62% dos jovens aceitariam ganhar menos para trabalhar com menos pressão

Levantamento mostra desigualdades no acesso ao emprego formal e revela que 62% aceitariam salário menor em troca de um ambiente de trabalho mais saudável

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A entrada dos jovens brasileiros no mercado de trabalho ainda é marcada por diferenças de renda, região, raça e escolaridade. Pesquisa realizada pela Fundação Itaú, com apoio técnico do Datafolha e do Instituto Locomotiva, mostra que, entre os brasileiros de 16 a 29 anos que estão trabalhando, menos da metade possui carteira assinada.

O levantamento Juventudes e o Mundo do Trabalho foi divulgado nesta sexta-feira (21), durante o evento Trampos do Futuro, no Pavilhão da Fundação Bienal de São Paulo, no Parque do Ibirapuera. Foram entrevistados 1.816 jovens de todo o país entre os dias 11 e 23 de maio deste ano.

Entre os entrevistados, 70% disseram estar trabalhando. Dentro desse grupo, 44% têm carteira assinada. Outros 15% são assalariados sem registro formal, 13% trabalham como autônomos ou freelancers, 10% fazem trabalhos informais e 8% atuam como estagiários ou aprendizes remunerados.

A busca por uma oportunidade também mobiliza parcela significativa dessa população. Atualmente, 20% dos brasileiros entre 16 e 29 anos estão procurando trabalho. Outros 29% buscaram uma vaga nos últimos seis meses e 61% tentaram uma nova colocação no período de um ano.

Formalização varia conforme renda, região e raça

As diferenças ficam mais evidentes quando os resultados são analisados de acordo com o perfil dos entrevistados.

Entre os jovens das classes A/B que trabalham, 43% possuem empregos formais. Nas classes D/E, o percentual é de 35%.

A diferença também aparece entre aqueles que trabalham sem registro: são 21% nas classes D/E, contra 13% entre os jovens das classes A/B.

Regionalmente, a formalização é mais frequente no Sul (58%) e no Sudeste (55%) do que no Norte (29%) e no Nordeste (20%).

A pesquisa identificou ainda diferenças relacionadas à raça. Entre os jovens brancos, 49% possuem emprego formal. Entre os negros, são 41%.

Os bicos informais fazem parte da realidade de 12% dos jovens negros e de 5% dos brancos.

A escolaridade também exerce forte influência. Entre os jovens de 16 a 29 anos que estudaram até o ensino fundamental, 34% trabalham em bicos. Entre aqueles com ensino superior, o percentual cai para 3%.

Entregadores de aplicativo trabalham na região do Centro do Rio de Janeiro. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Falta de experiência dificulta entrada no mercado

Para 49% dos entrevistados, a falta de experiência é a principal dificuldade para conseguir emprego. A concorrência aparece logo depois: 39% mencionam a quantidade de pessoas disputando uma mesma vaga.

As indicações também exercem papel relevante.

Para 96% dos jovens, conhecer alguém dentro de uma empresa ou ser indicado por familiares e amigos ajuda a conseguir emprego.

Essa percepção aparece na própria trajetória profissional dos entrevistados: 77% disseram ter conseguido o emprego atual por meio de indicação. Entre os jovens de 25 a 29 anos, o percentual chega a 81%. Já 23% afirmaram nunca ter conseguido uma oportunidade dessa maneira.

A indicação é considerada decisiva para conseguir trabalho por 32% dos jovens das classes A/B e por 16% daqueles das classes D/E.

Jovens querem estabilidade agora, mas sonham com autonomia

A carteira assinada ainda ocupa lugar importante nos planos imediatos. Para 30% dos jovens brasileiros, esse é o tipo de emprego desejado atualmente.

Quando a pergunta passa a considerar os próximos cinco anos, entretanto, o cenário muda. O percentual dos que desejam um emprego com carteira assinada cai para 16%, enquanto a preferência pelo trabalho autônomo sobe de 28% para 42%.

Para Carla Chiamareli, gerente do Observatório da Fundação Itaú, a mudança está relacionada ao processo de amadurecimento profissional.

“O jovem entende que tem que começar a vida profissional com estabilidade para adquirir experiência e, depois, ele pode escolher estar dentro de uma empresa ou não”, disse à Agência Brasil. “Eu não acho que eles não queiram ter um trabalho estável mas, talvez, desejem ter outras formas de trabalhar”.

Segundo Carla, desejar trabalhar por conta própria no futuro não significa necessariamente buscar uma ocupação precária.

“Ele é um trabalho de sucesso, é ter uma empresa, ser dono de um negócio. Eu acho que faz parte do sonhar. O que me deixa feliz é ver que, hoje, a maioria quer esse trabalho estável, bem remunerado, com garantias e, ao mesmo tempo, tem uma visão da saúde mental”.

O interesse pelo trabalho por conta própria nos próximos cinco anos é maior entre jovens com filhos (50%), moradores das regiões Sul (49%) e Centro-Oeste (48%), residentes no interior (45%) e jovens brancos (45%).

Já o desejo de permanecer em um emprego com carteira assinada aparece com maior frequência entre integrantes das classes D/E (23%), jovens com ensino fundamental (22%) e jovens negros (18%).

