Terras raras atraem R$ 17,5 bilhões e colocam Brasil na disputa tecnológica

Levantamento identifica 18 empresas estrangeiras com projetos no país; minerais são essenciais para veículos elétricos, turbinas eólicas e equipamentos de alta tecnologia

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O Brasil está atraindo bilhões de reais em investimentos estrangeiros para a exploração de terras raras, grupo de minerais estratégicos para a indústria tecnológica. Pelo menos 18 empresas internacionais possuem projetos de pesquisa ou mineração no país, com investimentos realizados e previstos que ultrapassam R$ 17,5 bilhões.

Os dados fazem parte de um levantamento publicado pela Folha de S.Paulo neste fim de semana, com base em informações da Agência Nacional de Mineração (ANM), documentos empresariais e estudos técnicos.

O interesse internacional cresce em meio à busca por fornecedores alternativos à China, que domina grande parte do processamento mundial desses materiais. Para o Brasil, a movimentação representa uma oportunidade de atrair indústrias e desenvolver tecnologias, mas também levanta uma questão: o país conseguirá transformar seus recursos minerais em produtos de maior valor agregado?

Por que as terras raras brasileiras atraem investidores?

As terras raras são um conjunto de 17 elementos químicos utilizados na fabricação de componentes essenciais para diferentes setores industriais.

Terras Raras – Ilustração

Entre suas principais aplicações estão os ímãs de alto desempenho empregados em motores de veículos elétricos, turbinas eólicas, equipamentos eletrônicos e tecnologias de defesa.

Apesar do nome, esses elementos não são necessariamente escassos na natureza. A dificuldade está em encontrar depósitos economicamente viáveis e desenvolver processos industriais capazes de separar e refinar os minerais.

O Brasil possui uma das maiores reservas conhecidas do mundo, mas ainda participa de maneira limitada da produção global.

Essa combinação de potencial mineral e baixa exploração comercial ajuda a explicar o interesse de empresas estrangeiras.

Outro fator é a tentativa de países e fabricantes de reduzir a dependência da China, especialmente nas etapas de separação e refino.

Empresas australianas lideram investimentos no Brasil

Das 18 companhias estrangeiras identificadas pelo levantamento, 11 são australianas, três canadenses, três norte-americanas e uma foi constituída nas Ilhas Marshall.

Os projetos estão distribuídos por diferentes regiões e apresentam estágios variados de desenvolvimento.

Algumas empresas ainda realizam estudos geológicos e testes para identificar depósitos economicamente viáveis. Outras já avançaram para licenciamento ambiental, implantação de instalações industriais ou produção comercial.

Entre os principais polos estão Minas Gerais, Goiás e Bahia, além de iniciativas em estados como Amazonas, Tocantins e Piauí.

Os R$ 17,5 bilhões representam a soma de investimentos realizados e estimativas futuras. Portanto, não significa que todo esse dinheiro já tenha sido aplicado no Brasil.

Compra de projeto em Minas movimenta R$ 3,5 bilhões

No fim de setembro, a Lynas Rare Earths anunciou um acordo para adquirir a Meteoric Resources, responsável pelo Projeto Caldeira, localizado no sul de Minas Gerais.

A operação foi avaliada em aproximadamente R$ 3,5 bilhões e envolve áreas dos municípios de Andradas, Caldas e Poços de Caldas.

O projeto reúne depósitos de terras raras utilizados principalmente na produção de ímãs industriais.

A aquisição ainda depende de aprovações societárias e regulatórias. O valor da transação também não deve ser confundido com o investimento necessário para construir e colocar a mina em operação.

O estudo de viabilidade do Caldeira prevê aproximadamente US$ 498 milhões para a implantação inicial do empreendimento.

A Lynas já possui experiência internacional em mineração e separação de terras raras. A companhia avalia a possibilidade de desenvolver etapas adicionais de processamento no Brasil, mas ainda não confirmou a construção de uma unidade de separação no país.

Goiás já possui produção comercial de terras raras

Enquanto diversos projetos estão em desenvolvimento, Goiás abriga uma das operações mais avançadas do setor.

