Cientista dos Estados Unidos “transforma cerveja em “vacina”

Um projeto não convencional de um cientista ilustra muitos dos desafios no desenvolvimento de novas vacinas.

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Se você acha que já viu de tudo quando o assunto é inovação científica, prepare o copo: um virologista dos Estados Unidos resolveu misturar ciência e cerveja, literalmente. Chris Buck, pesquisador do Instituto Nacional do Câncer (NCI), decidiu transformar a tradicional “geladinha” em algo bem mais ousado: uma possível vacina bebível.

Isso mesmo, em vez de agulha no braço, ele aposta em um gole espumante para estimular o sistema imunológico. A ideia parece saída de um filme de ficção científica… mas é real, já foi testada pelo próprio cientista e, claro, está provocando polêmica no mundo acadêmico.

Buck consumiu a bebida e afirma ter produzido anticorpos contra o vírus sem apresentar efeitos adversos. Segundo ele, familiares que também testaram a cerveja não relataram problemas. Os resultados foram divulgados em plataformas abertas de pesquisa, mas ainda não passaram por revisão científica independente.

A iniciativa surgiu a partir do estudo para criação de uma vacina tradicional contra o poliomavírus. Sem autorização do seu órgão empregador e após restrições de comitês de ética dos Institutos Nacionais de Saúde, Buck decidiu realizar os testes de forma independente por meio de uma organização própria, fora do ambiente institucional.


O que é o poliomavírus?

O poliomavírus é um grupo de vírus comuns em humanos, geralmente adquiridos ainda na infância. Na maior parte das pessoas, especialmente aquelas com sistema imunológico saudável, esses vírus permanecem “silenciosos” no organismo e não causam sintomas.

Porém, em indivíduos com imunidade comprometida — como pacientes em tratamento de câncer, pessoas com doenças autoimunes ou que passaram por transplantes de órgãos — eles podem se reativar e provocar problemas sérios de saúde.

Poliomavírus como estes, mostrados em uma micrografia eletrônica de transmissão colorizada, foram associados a alguns tipos de câncer e a danos nos rins e no cérebro em pessoas com sistema imunológico enfraquecido.
Dr. Erskine Palmer/CDC

Existem diferentes tipos de poliomavírus humanos, e dois deles se destacam:

• Poliomavírus BK (BKPyV) – muito associado a complicações em pacientes que receberam transplante de rim. Em situações de baixa imunidade, ele pode se reativar e causar danos ao órgão transplantado, podendo levar à perda da função renal.

• Poliomavírus JC (JCPyV) – pode causar uma doença rara e grave chamada leucoencefalopatia multifocal progressiva (LMP), que afeta o cérebro e pode comprometer funções neurológicas.

Apesar do potencial de gravidade nesses casos específicos, é importante destacar que o poliomavírus não representa risco elevado para a maior parte da população.

O grande desafio para a ciência é justamente proteger pessoas imunossuprimidas, que dependem de tratamentos mais eficazes e seguros para evitar complicações geradas pelo vírus.


Fortalecimento da imunidade

Chris Buck mediu os níveis de anticorpos em seu sangue para três subtipos do poliomavírus BK antes e depois de beber uma cerveja vacinal contra o subtipo IV. Buck já possuía anticorpos para o subtipo I. Esses níveis permaneceram praticamente os mesmos, mas os níveis de anticorpos para os subtipos II e IV aumentaram após uma dose inicial da cerveja vacinal e duas doses de reforço (indicadas pelos canecos de cerveja).

Níveis de anticorpos contra subtipos do poliomavírus BK

O projeto de Buck, no entanto, provoca forte debate. Especialistas afirmam que a experiência é insuficiente para qualquer conclusão, já que não há estudos clínicos amplos, controle de segurança e avaliação rigorosa de possíveis efeitos colaterais. Há também preocupação com o impacto na confiança pública em vacinas, especialmente em um cenário global de desinformação.

Pesquisadores reconhecem que novas formas de administração de vacinas são necessárias e que a tecnologia pode ter potencial, mas reforçam que qualquer produto com finalidade médica precisa seguir protocolos de teste, avaliação regulatória e certificação antes de chegar ao público.

Buck afirma que seu objetivo é ampliar o acesso à prevenção e sustenta que continuará buscando validação científica e caminhos para aprovação oficial. Até o momento, a cerveja vacinal não tem autorização para uso clínico e não há evidências suficientes para comprovar segurança e eficácia.

Fonte: sciencenews.org

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