Nove em cada dez acreditam em melhora financeira

Apesar das dificuldades atuais, a percepção sobre o futuro é predominantemente otimista.

Para 91% dos jovens, a situação financeira estará melhor daqui a cinco anos. Outros 88% acreditam que terão uma condição financeira superior à dos pais e concordam que atualmente é necessário estudar mais para conseguir um bom trabalho.

Por outro lado, apenas 46% acreditam que conseguirão uma boa oportunidade profissional no futuro.

Quando questionados sobre as áreas em que gostariam de trabalhar, saúde aparece na liderança, mencionada por 25%. Tecnologia vem em seguida, com 22%.

Comércio e trabalho administrativo aparecem com 19% cada, seguidos por educação (16%), beleza e estética (14%) e comunicação e redes sociais (13%).

Salário importa, mas ambiente saudável também

O salário é o principal fator considerado pelos jovens na escolha de um trabalho, citado por 64% dos entrevistados. Benefícios, plano de carreira e ambiente de trabalho agradável aparecem empatados, com 31% cada.

Apesar da importância da remuneração, 62% afirmam que aceitariam ganhar um pouco menos para trabalhar em um ambiente mais saudável, com menor nível de pressão e estresse.

Entre os jovens que trabalham ou já trabalharam, 69% disseram ter deixado algum emprego por vontade própria.

O principal motivo, citado por 43%, foi a falta de respeito ou o tratamento inadequado por parte de líderes e chefes.

Também aparecem jornadas longas ou acúmulo de funções (36%), excesso de cobrança ou pressão por resultados (32%), falta de oportunidades de crescimento ou plano de carreira (28%) e dificuldade para conciliar trabalho e estudo (16%).

Metade dos jovens também cuida da casa

A pesquisa mostra que 48% dos entrevistados estudam. Ao mesmo tempo, 32% conciliam trabalho e estudo, 39% apenas trabalham e 13% não estudam nem trabalham.

Além das atividades profissionais e educacionais, 50% disseram ser responsáveis por cuidar da casa.

A responsabilidade não é distribuída igualmente. Entre as mulheres, 60% acumulam tarefas domésticas, contra 40% dos homens.

A diferença também aparece no cuidado com idosos, crianças e outras pessoas: a atividade é desempenhada por 28% das mulheres e por 14% dos homens.

Entre os jovens que estudam, 41% cursam o ensino superior, 27% estão no ensino médio, 18% fazem cursos livres e 11% frequentam o ensino técnico.

O diploma universitário é considerado importante para conquistar uma oportunidade de trabalho por 85% dos entrevistados, chegando a 91% entre os jovens da Região Norte.

Ao mesmo tempo, 91% consideram cursos técnicos e profissionalizantes um caminho mais rápido e eficiente para conseguir emprego.

Para 60%, programas destinados a apoiar a entrada dos jovens no mercado deveriam oferecer cursos práticos, e não apenas formação teórica.

Competências socioemocionais ainda são desafio

Na avaliação de Carla Chiamareli, a formação dos jovens ainda precisa avançar na preparação para situações encontradas no ambiente profissional.

“Hoje, a educação está muito focada em desenvolver competências de matérias como português e matemática, que são essenciais, são componentes tradicionais, mas acaba investindo pouco nas competências socioemocionais”, afirmou.

Segundo ela, características como resiliência, capacidade de lidar com frustrações e adaptabilidade também deveriam fazer parte do processo de formação.

A gerente do Observatório da Fundação Itaú defende ainda mudanças nos currículos escolares e universitários para aproximar a aprendizagem de situações encontradas no mundo do trabalho.

Metade dos jovens teme perder espaço para a inteligência artificial

O avanço da inteligência artificial também aparece entre as preocupações da nova geração de trabalhadores.

Nove em cada dez jovens acreditam que a IA eliminará muitas vagas de trabalho, enquanto 50% têm medo de perder espaço profissional devido aos avanços tecnológicos.

O receio é maior entre jovens com ensino fundamental (62%), integrantes das classes D/E (63%), pessoas com filhos (57%) e mulheres (55%). Entre os entrevistados das classes A/B, o percentual cai para 39%.

Carla Chiamareli avalia que a inteligência artificial tende a substituir determinadas funções básicas, mas ressalta que os entrevistados também demonstram expectativa de que novas oportunidades continuem existindo.

A tecnologia, porém, não aparece apenas como ameaça. Ao todo, 97% dos jovens declararam utilizar inteligência artificial e internet para aprender e crescer profissionalmente.

Pesquisa aponta oportunidade para empresas

Na avaliação de Carla, os resultados também representam um convite para que as empresas revejam a forma como recebem os jovens no mercado de trabalho.

O Brasil possui a Lei da Aprendizagem Profissional (Lei nº 10.097/2000), que estabelece a contratação de aprendizes por empresas de médio e grande porte dentro das condições previstas pela legislação.

Segundo a gerente do Observatório, ainda existe espaço para ampliar a presença de jovens nas empresas, especialmente daqueles de menor renda.

“Eu vejo que esses dados trazem uma janela de oportunidade muito boa para as empresas pensarem políticas intersetoriais entre educação e trabalho”, afirmou.

Com informações da Agência Brasil

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