Como os fandoms brasileiros ajudaram a levar eleitores às urnas

Fã-clubes usaram a experiência nas redes sociais para divulgar mensagens políticas e incentivar a participação nas eleições

Comunidades brasileiras de fãs de artistas nacionais e internacionais ganharam destaque durante as eleições presidenciais de 2026 ao transformar páginas dedicadas à cultura pop em espaços de mobilização política. Após o primeiro turno, grupos conhecidos como fandoms passaram a organizar campanhas digitais de apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que disputou a reeleição contra Flávio Bolsonaro (PL).

Após o primeiro turno, comunidades de fãs passaram a organizar campanhas digitais em apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que disputou a reeleição contra Flávio Bolsonaro (PL). Os grupos utilizaram páginas dedicadas a artistas e bandas para divulgar conteúdos políticos, criar materiais de campanha e incentivar conversas sobre a disputa eleitoral.

A movimentação ganhou repercussão internacional. Em 26 de outubro, a revista americana Variety destacou o papel dos fandoms brasileiros na campanha de Lula. Segundo a publicação, mais de 600 grupos de fãs haviam declarado apoio ao presidente às vésperas do segundo turno. 

Mais do que apoiar um candidato, os fandoms mostraram como conseguem reunir pessoas e organizar ações nas redes sociais, dessa vez levando essa força para a mobilização política.

A força dos fã-clubes além dos streamings

Quem participa de um fandom sabe que fazer uma campanha acontecer exige organização. Para divulgar um álbum, por exemplo, os fãs combinam horários, dividem tarefas, criam artes e compartilham instruções para que mais pessoas participem. Nas redes sociais, cada integrante pode ajudar a levar uma publicação a novos públicos.

Durante as eleições, parte dessas estratégias foi usada para divulgar mensagens políticas. Os grupos compartilharam cards, organizaram publicações e usaram hashtags para fazer seus conteúdos chegarem a mais pessoas.

A movimentação não dependia apenas de uma pessoa publicando em seu perfil. Por trás das ações, havia fãs responsáveis por criar os materiais, organizar as postagens e manter contato com outras comunidades.

Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, o movimento Fandoms com Lula reuniu grupos ligados a artistas brasileiros e internacionais para divulgar conteúdos de apoio ao candidato.

Reprodução X: @fandomscomlula

A experiência mostra como a organização que já existe nos fandoms pode ser aproveitada em outros assuntos. Quem está acostumado a mobilizar milhares de pessoas para divulgar uma música também pode usar esse conhecimento para chamar atenção para uma causa.

A participação dos fandoms na política começou antes de 2026

A participação dos fandoms na política brasileira não começou nestas eleições. Em 2022, comunidades de fãs já tinham se organizado para incentivar jovens a tirar o título de eleitor e participar da votação.

Um exemplo é o ARMY Help The Planet, coletivo formado por fãs brasileiros do BTS que promove ações ligadas a questões sociais e ambientais. Entre suas iniciativas está a campanha Tira o Título ARMY, que usou referências ao grupo sul-coreano para incentivar a participação dos jovens nas eleições.

A ideia é aproximar assuntos importantes do universo que os fãs já conhecem. Em vez de falar sobre política usando apenas uma linguagem formal, essas iniciativas aproveitam imagens, expressões e referências da cultura pop para chamar a atenção do público.

Nem toda mobilização, porém, tem o objetivo de apoiar um candidato. Algumas campanhas procuram apenas incentivar o voto e divulgar informações sobre as eleições, sem dizer em quem as pessoas devem votar.

Essa diferença é importante porque um fandom não pensa como se fosse uma única pessoa. Mesmo quando uma página declara apoio a um candidato, isso não significa que todos os fãs daquele artista tenham a mesma opinião. Também não quer dizer que o próprio artista apoie a iniciativa.

Cultura Pop também é política

Memes, músicas, vídeos e referências a artistas fazem parte da rotina de quem acompanha a cultura pop na internet. Durante as eleições, esses mesmos recursos foram usados para falar sobre candidatos, propostas e assuntos que afetam a sociedade.

Uma publicação com uma referência conhecida pode despertar a curiosidade de alguém que não costuma acompanhar notícias políticas. A partir dali, a pessoa pode procurar mais informações e participar da conversa.

Isso não significa que todo conteúdo compartilhado por um fandom seja confiável. Assim como acontece em outros espaços da internet, informações falsas também podem circular rapidamente. Por isso, conferir os dados e consultar fontes confiáveis continua sendo importante.

Ainda assim, a participação dessas comunidades ajuda a mostrar que o interesse por música, séries e artistas não impede ninguém de se envolver com questões políticas. Para alguns fãs, essa participação pode começar com uma publicação e crescer até se transformar em uma ação coletiva.

Os fandoms ajudaram a decidir a eleição?

A atuação dos fãs ganhou destaque durante a campanha de 2026, mas é importante separar duas coisas: ajudar uma mensagem a chegar a mais pessoas e determinar o resultado de uma eleição.

As mobilizações contribuíram para dar visibilidade a conteúdos políticos e levar a discussão para comunidades de cultura pop. No entanto, não é possível afirmar que os fandoms foram responsáveis pelo resultado das urnas apenas com base na repercussão de suas publicações.

A escolha de um candidato envolve muitos fatores, como a situação econômica, as propostas apresentadas, as experiências pessoais e as opiniões de cada eleitor. Para saber o quanto uma campanha nas redes influenciou os votos, seria necessário ter dados que mostrassem esse impacto.

O que esse movimento deixa claro é que os fandoms podem fazer muito mais do que divulgar o trabalho de seus artistas favoritos. A organização que nasce em torno da música também pode ser usada para compartilhar informações, defender causas e incentivar a participação nas eleições.

Quando os mutirões de stream dão lugar às mobilizações políticas, a cultura pop passa a ocupar outro espaço na vida dos fãs. E mostra que, mesmo em comunidades criadas para falar sobre entretenimento, também há espaço para discutir o que acontece fora das telas.

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