O Google morreu? Pesquisa mostra que buscador continua liderando as decisões de compra no Brasil

Mesmo com o avanço do ChatGPT, das redes sociais e dos marketplaces, estudo mostra que o Google segue como principal porta de entrada para quem pesquisa produtos e serviços antes de comprar

Priorizar nos meus resultados Google

Desde que o ChatGPT foi lançado, no fim de 2022, uma das previsões mais recorrentes no mercado de tecnologia era que o Google perderia espaço como principal ferramenta de busca na internet.

O crescimento da inteligência artificial, a popularização do TikTok como plataforma de descoberta e o fortalecimento dos marketplaces alimentaram a narrativa de que o modelo tradicional de pesquisa estaria com os dias contados.

Quase quatro anos depois, os números mostram um cenário bem diferente.

Levantamento da Optimiza Marketing, intitulado de “O Mapa da Busca no Brasil”, revela que o Google continua sendo a principal porta de entrada para quem pesquisa produtos e serviços antes de realizar uma compra.

Na lembrança espontânea — quando o entrevistado responde sem receber opções —, 64% citaram o Google como primeira ferramenta de busca. Quando a lista de plataformas é apresentada, esse percentual sobe para 72%.

Dados do Relatório O Mapa da Busca no Brasil 2026

Os números deixam concorrentes bem atrás. Na pesquisa espontânea, Mercado Livre aparece com 5%, Shopee com 4%, Instagram e YouTube com 3% cada, enquanto o ChatGPT registra apenas 2%.

O Google não desapareceu. Ele mudou.

Os resultados brasileiros acompanham uma tendência observada em pesquisas internacionais.

Levantamento da consultoria SparkToro, baseado em dados da Datos, aponta que o volume de buscas realizadas no Google cresceu mais de 20% ao longo de 2024. Segundo a empresa, o buscador processou cerca de 373 vezes mais pesquisas do que o ChatGPT durante o período, contrariando a expectativa de uma migração em massa para ferramentas de inteligência artificial.

Na prática, especialistas avaliam que a IA não substituiu o Google, mas passou a ocupar uma nova posição dentro da jornada de busca.

Em vez de disputar diretamente com o ChatGPT, o próprio Google incorporou inteligência artificial ao seu mecanismo de pesquisa por meio dos AI Overviews, respostas geradas automaticamente que sintetizam informações antes da lista tradicional de links.

A estratégia representa uma mudança na experiência do usuário sem abandonar o modelo de busca que consolidou a empresa nas últimas décadas.

A busca ficou mais fragmentada

Embora o Google mantenha a liderança, a pesquisa mostra que o comportamento do consumidor mudou.

Em vez de utilizar apenas uma plataforma, o brasileiro passou a combinar diferentes canais antes de tomar uma decisão de compra. O Google continua iniciando a jornada, enquanto YouTube, Instagram, marketplaces e ferramentas de inteligência artificial são utilizados para aprofundar informações, comparar opções e validar escolhas.

Entre os entrevistados, 80% afirmam utilizar o Google durante esse processo, enquanto YouTube, Instagram e marketplaces aparecem empatados com cerca de um quarto dos consumidores. Ferramentas de IA já são utilizadas por 18%, indicando crescimento, mas ainda distante da liderança exercida pelo buscador.

Para a CEO e cofundadora da Niara, Lisane Andrade, o comportamento do consumidor tornou-se naturalmente multicanal.

“Hoje, a pesquisa é mais fragmentada. O usuário utiliza diversos canais para buscar informações sobre um tema ou produto e espera encontrar respostas no próprio canal em que está, não apenas no Google.”

A força do hábito ainda pesa

O estudo aponta outro fator que ajuda a explicar a permanência do Google como líder: o hábito consolidado dos usuários.

Segundo os pesquisadores, o buscador deixou de ser apenas uma plataforma para se tornar um comportamento automático quando surge a necessidade de pesquisar algo relacionado a uma compr.

Esse efeito aparece principalmente na lembrança espontânea, indicador tradicionalmente utilizado em pesquisas de branding para medir a força de uma marca.

Outro elemento é a predominância do sistema Android no Brasil. Cerca de 90% das pesquisas por produtos e serviços são feitas em smartphones, sendo 77,7% em aparelhos Android, nos quais a barra de pesquisa do Google já vem integrada ao sistema operacional.

Segundo o relatório, essa característica reduz a necessidade de o usuário instalar aplicativos alternativos e reforça o uso cotidiano do buscador.

Inteligência artificial cresce, mas ainda ocupa papel complementar

Apesar da rápida popularização da IA generativa, os dados indicam que ela ainda desempenha um papel de apoio na jornada de compra.

Na pesquisa estimulada, apenas 4,4% dos entrevistados disseram recorrer primeiro a ferramentas como ChatGPT ou Gemini para buscar informações sobre produtos e serviços. Já quando a pergunta mede o conjunto de plataformas utilizadas durante a pesquisa, esse percentual chega a 18%, mostrando que a IA já integra o processo de decisão, mas não substitui os buscadores tradicionais.

Essa conclusão também aparece no relatório da Optimiza.

Segundo o estudo, o consumidor brasileiro passou a distribuir funções entre diferentes plataformas: o Google continua sendo o ambiente de validação e confiança; as redes sociais funcionam como fonte de inspiração; os marketplaces aceleram a conversão; e a inteligência artificial atua principalmente organizando informações e simplificando comparações.

O desafio agora é aparecer — e convencer

Se há alguns anos a preocupação das empresas era estar bem posicionada no Google, hoje o desafio é maior.

A jornada de compra deixou de ser linear. O consumidor pesquisa em buscadores, assiste a vídeos no YouTube, consulta avaliações em marketplaces, busca opiniões nas redes sociais e utiliza ferramentas de IA para comparar alternativas antes de tomar uma decisão.

Nesse cenário, especialistas apontam que as estratégias digitais precisam deixar de pensar em um único canal e passar a construir presença consistente em todo o ecossistema de busca.

O Google continua liderando esse processo, mas a disputa pela atenção do consumidor já acontece em múltiplas plataformas. O que mudou não foi o protagonismo do buscador, mas a forma como ele passou a conviver com novos atores em uma jornada de compra cada vez mais distribuída.

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