A explosão da inteligência artificial está aumentando a demanda por data centers, energia e capacidade computacional em todo o mundo. Agora, algumas empresas acreditam que parte dessa infraestrutura poderá sair da Terra.
A startup americana Starcloud acaba de levantar US$ 250 milhões em uma extensão de sua rodada Série A, passando a ser avaliada em US$ 2,3 bilhões. A operação teve participação de investidores como Nvidia e Cisco Investments e será usada para ampliar a fabricação de equipamentos e avançar no desenvolvimento de data centers orbitais.
A ideia pode parecer distante, mas a empresa já começou a testar a tecnologia no espaço.
Em novembro de 2025, a Starcloud lançou o satélite Starcloud-1 levando uma Nvidia H100, GPU normalmente utilizada em data centers para executar aplicações de inteligência artificial. Segundo a empresa, foi a primeira GPU dessa categoria colocada em órbita.
Inteligência artificial já foi executada no espaço
O experimento foi além de simplesmente transportar o equipamento.
Em dezembro, o Starcloud-1 executou uma versão do Gemini, do Google, e treinou um pequeno modelo de linguagem em órbita. A experiência serviu como demonstração de que cargas computacionais associadas à inteligência artificial podem ser processadas diretamente no espaço.
A Nvidia também anunciou neste ano uma plataforma de computação desenvolvida especificamente para aplicações espaciais, chamada Space-1 Vera Rubin Module. Starcloud está entre as empresas que trabalham com a tecnologia.
A parceria ganhou agora uma dimensão financeira. Além de participar da nova rodada de investimentos, a Nvidia trabalha com a startup no desenvolvimento de equipamentos preparados para operar fora da Terra. Segundo o TechCrunch, a fabricante de chips investiu US$ 25 milhões na rodada.
Por que colocar um data center no espaço?
O interesse está diretamente relacionado a um dos grandes problemas criados pela expansão da inteligência artificial: como conseguir energia e infraestrutura suficientes para sustentar o crescimento da capacidade computacional.
Data centers terrestres precisam de grandes quantidades de eletricidade e de sistemas de refrigeração para impedir o superaquecimento dos equipamentos.
No espaço, empresas como a Starcloud enxergam algumas vantagens potenciais.
A geração de eletricidade poderia utilizar grandes painéis solares, enquanto o calor produzido pelos equipamentos seria dissipado por sistemas de radiadores. A proposta também busca reduzir a necessidade de água utilizada por determinados sistemas de refrigeração na Terra.
Há ainda aplicações especificamente espaciais. Satélites produzem grandes volumes de dados que normalmente precisam ser enviados para estações terrestres antes de serem processados. Com capacidade computacional em órbita, parte dessas informações poderia ser analisada antes de chegar à Terra.
Isso poderia beneficiar atividades como observação terrestre, previsão meteorológica e identificação de incêndios.
Projeto ainda enfrenta obstáculos enormes
Transformar experimentos em grandes data centers espaciais, entretanto, será muito mais difícil.
Um dos principais problemas é o custo de colocar equipamentos em órbita.
A própria Starcloud reconhece que sua estratégia depende da disponibilidade e da redução dos custos dos lançamentos espaciais.
A empresa planeja lançar dois satélites Starcloud-2 em 2027 e trabalha em uma estrutura muito maior, chamada Starcloud-3. Para os projetos de grande escala, a companhia aposta em foguetes de alta capacidade, como o Starship, da SpaceX.
Além do lançamento, existem desafios relacionados à radiação, manutenção dos equipamentos, dissipação de calor e vida útil dos componentes.
Um data center terrestre pode substituir servidores ou GPUs defeituosos com relativa facilidade. Fazer o mesmo em órbita é muito mais complexo.
Starcloud quer criar uma rede gigantesca de computação orbital
Os planos de longo prazo são ambiciosos.
A Starcloud já solicitou autorização regulatória nos Estados Unidos para uma constelação que poderia chegar a 88 mil espaçonaves, segundo o TechCrunch. A companhia pretende criar uma infraestrutura capaz de fornecer capacidade computacional em escala muito superior aos experimentos atuais.
O projeto ainda está distante dessa dimensão, mas o dinheiro dos investidores mostra que a ideia de levar parte da infraestrutura de IA para fora da Terra deixou de ser apenas um conceito futurista.
Em março, a startup havia levantado US$ 170 milhões e alcançado avaliação de US$ 1,1 bilhão. Poucos meses depois, a nova rodada mais que dobrou esse valor.
A corrida pela inteligência artificial, portanto, pode estar abrindo uma nova fronteira. Depois da disputa por chips, energia e terrenos para construir grandes data centers, o próximo endereço da computação pode estar centenas de quilômetros acima da Terra.


