A moda também é política: Foz levou a Constituição à passarela na SPFW

Às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais, desfile de Antônio Castro termina com uma noiva carregando a Constituição de 1988 e provoca reflexão sobre o papel da moda na sociedade

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Em um momento em que o Brasil se prepara para voltar às urnas, a Foz escolheu encerrar seu desfile na São Paulo Fashion Week com a imagem de uma noiva que ao invés de carregar um buquê, carrega a Constituição Federal de 1988. O desfile abriu o último dia de evento, e a cena arrancou aplausos do público colocando a política no centro da exibiçaõ.

A poucos dias do segundo turno das eleições presidenciais, marcado para 25 de outubro, discutir democracia, direitos e o futuro do país faz parte da realidade brasileira. Nesse contexto, a escolha do estilista alagoano Antônio Castro chama a atenção por levar para um evento de moda um símbolo que atravessa a história política do Brasil.

A Constituição foi promulgada em 1988, após o fim da ditadura militar, e estabeleceu as bases jurídicas da democracia brasileira. Quase quatro décadas depois, vê-la ocupar a passarela em um período eleitoral abre espaço para refletirmos: até que ponto a moda também participa da conversas que acontecem fora dela?

Existe uma tendência a enxergar os desfiles apenas pelo que apresentam de novo em roupas e tendências. Mas a moda também comunica ideias e encontra maneiras próprias de dialogar com o momento em que está inserida.

Além de se perguntar o que vamos vestir na próxima estação, a Foz nos convidou a pensar sobre o que queremos representar e quais valores consideramos importantes. Afinal, a moda não está isolada da sociedade, mas sim, inserida nela. Ela também é feita por pessoas que vivem o mesmo país, acompanham suas discussões e encontram sua própria forma de se expressar.

A política pode até não ser o primeiro assunto que vem à cabeça quando pensamos em moda, mas isso não impede as duas áreass de se encontrarem. Em um ano eleitoral, a escolha de levar a Constituição para a passarela torna essa relação ainda mais evidente.

Expresso Maravilha

Antes de chegar à imagem que encerrou o desfile, a coleção já apresentava diferentes maneiras de olhar para o Brasil. Sob o nome Expresso Maravilha, Antônio Castro construiu uma apresentação atravessada por lembranças , afetos e referências à ideia de voltar para casa. A inspiração veio de uma viagem de carro que o estilista fez, de São Paulo ao Ceará, que despertou nele uma busca por referências de pertencimento.

Com estampas florais, referências à chita e trabalhos artesanais, as peças também valorizaram saberes regionais e a produção manual. A parceria com a Casa das Bordadeiras, grupo de artesãs de Timbaúba dos Batistas, no Rio Grande do Norte, reforçou essa conexão com as tradições e com as pessoas que ajudam a construir a moda brasileira.

Antônio escolheu trazer à passarela, elementos que fazem parte da memória de muitas casas brasileiras. O resultado foi uma moda que olha para as próprias raízes sem ficar presa ao passado. O que costuma passar despercebido na rotina doméstica ganhou espaço na passarela e passa a ser visto com outros olhos. São referências que ajudam a contar histórias sobre quem somos, de onde viemos e o que levamos conosco.

Por isso, a escolha de encerrar a apresentação com a Constituição nas mãos da modelo pernambucana Mikaela Gomes abre margem para uma interpretação que vai muito além das roupas. Em uma coleção que escolhe olhar para as origens e para aquilo que carregamos conosco, o documento também faz parte daquilo que compartilhamos enquanto país.

Encontro entre moda e política

A moda não precisa transformar todos desfile em um manifesto para mostrar que faz parte da sociedade. Ela pode falar de amor, de identidade, sobre querer voltar para casa de tantas outras experiências humanas. Mas também pode abrir espaço para assuntos, que, em determinados momentos, se tornam impossíveis de ignorar.

Às vésperas de uma decisão eleitoral importante, a imagem escolhida pela Foz se destaca por não precisar nem usar palavras para despertar perguntas. O que significa viver em uma democracia? Como os direitos conquistados se relacionam com nossa vida no dia a dia? E qual o papel da moda na maneira como enxergamos o país em que vivemos?

Não são perguntas que um desfile possa responder sozinho. Talvez essa nem seja sua função. Mas a arte tem a capacidade de fazer determinados assuntos chegarem mais perto da nós, fazendo com que a gente pare por alguns momentos para olhar novamente para aquilo que, muitas vezes, parece distante da nossa rotina.

A política não se limitar aos debate ou às urnas. Ela se faz presente na cultura, na educação, na liberdade de expressão e na forma como ocupamos espaços coletivos. Por isso, quando a moda escolhe trazer um símbolo com a Constituição para a passarela, ela nos lembra que é muito mais do que vemos no espelho. Ela também nos faz olhar para fora dele e pensar sobre o país que queremos construir. Um país que respeita a arte, valorize a cultura e entenda que a liberdade de criar e se expressar também faz parte da democracia.

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