O mercado brasileiro de criptomoedas passa por uma reorganização após a entrada em vigor das novas regras do Banco Central (BC). Corretoras como Bitnuvem, NovaDAX, Digitra.com e Coinext anunciaram o encerramento de atividades, enquanto outras empresas buscam parcerias para continuar oferecendo serviços no país.
As mudanças foram estabelecidas por normas que passaram a valer em fevereiro de 2026 e criaram exigências específicas para empresas responsáveis pela negociação, intermediação e custódia de ativos virtuais.
Entre as obrigações estão a obtenção de autorização do Banco Central, a manutenção de capital mínimo, a adoção de controles de segurança cibernética e o fortalecimento dos mecanismos de prevenção à lavagem de dinheiro.
O prazo para que empresas já em funcionamento apresentem seus pedidos de autorização termina em 30 de outubro de 2026. A proximidade da data acelera as decisões sobre continuidade, encerramento ou reestruturação das operações.
As exigências de capital podem chegar a R$ 37,2 milhões, dependendo das atividades e da estrutura de cada instituição.
Quais corretoras estão deixando o Brasil?
A nova regulamentação coincide com uma sequência de anúncios de encerramento de operações no mercado brasileiro de criptoativos.
Bitnuvem, NovaDAX, Digitra.com e Coinext estão entre as empresas que comunicaram mudanças em suas atividades.
Entretanto, os motivos não são necessariamente iguais. Algumas companhias apontaram diretamente os custos e as exigências regulatórias, enquanto outras também enfrentam desafios comerciais e estratégicos.
Por isso, não é correto afirmar que todas foram obrigadas a fechar pelo Banco Central.
A Digitra.com, por exemplo, informou oficialmente que decidiu não apresentar pedido de autorização para atuar como prestadora de serviços de ativos virtuais e optou pelo encerramento ordenado de suas operações de negociação e custódia no Brasil.
A empresa estabeleceu um cronograma para retirada dos recursos dos clientes, com diferentes prazos para movimentação e saque.
O que muda com as novas regras do Banco Central?
A regulamentação criou um sistema de supervisão específico para as empresas que prestam serviços com criptomoedas e outros ativos virtuais.
Essas instituições precisam demonstrar capacidade financeira, estrutura de governança e mecanismos adequados para proteger os recursos e as informações dos clientes.
As exigências incluem controles de gerenciamento de riscos, segurança da informação, prevenção a operações ilícitas e procedimentos para acompanhar as transações realizadas.
O Banco Central também estabeleceu restrições para operações entre instituições financeiras e prestadoras de serviços de ativos virtuais que não estejam autorizadas ou em processo de autorização.
A partir de 30 de outubro, instituições financeiras e de pagamento autorizadas pelo BC não poderão realizar ou viabilizar determinadas operações com empresas de criptoativos que estejam fora dessas condições, ressalvadas as exceções previstas na regulamentação.
Isso não significa que todas as corretoras precisarão ter a autorização definitivamente concedida até essa data. Para as empresas abrangidas pela regra de transição, o prazo é para protocolar o pedido de autorização.
Por que as exigências estão provocando mudanças no mercado?
O novo modelo regulatório aumenta os custos de funcionamento das corretoras, principalmente para empresas menores.
Além do capital mínimo, as instituições precisam investir em equipes especializadas, sistemas de segurança, controles internos e procedimentos de conformidade regulatória, conhecidos como compliance.
Para empresas com menor volume de negócios, esses custos podem tornar a operação independente financeiramente inviável.
Segundo reportagem da Folha de S.Paulo publicada em 13 de outubro, o setor movimentou R$ 283 bilhões no primeiro semestre de 2026, dos quais R$ 177,6 bilhões passaram por corretoras de criptoativos, com base em dados da Receita Federal.
A regulamentação também pode favorecer a concentração do mercado em instituições com maior capacidade financeira.
Por outro lado, as novas exigências buscam reduzir riscos operacionais e ampliar a proteção dos clientes, aproximando a supervisão das corretoras de criptomoedas daquela aplicada a outros participantes do sistema financeiro.
Parcerias surgem como alternativa ao encerramento
Nem todas as empresas estão deixando o mercado brasileiro. Algumas decidiram modificar seus modelos de atuação.
Em setembro, Mercado Bitcoin e Bitso anunciaram uma parceria que direcionou clientes brasileiros da Bitso para a plataforma nacional.
No início de outubro, o Mercado Bitcoin também firmou um acordo para atender clientes de varejo da Bity.
Essas iniciativas permitem que empresas reduzam sua exposição aos custos de manter uma operação própria de negociação de criptomoedas, preservando determinadas atividades ou relacionamentos comerciais.
O movimento aponta para um mercado com menos operadores independentes e maior integração entre empresas de tecnologia financeira.
O que acontece com quem tem criptomoedas nessas plataformas?
Para os investidores, a principal orientação é verificar os comunicados oficiais da corretora utilizada.
O encerramento de uma plataforma não significa, automaticamente, a perda dos ativos dos clientes. Entretanto, cada empresa pode estabelecer procedimentos e prazos diferentes para saques, transferências ou conversão de saldos.
A Digitra.com, por exemplo, encerrou a possibilidade de retirada direta de criptoativos em 28 de setembro. Os ativos remanescentes foram submetidos a um processo de conversão automática, e o prazo informado para saque dos saldos em reais termina em 19 de outubro de 2026.
Quem mantém recursos em uma corretora que anunciou mudanças deve:
- Consultar o cronograma de encerramento no site ou aplicativo oficial.
- Verificar os saldos disponíveis e eventuais ordens pendentes.
- Conferir os procedimentos de retirada ou transferência.
- Confirmar a compatibilidade da rede blockchain antes de enviar criptomoedas para outra carteira.
- Guardar comprovantes e históricos de operações, inclusive para fins tributários.
- Desconfiar de mensagens que solicitem senhas, códigos de autenticação ou frases de recuperação.
No caso de prazos já encerrados, o cliente deve procurar diretamente o atendimento oficial da empresa para verificar as alternativas disponíveis.
Prazo de 30 de outubro não significa fechamento de todas as corretoras
A data estabelecida pelo Banco Central é um marco importante para a regularização do setor, mas não representa o encerramento automático de todas as plataformas que ainda não receberam autorização definitiva.
Empresas que já atuavam no mercado e se enquadram nas regras de transição podem continuar no processo regulatório após apresentar a documentação exigida dentro do prazo.
A análise dos pedidos será realizada pelo Banco Central, considerando as condições financeiras, operacionais e de governança de cada instituição.
A regulamentação também prevê exigências prudenciais adicionais a partir de 2027, ampliando gradualmente os controles sobre o funcionamento dessas empresas.
A expectativa é que o mercado brasileiro de criptomoedas passe por uma fase de consolidação, com maior participação de instituições financeiramente estruturadas e novas parcerias entre empresas.
Para os investidores, a principal mudança será a necessidade de acompanhar mais de perto a situação regulatória das plataformas utilizadas.

