O avanço da inteligência artificial está transformando não apenas a forma como empresas desenvolvem produtos, mas também a maneira como protegem e posicionam suas marcas na internet.
A extensão .ai, originalmente criada para identificar sites de Anguilla, território britânico no Caribe, ultrapassou 1 milhão de registros em janeiro de 2026 e passou a ocupar um papel estratégico na identidade digital de negócios ligados à IA.
O crescimento é acelerado. Em 2023, havia cerca de 354 mil domínios registrados com a extensão. Apenas dois anos depois, esse número praticamente triplicou, impulsionado pela expansão global de startups, plataformas e serviços baseados em inteligência artificial.
Embora o .ai seja tecnicamente o domínio de nível superior (ccTLD) de Anguilla, registrado em 1995 e administrado pelo governo local sob coordenação da Internet Assigned Numbers Authority (IANA), seu significado ganhou uma nova dimensão com a popularização da sigla Artificial Intelligence. Hoje, a extensão funciona como uma identificação imediata de empresas e produtos associados ao setor.
O .ai deixou de ser apenas um endereço
A mudança também reflete uma transformação na estratégia digital das empresas. Se antes a escolha do domínio era uma decisão essencialmente técnica, agora ela passou a fazer parte do posicionamento da marca.
Para Patrice Ramos, diretor de Produtos e Engenharia da KingHost, a extensão pode comunicar rapidamente ao mercado o segmento em que uma empresa atua.
“Quando uma empresa utiliza o domínio .ai, ela consegue comunicar rapidamente ao mercado que aquele produto ou serviço está relacionado à inteligência artificial. Isso não substitui a construção de reputação, mas pode ajudar a tornar o posicionamento mais claro desde o primeiro contato com a marca”, afirma.
O fenômeno também produziu efeitos econômicos em Anguilla. Segundo dados do Fundo Monetário Internacional (FMI), as receitas provenientes dos registros de domínios .ai alcançaram cerca de US$ 32 milhões em 2023, o equivalente a pouco mais de 20% da arrecadação do governo local. Antes da popularização da inteligência artificial, essa participação girava em torno de 5%.

Crescimento aumenta disputas por domínios
A valorização da extensão também ampliou um problema conhecido no ambiente digital: o registro antecipado de nomes por terceiros com o objetivo de revendê-los posteriormente ou explorar marcas consolidadas, prática conhecida como cybersquatting.
Em 2025, a Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI/WIPO) administrou mais de 6.200 processos envolvendo disputas por nomes de domínio, o maior volume anual já registrado pela entidade. Desde a criação de seu sistema internacional de resolução de conflitos, mais de 80 mil casos já foram analisados.
Embora as estatísticas envolvam diferentes extensões, decisões recentes da organização mostram que o .ai também passou a integrar esse cenário, com disputas envolvendo marcas conhecidas e registros feitos para posterior comercialização.
Proteção digital entra no planejamento das empresas
Diante desse fenômeno, especialistas apontam que o registro preventivo de domínios relevantes pode se tornar parte da estratégia de proteção da propriedade intelectual, especialmente para empresas que já atuam com inteligência artificial ou pretendem lançar produtos nesse segmento.
“O custo de registrar preventivamente uma extensão relevante costuma ser menor do que o esforço jurídico, financeiro e reputacional necessário para recuperar um endereço usado de maneira indevida. A análise precisa considerar a marca principal, os nomes dos produtos e os mercados em que a empresa pretende atuar”, explica Patrice Ramos.
Migração não é obrigatória
Apesar da crescente valorização da extensão, especialistas avaliam que nem todas as empresas precisam substituir seus domínios principais por um endereço .ai.
Uma alternativa é utilizar a extensão para páginas específicas de produtos, demonstrações de soluções baseadas em inteligência artificial, campanhas internacionais ou simplesmente como forma de impedir que terceiros registrem a mesma marca.
A decisão, no entanto, tende a ganhar importância à medida que a oferta de nomes disponíveis diminui e o mercado de inteligência artificial continua em expansão. Para empresas que enxergam a IA como parte estratégica de seus negócios, a discussão já não envolve apenas marketing ou tecnologia, mas também proteção patrimonial e competitividade no ambiente digital.


