capazes de comprometer a segurança digital.
Essas alegações fazem parte da avaliação de risco apresentada pelas autoridades americanas. A ordem não significa, por si só, que tenha sido comprovado um vazamento específico de informações por meio da DeepSeek.
A determinação foi fundamentada na legislação americana de segurança da cadeia de fornecimento de tecnologia, após análise de uma recomendação do Conselho Federal de Segurança de Aquisições.
O que muda com a decisão?
A determinação estabelece duas restrições principais: a retirada dos produtos da DeepSeek dos sistemas de órgãos federais civis e a proibição de novas aquisições dessas tecnologias.
O alcance da medida não se limita ao aplicativo oficial da empresa. Também inclui produtos de suas afiliadas e serviços desenvolvidos por terceiros que utilizem implementações dos modelos da DeepSeek.
Na prática, um órgão federal não poderá manter uma ferramenta de inteligência artificial baseada nesses modelos apenas porque ela foi fornecida por outra empresa.
O documento oficial foi disponibilizado para consulta pública em 19 de outubro, com publicação prevista no Federal Register, o diário oficial americano, para terça-feira (20).
A documentação consultada não estabelece um prazo público específico para a conclusão de todas as remoções.
DeepSeek foi proibida para todos os americanos?
Não. A restrição anunciada não representa uma proibição geral da DeepSeek nos Estados Unidos.
A ordem é direcionada aos sistemas e às contratações de órgãos federais civis.
Isso significa que a medida não determina, por si só, a retirada do aplicativo das lojas digitais nem impede automaticamente que consumidores e empresas privadas utilizem a tecnologia.
As restrições também não equivalem a um bloqueio nacional do site ou dos serviços da companhia.
Entretanto, organizações privadas que trabalham com contratos governamentais poderão precisar avaliar se suas soluções utilizam modelos abrangidos pela determinação, conforme as exigências aplicáveis a cada contrato.
O que é a DeepSeek e por que ela preocupa os Estados Unidos?
A DeepSeek é uma empresa chinesa de inteligência artificial que ganhou projeção internacional ao desenvolver modelos capazes de competir em diferentes tarefas com sistemas de empresas americanas.
Suas tecnologias são utilizadas em atividades como geração de textos, programação, análise de documentos e resolução de problemas.
Um dos diferenciais da companhia é a disponibilização de modelos com pesos abertos, que permitem a desenvolvedores executar determinadas versões da tecnologia em infraestrutura própria.
Esse formato ampliou o interesse de empresas e programadores em busca de alternativas aos serviços comerciais de inteligência artificial.
A expansão da DeepSeek, entretanto, também intensificou o debate sobre a origem das tecnologias utilizadas por governos e empresas.
Para autoridades americanas, o risco não está apenas no desempenho dos modelos, mas também nas condições de armazenamento, processamento e acesso às informações.
É importante distinguir o uso de um serviço hospedado por uma empresa estrangeira da execução de um modelo em servidores próprios. As condições técnicas de tratamento dos dados podem ser diferentes, embora a nova ordem americana alcance ambas as situações quando enquadradas em suas regras.
Outros órgãos americanos já haviam restringido a tecnologia
A decisão desta segunda-feira amplia medidas adotadas anteriormente por instituições americanas.
O Departamento de Comércio e a Marinha dos Estados Unidos já haviam estabelecido restrições ao uso da DeepSeek em dispositivos governamentais.
Governos estaduais, como os de Nova York, Tennessee e Virgínia, também adotaram medidas relacionadas à utilização da inteligência artificial chinesa.
Além disso, um memorando do Departamento de Segurança Interna, elaborado em julho e divulgado nesta segunda-feira, recomendou que órgãos federais monitorassem o tráfego de dados associado à tecnologia.
A nova determinação cria uma restrição mais ampla para a administração federal civil, em vez de depender exclusivamente de decisões individuais de cada órgão.
Disputa entre Estados Unidos e China avança no setor de tecnologia
A restrição ocorre em um cenário de crescente competição entre os dois países pelo desenvolvimento de inteligência artificial, semicondutores e infraestrutura digital.
O governo americano também vem adotando medidas para limitar a utilização de determinados equipamentos e componentes de empresas chinesas em setores considerados estratégicos.
Entre as iniciativas recentes estão restrições envolvendo drones, roteadores e equipamentos de telecomunicações.
A Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos (FCC) também tem uma votação prevista para 29 de outubro sobre novas limitações à participação de laboratórios chineses na certificação de dispositivos eletrônicos destinados ao mercado americano.
No caso da DeepSeek, a decisão evidencia como a escolha de uma ferramenta de inteligência artificial passou a envolver não apenas desempenho e custo, mas também segurança da informação, legislação e relações internacionais.
Até a divulgação das informações desta segunda-feira, a Embaixada da China em Washington não havia apresentado comentário imediato sobre a determinação.

