A expansão da inteligência artificial pode colocar o Brasil no centro de uma nova corrida por infraestrutura digital. Representantes da indústria de data centers projetam que o país tenha potencial para receber até R$ 1,5 trilhão em investimentos nos próximos anos, impulsionado pela crescente necessidade de processamento de dados e por novos incentivos fiscais.
A estimativa ocorre após o avanço do Redata, regime criado para estimular a instalação e expansão de centros de dados no Brasil. O texto foi aprovado pelo Senado no início de setembro e prevê benefícios tributários para equipamentos utilizados na implantação dessas estruturas.
Hoje, o Brasil concentra aproximadamente 1% da capacidade mundial de data centers, segundo informações do setor reunidas pelo UOL.
A inteligência artificial pode mudar esse cenário.
Modelos de IA exigem grandes quantidades de servidores, chips especializados, energia elétrica e sistemas de refrigeração. À medida que empresas aumentam o uso dessas tecnologias, cresce também a disputa global pelos locais capazes de abrigar essa infraestrutura.
Por que empresas estão olhando para o Brasil?
Um dos principais ativos brasileiros é a disponibilidade de energia.
Data centers consomem grandes quantidades de eletricidade continuamente. No caso da inteligência artificial, essa necessidade aumenta por causa da enorme capacidade computacional utilizada tanto no treinamento quanto na operação dos modelos.
O Brasil possui uma matriz elétrica com participação relevante de fontes renováveis e também dispõe de áreas capazes de receber grandes empreendimentos.
Outro fator é o próprio tamanho do mercado brasileiro.
Ter capacidade computacional instalada dentro do país pode reduzir a necessidade de processar determinadas informações em estruturas localizadas no exterior, além de diminuir a distância física percorrida pelos dados.
Empresas como Ascenty, Elea, Terranova e Takoda já possuem ou anunciaram projetos relacionados à expansão dessa infraestrutura no país.
O que é o Redata?
O Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center, conhecido como Redata, foi criado para tornar o Brasil mais competitivo na disputa internacional por esses investimentos.
O texto aprovado pelo Senado prevê incentivos sobre equipamentos destinados à instalação e expansão de data centers.
No caso de equipamentos importados, o benefício depende da inexistência de produto nacional equivalente.
A renúncia tributária estimada é de R$ 7,25 bilhões entre 2026 e 2028.
Em contrapartida, as empresas enquadradas no programa deverão cumprir exigências.
Entre elas está a destinação de pelo menos 10% da capacidade instalada para o mercado brasileiro e o investimento equivalente a 2% do valor dos equipamentos incentivados em pesquisa, desenvolvimento e inovação.
Para projetos instalados nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, os percentuais são reduzidos para 8% e 1,6%, respectivamente.
Também existem critérios relacionados ao consumo de água e às fontes de energia utilizadas pelas instalações.
Energia e água entram no debate
A expansão dos data centers também levanta discussões ambientais.
Essas instalações concentram milhares de equipamentos operando continuamente e precisam controlar a temperatura dos servidores. Dependendo da tecnologia utilizada, isso pode exigir grandes volumes de energia e água.
O texto aprovado estabelece parâmetros de eficiência hídrica e determina o uso de fontes consideradas de baixa emissão.
O Senado alterou a redação que originalmente privilegiava fontes limpas ou renováveis, abrindo possibilidade para que outras formas de geração consideradas de baixa emissão sejam enquadradas na regulamentação.
O tema deverá continuar sendo discutido à medida que novos projetos forem anunciados.
IA transformou data centers em infraestrutura estratégica
Data centers existem muito antes da atual onda de inteligência artificial. Eles sustentam serviços de streaming, bancos, redes sociais, comércio eletrônico, sistemas corporativos e armazenamento em nuvem.
A IA, porém, aumentou significativamente a demanda por capacidade computacional.
Gigantes globais de tecnologia estão investindo dezenas de bilhões de dólares em chips, servidores, redes elétricas e centros de processamento.
Isso transformou a disponibilidade de infraestrutura digital em uma questão econômica e estratégica.
Para o Brasil, a oportunidade está em deixar de ser apenas um grande consumidor de serviços digitais e aumentar sua participação na infraestrutura que sustenta esses serviços.
O potencial de R$ 1,5 trilhão ainda é uma projeção da indústria, e não representa investimentos contratados ou garantidos.
O tamanho da oportunidade dependerá da regulamentação dos incentivos, das condições tributárias, da disponibilidade energética e da capacidade brasileira de competir com outros países que também buscam atrair os grandes investimentos da corrida global pela inteligência artificial.


