Um levantamento da healthtech Starbem revelou que 72% dos brasileiros trabalham atualmente em níveis elevados de estresse, classificados como “modo de sobrevivência”.
O dado surge em um momento de maior atenção à saúde mental nas empresas, impulsionado pelo aumento recorde de afastamentos por transtornos psicológicos e pela entrada em vigor da fase punitiva da nova Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que exige das organizações o gerenciamento de riscos psicossociais no ambiente de trabalho.
A pesquisa acompanhou cerca de 1.900 participantes durante seis meses e identificou que a maior parte dos trabalhadores permanece em estado constante de alerta, condição que pode comprometer a produtividade, a tomada de decisões e a saúde física e emocional.
O cenário acompanha os números do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
Em 2025, aproximadamente 546 mil trabalhadores foram afastados por transtornos mentais e comportamentais, o maior volume já registrado no país.
Entre os diagnósticos, os casos de burnout apresentaram um dos maiores crescimentos, passando de 1.760 registros em 2023 para 6.985 em 2025.
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Nova NR-1 amplia responsabilidade das empresas
Desde 26 de maio de 2026, a fiscalização da atualização da NR-1 passou a ter caráter punitivo. A norma determina que as empresas identifiquem, avaliem e monitorem fatores como assédio moral, pressão excessiva por metas, jornadas exaustivas, conflitos interpessoais e sobrecarga de trabalho, incorporando esses riscos ao Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR).
A nova regulamentação, no entanto, ainda gera discussões no setor produtivo. Entidades como a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e a Confederação Nacional de Saúde (CNSaúde) recorreram ao Supremo Tribunal Federal (STF), alegando falta de critérios objetivos para a fiscalização.
Para a especialista em neurociência aplicada ao comportamento humano Eliane Sato, o debate jurídico não diminui a importância da discussão sobre saúde mental nas organizações.
“A discussão sobre critérios de fiscalização é legítima, mas ela não altera o que já é conhecido pela ciência. O cérebro humano reage aos riscos psicológicos de maneira semelhante aos riscos físicos. Ambientes de pressão constante afetam diretamente o funcionamento cognitivo e a capacidade de desempenho dos profissionais“, afirma.
Pressão constante reduz produtividade
Segundo a especialista, um dos principais resultados do estudo é mostrar que o estado permanente de alerta já foi incorporado à rotina de muitos trabalhadores, que deixam de perceber os impactos desse comportamento.
Entre os efeitos observados está a chamada “névoa mental”, condição em que a ansiedade prolongada dificulta concentração, memória e tomada de decisões. De acordo com o levantamento, esse quadro pode triplicar o tempo necessário para executar tarefas simples.
Além do absenteísmo, quando o trabalhador precisa se afastar das atividades, especialistas alertam para o avanço do presenteísmo — situação em que o profissional permanece no trabalho, mas apresenta desempenho reduzido devido ao esgotamento físico e emocional.
“Existe a percepção de que aumentar a pressão gera mais resultados, mas os estudos mostram justamente o contrário. Quando o cérebro permanece em estado de estresse contínuo, sua capacidade produtiva diminui“, explica Eliane.
Adequação vai além do cumprimento da lei
Na avaliação da especialista, a nova NR-1 representa uma mudança importante na forma como as empresas tratam a saúde ocupacional.
Ela destaca que a norma não cria apenas uma obrigação documental, mas estabelece um novo padrão de responsabilidade na identificação e prevenção dos riscos psicossociais, fator que pode influenciar futuras ações trabalhistas relacionadas ao adoecimento mental.
“A empresa que consegue identificar, registrar e adotar medidas preventivas demonstra diligência na gestão desses riscos. Já a ausência desse processo pode ampliar sua exposição jurídica“, afirma.
Apesar do cenário de preocupação, o estudo também aponta que o acompanhamento psicológico adequado pode produzir resultados expressivos. Entre os participantes monitorados, houve aumento de 105% na capacidade de concentração e crescimento de 173% nos níveis de motivação após o período de acompanhamento.
Para Eliane Sato, os dados indicam que investir em saúde mental não representa apenas uma medida de conformidade com a legislação, mas também uma estratégia para melhorar o desempenho organizacional.
“O cérebro possui grande capacidade de recuperação quando encontra condições favoráveis. A discussão não deve se limitar ao cumprimento da norma, mas também à construção de ambientes de trabalho mais saudáveis e sustentáveis para empresas e colaboradores“, conclui.


