A Copa do Mundo costuma transformar a rotina das famílias, mobilizar escolas e colorir ruas com bandeiras e camisetas da seleção. Para muitas crianças, o torneio é um dos momentos mais aguardados do calendário esportivo.
Mas, além da paixão pelo futebol, o evento também pode servir como uma importante ferramenta para ensinar lições sobre emoções, expectativas e frustrações.
Segundo Bruno Jardini Mäder, psicólogo e coordenador do curso de Psicologia da Faculdades Pequeno Príncipe, as crianças vivenciam a expectativa pela Copa de forma diferente dos adultos.
Isso acontece porque ainda estão desenvolvendo habilidades cognitivas e emocionais que ajudam a distinguir desejos da realidade.
“A criança tem mais dificuldade para modular suas expectativas. Sua imaturidade cognitiva faz com que a expectativa de realização esteja muito próxima da própria realização. Para ela, imaginar que a seleção será campeã pode parecer algo quase concreto“, explica o especialista.
Essa característica faz com que a ansiedade durante a competição seja mais intensa. Muitas crianças têm dificuldade em compreender que existe um longo caminho até uma possível conquista e podem sofrer mais diante de resultados inesperados.
O impacto da cultura do futebol
De acordo com o psicólogo, as expectativas infantis em relação à Copa do Mundo são construídas dentro de um contexto cultural. No Brasil, o futebol ocupa um espaço importante na identidade nacional e, durante o torneio, esse sentimento se intensifica.
As crianças observam familiares comentando partidas, usando camisetas da seleção, decorando casas e organizando encontros para assistir aos jogos. Naturalmente, acabam compartilhando desse entusiasmo.
“Elas percebem o valor social e cultural desse momento. Estão inseridas nessa cultura e participam dela junto com a família e a sociedade“, afirma Mäder.
Quando perder também ensina
Embora a torcida sempre espere pela vitória, uma eventual derrota pode representar uma importante oportunidade de aprendizado.
Segundo o especialista, momentos de frustração ajudam as crianças a compreender que nem sempre os resultados acontecem como desejado.
A experiência pode servir de gancho para conversas sobre situações do cotidiano, como não conseguir uma nota esperada na escola ou não ser escolhido para determinada atividade.
O papel dos pais e responsáveis, nesse contexto, é acolher os sentimentos da criança sem ignorar a tristeza causada pela derrota.
“É importante reconhecer que perder é triste e frustrante. Isso não significa permitir comportamentos agressivos ou que a criança desconte essa frustração nos outros. O ideal é validar os sentimentos e mostrar que novas oportunidades sempre surgirão“, orienta.
Saber ganhar também é importante
As lições emocionais da Copa não aparecem apenas nas derrotas. As vitórias também oferecem oportunidades valiosas para o desenvolvimento infantil.
O psicólogo destaca que aprender a ganhar de forma respeitosa é tão importante quanto aprender a perder. Isso inclui comemorar sem humilhar adversários ou menosprezar quem torcia para outra seleção.
“O esporte é um espaço privilegiado para aprender a lidar com emoções. Quando a vitória acontece, também é preciso respeitar os sentimentos dos outros“, ressalta.
Como os pais podem aproveitar a Copa
Para transformar a experiência da Copa do Mundo em um momento positivo de aprendizado, os especialistas recomendam que os pais valorizem aspectos que vão além do placar.
Entre as orientações estão:
- Explicar às crianças o significado da competição;
- Destacar o esforço e a dedicação dos atletas;
- Valorizar o mérito dos adversários;
- Promover momentos de convivência familiar durante os jogos;
- Envolver os filhos nos rituais ligados às partidas;
- Incentivar o respeito às diferentes torcidas;
- Aproveitar o evento para falar sobre cultura e identidade nacional.
Quando a frustração exige atenção
Ficar triste após uma derrota é uma reação considerada normal. No entanto, alguns comportamentos podem indicar que a criança está enfrentando dificuldades maiores para lidar com suas emoções.
Entre os sinais que merecem atenção estão:
- Recusa em ir à escola;
- Comportamentos agressivos frequentes;
- Isolamento social;
- Reações desproporcionais que persistem por vários dias.
Segundo Mäder, se esses comportamentos também aparecem em outras situações do cotidiano e não apenas em momentos relacionados ao futebol, pode ser importante buscar orientação profissional.
Mais do que uma competição esportiva, a Copa do Mundo pode se transformar em uma oportunidade para ensinar valores como respeito, resiliência, empatia e autocontrole, habilidades que acompanharão as crianças muito além dos gramados.


