A Meta estudou reduzir em até 60% algumas de suas equipes com a adoção de agentes de inteligência artificial para executar tarefas antes realizadas por funcionários. O plano fazia parte de uma ampla reorganização da companhia para testar se grupos menores, apoiados por IA, conseguiriam manter as operações.
A estratégia, porém, encontrou obstáculos. Dados internos levantaram dúvidas sobre os ganhos reais de produtividade, enquanto problemas técnicos e de segurança e a reação dos funcionários aumentaram a pressão dentro da companhia. Uma segunda etapa da reestruturação, prevista para novembro, acabou cancelada.
As informações fazem parte de uma investigação publicada pela Reuters nesta quarta-feira (26), baseada em dezenas de documentos, publicações e gravações internas e entrevistas com mais de 20 pessoas com conhecimento sobre o projeto.
A própria Meta confirmou à agência a existência da iniciativa e reconheceu que os cenários mais agressivos estudavam reduções de até 60% em determinadas equipes. A empresa ressaltou, entretanto, que se tratava de planejamento de cenários e que nem todas as possibilidades seriam necessariamente executadas.
O que era o Projeto OT
O projeto recebeu internamente o nome de Project OT, abreviação de Organization Transformation, ou Transformação Organizacional.
A iniciativa começou a ser estruturada no início de 2026 e tinha como objetivo transformar a Meta em uma companhia considerada internamente “AI native”, ou “nativa de IA”.
A ideia ia além de simplesmente oferecer ferramentas como ChatGPT, Gemini ou outros assistentes aos funcionários.
No modelo estudado pela Meta, agentes de inteligência artificial seriam incorporados diretamente aos processos da empresa, realizando tarefas com maior autonomia.
Documentos analisados pela Reuters indicam que a visão incluía fluxos de trabalho automatizados, ferramentas conectadas a agentes de IA e desenvolvimento de produtos pensado desde o início para utilizar inteligência artificial.
Equipes tradicionais também poderiam ser substituídas por grupos menores, chamados de “pods”.
Até junho, pelo menos 11 unidades da Meta, incluindo áreas de engenharia e pesquisa, já haviam adotado estruturas menores como parte das mudanças testadas pela companhia.
Meta chegou a estudar equipes até 60% menores
Esse é um dos pontos mais relevantes revelados pela investigação.
Em exercícios internos de planejamento, executivos avaliaram cenários nos quais algumas equipes poderiam perder até 60% de seus integrantes.
Parte dos profissionais seria transferida para outras funções e outra parcela poderia ser desligada.
A lógica era que equipes menores, formadas por funcionários considerados de alto desempenho e apoiadas por agentes de IA, conseguiriam realizar atividades anteriormente distribuídas entre grupos maiores.
A Meta afirmou à Reuters que o projeto também envolvia fechamento de vagas abertas, redução de custos e transferência de milhares de funcionários para áreas consideradas prioritárias.
Portanto, é importante fazer uma distinção: a empresa não chegou a demitir 60% de seus funcionários. Esse percentual fazia parte de cenários estudados para determinadas equipes.
A primeira rodada de cortes aconteceu
O projeto previa duas grandes etapas de reestruturação.
A primeira foi executada em 20 de maio, quando a Meta realizou uma rodada de demissões equivalente a aproximadamente 10% de sua força de trabalho.
A segunda estava prevista para novembro.
Horas antes da primeira rodada, entretanto, Mark Zuckerberg decidiu cancelar a segunda fase da reorganização.
No dia seguinte aos cortes, o executivo informou aos funcionários que não esperava realizar novas demissões em massa em toda a companhia naquele ano.
A Reuters afirma que não conseguiu determinar um único fator responsável pela mudança de estratégia. A decisão ocorreu, porém, enquanto aumentavam as dúvidas internas sobre produtividade, segurança e os efeitos da reorganização sobre os funcionários.
Mais código não significou necessariamente mais produtos
Um dos dados internos ajuda a explicar o problema enfrentado pela Meta.
Segundo uma publicação feita em junho pelo diretor de tecnologia da companhia, Andrew Bosworth, as mudanças de código realizadas nas plataformas e infraestruturas internas utilizadas pelos funcionários haviam aumentado 220% em relação ao ano anterior.
O número poderia sugerir um enorme salto de produtividade.
Mas outro indicador avançou muito menos.
As alterações que efetivamente resultaram em novos recursos ou melhorias chegando aos usuários cresceram apenas 36%.
A diferença colocou em discussão uma questão importante para empresas que estão incorporando inteligência artificial ao trabalho: produzir mais código não significa necessariamente entregar produtos melhores ou mais rapidamente.
Agentes de IA também provocaram problemas
Os testes trouxeram outro alerta.
Segundo registros internos citados pela Reuters, agentes de inteligência artificial chegaram a executar ações de grande escala que dificilmente seriam realizadas da mesma maneira por funcionários humanos.
No mesmo período, houve um aumento de 40% em incidentes técnicos e de segurança considerados graves em comparação com o ano anterior.
O tempo gasto pelos funcionários para resolver esses problemas chegou a crescer até 70%, segundo os documentos internos.
A Meta não comentou especificamente esses dados à Reuters.
Os números ajudam a mostrar uma das dificuldades da adoção de agentes autônomos dentro das empresas: quanto maior a capacidade concedida à inteligência artificial para executar tarefas, maior também pode ser o impacto de uma decisão incorreta.
Zuckerberg reconheceu que agentes avançaram menos do que o esperado
Em julho, Mark Zuckerberg também reconheceu internamente que o desenvolvimento dos agentes não havia acelerado no ritmo esperado nos meses anteriores, segundo a investigação.
Isso não significa que a Meta tenha abandonado a inteligência artificial.
Pelo contrário.
A companhia continua realizando investimentos bilionários em infraestrutura, modelos e profissionais especializados em IA.
O que mudou foi principalmente a forma como a transformação do trabalho passou a ser apresentada.
A narrativa de substituição direta de trabalhadores perdeu espaço para uma visão na qual a inteligência artificial funciona como uma tecnologia capaz de ampliar a produtividade dos profissionais e permitir estruturas organizacionais menores.
O caso da Meta mostra um limite atual da IA?
A experiência da Meta ajuda a colocar em perspectiva uma discussão que está acontecendo muito além do Vale do Silício.
Empresas de diferentes setores estão tentando descobrir se a inteligência artificial será utilizada principalmente para aumentar a produtividade dos trabalhadores ou para reduzir a quantidade de pessoas necessárias para executar determinadas atividades.
O Projeto OT mostra que essa substituição pode ser mais complexa do que simplesmente entregar tarefas a agentes de IA.
No caso da Meta, os sistemas conseguiram ampliar determinadas métricas de produção, como alterações de código, mas isso não se converteu na mesma proporção em funcionalidades efetivamente entregues aos usuários.
Ao mesmo tempo, surgiram novos custos relacionados à supervisão humana, correção de problemas e segurança.
Isso cria um paradoxo para as empresas: uma IA capaz de produzir mais também pode exigir mais trabalho humano para verificar aquilo que produziu.
Por enquanto, a experiência da Meta indica que agentes de inteligência artificial podem alterar profundamente a composição das equipes, mas transformar essa capacidade tecnológica em ganhos consistentes de produtividade ainda é um problema em aberto.


