Uma startup de Portland, nos Estados Unidos, quer aproveitar os assentos vazios de carros que já circulam entre cidades para criar uma nova alternativa de transporte. A HitchPiggy conecta motoristas que têm uma viagem planejada a passageiros interessados em seguir para o mesmo destino, em um modelo de compartilhamento de caronas voltado principalmente para trajetos regionais.
A proposta tem semelhanças com plataformas de caronas intermunicipais já conhecidas em outros mercados, mas se diferencia de aplicativos como Uber e Lyft. Em vez de o passageiro solicitar uma corrida e um motorista se deslocar especificamente para atendê-lo, a HitchPiggy trabalha com trajetos que o condutor já pretendia realizar.
Na prática, o motorista publica sua viagem, informa destino e outros detalhes e pode escolher quem seguirá no veículo. Os passageiros interessados contribuem com os custos do deslocamento.
A empresa foi fundada em 2026 por Skylar Windham e começou a operar em 1º de junho no Noroeste do Pacífico. Ainda em estágio inicial e autofinanciada, a plataforma tem pouco mais de 100 usuários cadastrados.
O número, porém, precisa ser colocado em perspectiva: até o momento relatado pela empresa, nenhuma viagem havia sido efetivamente concluída por meio da plataforma. A aposta agora está na expansão entre estudantes universitários, público que costuma se deslocar entre cidades e campi da região.
Ideia surgiu após experiência com caronas na Europa
O conceito não nasceu recentemente. Windham afirma que começou a pensar no negócio depois de utilizar serviços de compartilhamento de viagens durante passagens pela Europa. Em 2015, por exemplo, usou o BlaBlaCar na França, experiência que posteriormente ajudaria a inspirar a criação da HitchPiggy.
Uma primeira tentativa de colocar a ideia em prática ocorreu em 2016, quando Windham contratou engenheiros no exterior para desenvolver o produto. O projeto, entretanto, acabou sendo deixado de lado diante das dificuldades para chegar à plataforma imaginada.
Quase uma década depois, a popularização das ferramentas de inteligência artificial mudou o cenário.
Segundo Windham, as atuais soluções de IA voltadas à programação permitiram desenvolver a plataforma mesmo sem experiência prévia como programador.
“Tentei desenvolver essa ideia pela primeira vez em 2016, contratando engenheiros no exterior, mas acertar o produto foi difícil. Eventualmente, deixei o projeto de lado. As ferramentas de IA atuais me deram a capacidade de finalmente construir a plataforma que eu havia idealizado, apesar de não ter nenhuma experiência em programação”, afirmou.
O caso coloca a HitchPiggy entre uma nova geração de pequenos negócios digitais que usam ferramentas de IA para reduzir algumas das barreiras técnicas existentes na criação de softwares e produtos online.
“Airbnb para os assentos vazios”
Windham define a proposta da empresa por meio de uma comparação simples: seria uma espécie de “Airbnb para os assentos vazios do seu carro”.
A lógica é aproveitar uma capacidade de transporte que já existe.
“Já existem milhares de assentos vazios em viagens entre cidades todos os dias. Quero ajudar motoristas e passageiros a ocupá-los, em vez de deixá-los ociosos”, explicou.
O objetivo de longo prazo é fazer com que viajantes consultem a HitchPiggy antes mesmo de procurar passagens de ônibus ou trem para determinados deslocamentos entre cidades.
A startup, no entanto, ainda está distante dessa escala. Além da pequena base inicial de usuários, Windham é, por enquanto, o único funcionário da companhia e decidiu não captar investimentos externos neste primeiro momento.
A estratégia é crescer de maneira gradual, testar o modelo com usuários reais e somente depois avaliar uma expansão mais acelerada.
“Existe muita pressão no mundo das startups para levantar dinheiro e crescer o mais rápido possível, mas eu queria construir o HitchPiggy de forma diferente. Prefiro crescer de forma constante e aprender com os usuários reais antes de tentar escalar”, afirmou.
Segurança é um dos desafios
Um dos pontos mais sensíveis de um serviço que coloca desconhecidos no mesmo carro é a segurança. A própria empresa reconhece que não é possível eliminar completamente os riscos de uma plataforma que conecta pessoas pela internet.
A estratégia da HitchPiggy é aumentar a quantidade de informações disponíveis antes de motorista e passageiro decidirem viajar juntos.
Os usuários podem consultar dados sobre as pessoas envolvidas, veículo, ponto de partida, trajeto, horário e custo, além de trocar mensagens antes da viagem.
Windham argumenta ainda que o compartilhamento informal de caronas já acontece por meio de grupos em redes sociais, classificados online e indicações entre conhecidos. A proposta da plataforma seria organizar esse comportamento em um ambiente desenvolvido especificamente para esse tipo de deslocamento.
Universitários estão entre os primeiros públicos
Para ampliar a base de usuários, a HitchPiggy busca agora estudantes universitários e conta com uma parceria com a Portland State Business Accelerator.
Arsh Haque, diretor da aceleradora, afirma que vê potencial em adaptar para os Estados Unidos um modelo de mobilidade que já experimentou em outros países.
“Tive a oportunidade de experimentar em primeira mão uma solução como o HitchPiggy no exterior, sempre quis tê-la nos EUA e acho que Skylar tem o talento nato para trazê-la para cá”, afirmou.
Antes de empreender no setor de tecnologia, Windham construiu carreira como terapeuta e instrutor de vela. Segundo ele, as duas experiências acabaram influenciando sua forma de administrar a startup.
“A terapia aprimorou minhas habilidades de escuta, enquanto a vela me ensinou a ser adaptável. Quando você está tentando chegar a um destino e as condições mudam, você precisa manter a calma e ajustar seu curso sem perder de vista o seu objetivo. Isso também se aplica à criação de uma startup.”
Por enquanto, a HitchPiggy funciona como um experimento em pequena escala. Se conseguirá transformar assentos vazios em uma alternativa relevante de transporte dependerá justamente do desafio central de qualquer plataforma desse tipo: reunir, ao mesmo tempo e nas mesmas rotas, uma quantidade suficiente de motoristas e passageiros.
Fonte: Geekwire


