Visa, Mastercard e Elo preparam cartões para compras feitas por agentes de IA

Tecnologia permite que agentes de inteligência artificial pesquisem produtos, comparem preços e iniciem pagamentos em nome do consumidor, seguindo limites e autorizações definidos pelo usuário.

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Comprar pela internet pode mudar significativamente nos próximos anos. Em vez de pesquisar um produto, comparar preços, escolher uma loja, preencher os dados e finalizar o pagamento, o consumidor poderá delegar boa parte desse processo a um agente de inteligência artificial.

Essa tecnologia já começou a ser testada no Brasil. Visa, Mastercard e Elo avançam no desenvolvimento de soluções para o chamado comércio agêntico, modelo no qual sistemas de IA podem realizar etapas da jornada de compra em nome do usuário.

Em março, Banco do Brasil e Visa realizaram uma transação com agente de IA em território brasileiro utilizando o Visa Intelligent Commerce. A operação ocorreu em ambiente de produção controlado e permitiu que o agente iniciasse o pagamento utilizando um cartão BB Visa habilitado para a experiência.

A Mastercard também realizou transações agênticas em tempo real no Brasil e em outros países da América Latina. A Elo, por sua vez, desenvolve diferentes aplicações envolvendo inteligência artificial e pagamentos.

A tecnologia ainda está longe de significar que uma inteligência artificial terá liberdade irrestrita para gastar o dinheiro do consumidor. A proposta das empresas é justamente estabelecer autorizações, parâmetros de compra e mecanismos de segurança antes que o agente possa agir.

O que é uma compra feita por agente de IA?

O chamado comércio agêntico representa uma evolução do uso de inteligência artificial nas compras online.

Hoje, ferramentas de IA já conseguem pesquisar produtos, comparar características e recomendar opções. Com os agentes, a tecnologia passa a poder executar também determinadas ações.

Imagine, por exemplo, pedir a um assistente:

“Encontre uma passagem do Rio de Janeiro para São Paulo na próxima sexta-feira, com saída pela manhã, por até R$ 500.”

Em vez de apenas apresentar uma lista de voos, um agente poderia pesquisar as opções disponíveis, comparar horários e preços, selecionar aquela que atende aos critérios estabelecidos e avançar na compra.

Dependendo das permissões concedidas, o sistema poderia também iniciar o pagamento.

É essa última etapa que exige uma nova infraestrutura das empresas de cartões.

A IA terá acesso ao número do cartão?

Uma das preocupações é impedir que os dados tradicionais do cartão fiquem diretamente expostos ao agente de inteligência artificial.

Visa e Mastercard trabalham com sistemas de tokenização. Na prática, informações sensíveis do cartão podem ser substituídas por credenciais digitais específicas utilizadas durante a transação.

No teste realizado por Visa e Banco do Brasil, a operação contou com tokenização, autenticação e monitoramento de risco em tempo real.

A Mastercard também utiliza os chamados Agentic Tokens, desenvolvidos para proteger as credenciais armazenadas e permitir que bancos e outros participantes da operação reconheçam que determinada transação foi iniciada por um agente de IA.

Isso também cria uma diferença importante em relação a uma compra convencional: bancos, bandeiras e comerciantes precisam conseguir identificar quando é uma pessoa e quando é uma inteligência artificial que está iniciando a transação.

Quem autoriza a compra?

O consumidor continua sendo uma peça central do processo.

A ideia é permitir que o usuário determine previamente o que a inteligência artificial está autorizada a fazer.

Essas regras podem envolver produto, preço, estabelecimento, orçamento e outras condições da compra.

A Mastercard, por exemplo, trabalha com uma tecnologia chamada Verifiable Intent, destinada a registrar o que exatamente foi autorizado pelo titular quando um agente realiza uma operação em seu nome.

Essa rastreabilidade será especialmente importante quando surgirem problemas.

Se uma IA receber autorização para comprar determinado produto por até R$ 500 e realizar uma transação de R$ 800, por exemplo, o sistema precisará permitir a identificação do que foi solicitado, do que foi autorizado e do que efetivamente foi comprado.

Visa já realizou teste com Banco do Brasil

O Brasil já participou de uma das experiências da Visa com a tecnologia.

Em março de 2026, Banco do Brasil e Visa anunciaram uma transação realizada por meio do Visa Intelligent Commerce.

Durante o teste, um cartão do Banco do Brasil foi habilitado para que o agente pudesse iniciar o pagamento em nome do cliente. A infraestrutura da Visa ficou responsável por mecanismos como autenticação, tokenização e controles de segurança.

O sistema permite que agentes auxiliem na busca e comparação de produtos e iniciem pagamentos utilizando credenciais protegidas.

Apesar do avanço dos testes, isso não significa que qualquer cliente brasileiro já possa entregar seu cartão a um chatbot e permitir que ele faça compras livremente.

A adoção depende da integração entre agentes de IA, bancos, bandeiras, estabelecimentos comerciais e plataformas de comércio eletrônico.

Mastercard também testa pagamentos agênticos no Brasil

A Mastercard desenvolve uma infraestrutura própria chamada Agent Pay.

Segundo a companhia, transações em tempo real iniciadas por agentes já foram realizadas na América Latina, inclusive no Brasil.

A tecnologia utiliza autenticação biométrica, tokenização, mecanismos antifraude e rastreabilidade para permitir que as instituições envolvidas reconheçam a origem da transação.

A empresa também trabalha em uma aplicação para pagamentos entre empresas. Nesse modelo, agentes poderiam realizar determinadas despesas corporativas automaticamente, respeitando orçamentos e regras estabelecidas previamente.

Elo aposta em IA para pagamentos

A brasileira Elo também está desenvolvendo soluções que aproximam inteligência artificial e pagamentos.

Uma delas foi criada em parceria com a Microsoft e pretende permitir que pequenas e médias empresas utilizem um agente de IA dentro do Excel para auxiliar na gestão de contas a pagar.

A ferramenta consegue analisar informações financeiras, identificar inconsistências e organizar pagamentos. O projeto também utiliza Open Finance e prevê regras de aprovação definidas pela própria empresa.

Nenhum pagamento deve ser executado sem cumprir os níveis de autorização previamente estabelecidos.

A solução ainda está em fase de testes e tem previsão de chegar ao mercado nos próximos meses.

A IA vai comprar sozinha?

Tecnicamente, os sistemas caminham para níveis cada vez maiores de autonomia. Na prática, porém, o avanço dependerá principalmente da confiança dos consumidores.

As próprias empresas do setor reconhecem que uma experiência completamente autônoma, na qual o consumidor simplesmente faz um pedido e só volta a participar quando o produto chega, ainda deve levar algum tempo para se popularizar.

Segurança, responsabilidade em caso de erro e autorização das operações estão entre os principais desafios.

A transformação, porém, já começou.

Depois do comércio eletrônico, dos aplicativos, das carteiras digitais e do Pix, os agentes de inteligência artificial começam a aparecer como um novo intermediário entre consumidores e empresas.

A diferença é que, desta vez, quem estará navegando pela loja, comparando ofertas e iniciando a compra poderá não ser uma pessoa, mas uma inteligência artificial trabalhando em nome dela.

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