A Serra Verde, localizada em Minaçu, iniciou a produção comercial em 2024 e passou recentemente ao controle da norte-americana USA Rare Earth.

Segundo a empresa, os investimentos no empreendimento já ultrapassam o equivalente a R$ 5 bilhões.

A operação possui uma mina e uma unidade integrada de processamento, responsável pela produção de carbonato misto de terras raras.

Esse produto já representa uma etapa de beneficiamento mineral, mas ainda precisa passar por processos adicionais de separação e transformação para atender determinadas aplicações industriais.

A empresa afirma que estuda oportunidades para ampliar sua atuação na cadeia produtiva, embora ainda não tenha definido a localização de uma eventual unidade de separação.

Brasil quer evitar exportação de minerais com pouco processamento

A principal preocupação do governo brasileiro é ampliar a participação do país nas etapas industriais de maior valor.

A extração mineral representa apenas uma parte da cadeia produtiva. Depois dela, os materiais podem passar por beneficiamento, separação, refino e transformação em metais, ligas e componentes industriais.

Essas etapas exigem tecnologia, investimentos elevados e profissionais especializados.

Em setembro, o governo sancionou uma nova política para minerais críticos e estratégicos, criando mecanismos voltados ao desenvolvimento industrial e ao acompanhamento de operações envolvendo ativos considerados estratégicos.

A legislação também prevê incentivos para atividades de processamento e transformação mineral.

A intenção é estimular a instalação de unidades industriais no Brasil, inclusive por meio de parcerias entre mineradoras e empresas detentoras de tecnologia.

O desafio é transformar o potencial geológico em uma cadeia produtiva capaz de gerar empregos qualificados, pesquisa e produtos de maior valor agregado.

Bahia e Minas também avançam com projetos industriais

Além das operações em Goiás, outros empreendimentos buscam desenvolver estruturas de processamento no país.

Na Bahia, a australiana Brazilian Rare Earths prevê investimentos de aproximadamente R$ 4,8 bilhões em seu projeto integrado Monte Alto–Camaçari, considerando as etapas planejadas até a produção de óxidos.

Divulgação – Brazilian Rare Earths

A empresa anunciou em setembro o início das operações da primeira etapa de uma planta-piloto em Camaçari. A fase seguinte, voltada ao tratamento químico e à separação, está prevista para 2027.

Em Minas Gerais, a Viridis desenvolve um projeto na região de Poços de Caldas e obteve aprovação de financiamento de R$ 77,5 milhões do BNDES para um centro de pesquisa e processamento.

Já a canadense Aclara mantém uma planta-piloto em Aparecida de Goiânia e prevê aproximadamente R$ 3,9 bilhões para um empreendimento em Nova Roma, também em Goiás.

Os diferentes projetos demonstram que o interesse estrangeiro não está limitado à abertura de novas minas. Parte das empresas também procura desenvolver processos industriais e tecnológicos associados à exploração dos minerais.

Quais são os desafios para o Brasil?

Apesar do potencial econômico, a expansão das terras raras enfrenta obstáculos importantes.

Os empreendimentos dependem de licenciamento ambiental, financiamento, comprovação de viabilidade técnica e infraestrutura adequada.

Também existem preocupações relacionadas ao uso de água, à gestão de resíduos e aos impactos ambientais e sociais nas regiões onde os projetos serão instalados.

Outro desafio é a capacidade de desenvolver tecnologia e mão de obra para executar as etapas mais complexas do processamento mineral.

A entrada de grandes grupos internacionais pode acelerar investimentos e ampliar o acesso a conhecimentos industriais, mas não garante, por si só, que toda a cadeia produtiva será instalada no Brasil.

Com empresas estrangeiras disputando depósitos e projetos bilionários em desenvolvimento, o país ganha espaço na corrida mundial por minerais estratégicos.

O resultado econômico dessa expansão dependerá não apenas do volume extraído, mas também da capacidade brasileira de transformar esses recursos em indústria, tecnologia e empregos.

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