Loira, de olhos verdes e pele perfeita: essa é a descrição da modelo gerada por inteligência artificial (IA) que estampou pela primeira vez um anúncio nas principais revistas da Vogue.
Nesta edição de agosto as revistas Vogue americana, francesa e britânica, ilustram a capa com uma imagem criada por IA na campanha de verão da marca Guess.
A modelo virtual é uma criação da agência de publicidade Seraphinne Vallora, fundada por Valentina Gonzalez e Andreea Petrescu, arquitetas e especialistas em avatares humanos. A parceria surgiu depois de um contato com o cofundador da marca de roupas, Paul Marciano, por meio do Instagram.
Com o impacto midiático, vieram as polêmicas. Modelos profissionais como Leanne Maskell e Sara Ziff apontaram os riscos da intensificação do padrão de beleza e da falta de direitos trabalhistas, respectivamente.
Para Maskell, autora do The Reality Manifesto, não é surpreendente que a IA esteja começando a entrar na indústria da moda. A escritora acredita que as modelos criadas por essa tecnologia não são muito diferentes das modelos reais em relação ao padrão de beleza já imposto – são apenas “mais baratas”.
Já Ziff, fundadora da Model Alliance, reforçou que o uso da inteligência artificial deve ter acompanhamento e proteção para os desenvolvedores e trabalhadores da área.
“Precisamos nos perguntar quem está sendo pago, quem está sendo visto e quem está sendo apagado”, diz Sara Ziff à CNN.
Nos últimos anos, houve um progresso no mundo da moda no que diz respeito à diversidade. Vimos a brasileira Valentina Sampaio tornar-se a primeira modelo trans a estampar uma capa da Vogue e desfilar para a Victoria’s Secret, Halima Aden se tornar a primeira modelo a usar hijab em campanhas globais e modelos plus size como Ashley Graham ganharem cada vez mais visibilidade nas revistas e campanhas.
No entanto, a chegada da IA nos editoriais de moda parece ser um retrocesso para todo o avanço que já foi feito.
Sobre as polêmicas, Gonzalez e Petrescu consideram que não há grande diferença em utilizar IA e modelos reais. “No fim das contas, todos os anúncios são criados para parecerem perfeitos e geralmente têm supermodelos, então o que fazemos não é diferente disso”, diz Andreea Petrescu.
Porém, reconhecem que suas imagens carecem de diversidade e promovem padrões de beleza irreais. “Publicamos imagens de IA de mulheres com diferentes tons de pele, mas as pessoas não reagem, não tivemos nenhuma repercussão”, revela Valentina Gonzalez.
Valentina justifica à BBC News que ainda não desenvolveram mulheres plus size porque “a tecnologia não é avançada o suficiente para isso”.
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