Durante muito tempo, Los Angeles foi vendida como o lugar onde os sonhos se tornam realidade. É para lá que artistas do mundo inteiro vão em busca de uma oportunidade, na esperança de que alguém finalmente descubra seu talento. Mas e se algumas das garotas mais interessantes do pop nunca tiverem a chance de chegar até lá?
Essa é uma das perguntas feitas por ADÉLA em “Ain’t In LA”, música que ajudou a colocar a cantora eslovaca no radar do público internacional. Com uma sonoridade que mistura referências do pop dos anos 2010 e uma estética que não passa despercebida, ela questiona a ideia de que o sucesso precisa vir dos mesmos lugares e das mesmas pessoas.
A ironia é que a própria ADÉLA vive em Los Angeles. Mas a música não é exatamente sobre rejeitar a cidade. É sobre perceber quantas artistas talentosas existem pelo mundo e nunca recebem a mesma atenção que as celebridades que já conhecemos.
Em entrevista à Capital Buzz, a cantora explicou que queria fazer algo na linha de “Royals” e “Team”, de Lorde, músicas que falavam sobre pessoas que não estavam necessariamente no centro da cultura pop, mas que ainda tinham histórias que mereciam ser ouvidas.
O que veio antes do sucesso?
Para quem acompanha o universo dos grupos de pop, o nome de ADÉLA pode não ser completamente novo. Antes de iniciar sua carreira solo, ela participou do The Debut: Dream Academy, reality show criado para selecionar as integrantes do KATSEYE, grupo formado em uma parceria entre a HYBE e a Geffen Records.
A cantora foi eliminada ainda nas primeiras etapas da competição, em 2023. Um ano depois, com o lançamento da série documental Pop Star Academy: KATSEYE, da Netflix, sua participação voltou a chamar atenção. Só que, em vez de tentar permanecer associada ao grupo que não integrou, ADÉLA começou a construir seu próprio caminho.
Em 2025, lançou o EP The Provocateur e passou a apresentar ao público uma identidade artística marcada por cabelos rosa, sobrancelhas descoloridas, coreografias elaboradas e uma personalidade provocadora. Ela também abriu shows da turnê norte-americana de Demi Lovato, ampliando sua presença na cena pop.
O que poderia ter sido apenas uma participação breve em um reality acabou se tornando um capítulo de uma trajetória que seguiu por outro caminho.
Sucesso com relação familiar
“Ain’t In LA” ganhou um significado ainda mais pessoal quando ADÉLA revelou a história por trás da composição. A inspiração surgiu durante uma visita à sua cidade natal, Bratislava, na Eslováquia, quando encontrou fotografias da mãe aos 18 anos, posando diante de uma parede coberta de pôsteres de ícones da cultura pop.
Os pôsteres tinham uma história: seu avô os levava escondidos da Alemanha para casa, em uma época em que o acesso à cultura ocidental era limitado na então Tchecoslováquia.
A descoberta fez a cantora pensar em quantas mulheres talentosas tiveram sonhos parecidos com os seus, mas nunca encontraram espaço para realizá-los. A música, então, deixou de ser apenas uma provocação à indústria do entretenimento e passou a carregar uma homenagem à mãe e a tantas outras mulheres que não tiveram as mesmas oportunidades.
O videoclipe reforça essa ideia ao levar a produção para Bratislava e incluir integrantes da família da artista. Em meio às referências à cultura pop norte-americana, ADÉLA faz questão de mostrar de onde veio.
É um detalhe que torna a faixa ainda mais interessante: enquanto tantas artistas tentam construir uma imagem ligada ao glamour de Hollywood, ela usa a própria origem como parte central de sua identidade.
De PRIMA ao Lollapalooza Brasil
“Ain’t In LA” faz parte de PRIMA, primeiro álbum de estúdio da cantora, lançado em setembro de 2026. O disco reúne músicas que passam por inseguranças, relacionamentos, identidade e ambição, mostrando diferentes lados de uma artista que não parece interessada em caber em uma única versão de si mesma.
O título também tem relação com sua história. Antes de investir na música, ADÉLA passou anos treinando balé clássico. Em italiano, prima significa “primeira”, mas a palavra também remete à prima ballerina, posição de destaque dentro de uma companhia de balé. A escolha representa tanto o início de sua carreira em álbum quanto a ambição de conquistar um lugar próprio no pop.
Outra faixa que ajudou a ampliar sua popularidade foi “Nicole Kidman”, inspirada na admiração da cantora pela atriz australiana. A música e a repercussão em torno dela mostram como ADÉLA transforma referências da cultura pop em parte de seu próprio universo artístico.
Agora, a cantora se prepara para levar esse trabalho ao público brasileiro. Ela está confirmada no Lollapalooza Brasil 2027, com apresentação marcada para 21 de março, no Autódromo de Interlagos, em São Paulo.
A participação no festival marca mais um passo de uma carreira que começou a ganhar visibilidade em um reality, mas que hoje tem músicas, estética e histórias próprias para apresentar.
No fim, talvez o ponto mais interessante de “Ain’t In LA” seja justamente a contradição que acompanha a música. ADÉLA foi atrás do sonho americano, chegou a Los Angeles e encontrou espaço na indústria que critica. Mas não precisou apagar Bratislava de sua história para isso.
Em um pop que tantas vezes parece girar em torno das mesmas referências, ela chama atenção ao lembrar que existem talentos muito além dos lugares onde todos estão acostumados a procurar. E que, às vezes, a história mais interessante não é a de quem conseguiu chegar ao centro de tudo, mas a de quem decidiu mostrar ao mundo de onde veio.

