A música popular brasileira se despede de um de seus nomes mais marcantes. Benito di Paula morreu no domingo, 18 de outubro de 2026, aos 84 anos, em São Paulo, em decorrência de um câncer de próstata, doença que enfrentava havia cerca de um ano. Com uma carreira de mais de cinco décadas, o artista conquistou o público com sua voz característica, o piano como elemento central de suas apresentações e uma maneira particular de interpretar o samba. Sua partida encerra uma trajetória que ajudou a transformar a sonoridade da música brasileira, mas não apaga as canções que continuam presentes na memória afetiva de diferentes gerações.
Nascido Uday Vellozo, em 28 de novembro de 1941, em Nova Friburgo, na Região Serrana do Rio de Janeiro, Benito encontrou na música o caminho para construir uma carreira que ultrapassaria fronteiras e gerações. Ainda jovem, começou a trabalhar como cantor e pianista em hotéis, boates e casas noturnas, experiências que contribuíram para a formação de sua identidade artística. Posteriormente, mudou-se para Santos e, depois, estabeleceu-se em São Paulo, onde consolidou sua trajetória profissional.
O artista que encontrou uma nova maneira de fazer samba
Benito di Paula ganhou projeção nacional principalmente durante as décadas de 1970 e 1980, quando apresentou ao público uma sonoridade que combinava a tradição do samba com elementos românticos, arranjos populares e a presença marcante do piano. Seu estilo, frequentemente associado ao chamado samba-joia, conquistou uma audiência expressiva e ajudou a ampliar as possibilidades comerciais do gênero.
Em uma época na qual o samba já possuía grandes representantes e diferentes vertentes musicais disputavam espaço nas rádios, Benito construiu uma identidade própria. Sua interpretação emotiva, os arranjos instrumentais e a maneira de se apresentar fizeram com que suas músicas encontrassem espaço tanto entre os admiradores do samba quanto entre aqueles que se identificavam com canções românticas.
Apesar da popularidade, seu trabalho também enfrentou críticas de setores da imprensa especializada, que frequentemente classificavam sua música como brega ou excessivamente comercial. O reconhecimento popular, entretanto, permaneceu. Benito demonstrou que a música brasileira comportava diferentes formas de expressão e que o sucesso de uma canção também poderia ser medido pela capacidade de criar vínculos duradouros com o público.
“Retalhos de Cetim” e as canções que atravessaram gerações
Entre os maiores sucessos de sua carreira está “Retalhos de Cetim”, música que se tornou uma de suas principais assinaturas artísticas. Lançada na década de 1970, a canção apresenta a narrativa de um homem que relembra uma desilusão amorosa durante o Carnaval, unindo a tristeza do fim de um relacionamento à atmosfera festiva da celebração popular brasileira.

A força da composição está justamente nesse contraste: enquanto o Carnaval representa alegria, encontro e liberdade, o personagem da música permanece preso às lembranças de um amor perdido. Essa combinação entre sentimentos cotidianos e elementos da cultura brasileira ajudou a transformar a faixa em um clássico de seu repertório.
Outro sucesso inesquecível é “Charlie Brown”, que consolidou a popularidade do cantor e se tornou uma das músicas mais reconhecidas de sua discografia. A canção, ao lado de “Se Não For Amor”, “Mulher Brasileira”, “Vai Ficar na Saudade” e “Tudo Está no Seu Lugar”, contribuiu para formar um repertório que permanece vivo na memória musical do país.
Mais do que sucessos radiofônicos, essas composições passaram a integrar festas, encontros familiares, rodas de música e celebrações populares. A permanência das canções demonstra como Benito conseguiu transformar histórias e sentimentos comuns em músicas capazes de atravessar diferentes períodos da vida de seus ouvintes.
Uma identidade visual e musical inconfundível
A personalidade artística de Benito di Paula não estava presente apenas em suas composições. O cantor também construiu uma imagem reconhecível, marcada pelos cabelos longos, pelo bigode fino, pelas roupas chamativas, pelos anéis e pelas correntes. Ao piano, apresentava uma performance intensa, na qual a interpretação vocal e os movimentos acompanhavam a expressividade de suas músicas.
Essa combinação entre aparência, instrumento e estilo musical ajudou a diferenciá-lo de outros artistas de sua geração. Benito não precisava seguir integralmente os padrões tradicionais do samba para conquistar o público. Sua originalidade estava justamente na capacidade de desenvolver uma linguagem própria, reunindo referências musicais e uma presença de palco que se tornaram parte de sua identidade.
Ao longo da carreira, vendeu milhões de discos e construiu uma relação duradoura com seus admiradores. Mesmo diante das mudanças da indústria fonográfica, da transformação dos hábitos de consumo musical e do surgimento de novas gerações de artistas, seu repertório continuou encontrando espaço na cultura popular brasileira.
A música como herança familiar
A relação de Benito com a música também permaneceu presente em sua vida familiar. Seu filho Rodrigo Vellozo seguiu os caminhos do pai e construiu carreira como cantor e pianista. Os dois chegaram a dividir projetos musicais, mantendo viva a ligação entre diferentes gerações da família.

Em 2021, Benito e Rodrigo lançaram o álbum “O Infalível Zen”, trabalho que demonstrou a continuidade dessa parceria artística. A colaboração também permitiu que o público conhecesse uma nova dimensão do cantor, para além dos grandes sucessos que marcaram seu auge comercial.
A transmissão desse conhecimento musical entre pai e filho representa uma parte importante de seu legado. A música, nesse contexto, não se limitou à carreira profissional, mas também se tornou um elo familiar e uma forma de preservar sua identidade artística.
A homenagem no Carnaval de São Paulo
Em 2025, Benito di Paula recebeu uma homenagem especial da escola de samba Águia de Ouro, que levou para o Sambódromo do Anhembi o enredo “Em Retalhos de Cetim, a Águia de Ouro do Jeito que a Vida Quer”. A apresentação celebrou sua história, suas composições e a contribuição do artista para a música brasileira.
A participação do cantor no desfile, ao lado de familiares, foi um dos momentos emocionantes daquela homenagem. A escola transformou sua obra em narrativa carnavalesca, levando para a avenida referências a músicas que acompanharam a vida de milhares de brasileiros.
A homenagem também evidenciou a dimensão cultural de seu repertório. Ao transformar suas canções em tema de Carnaval, a Águia de Ouro reconheceu que sua importância ultrapassava os limites dos discos e dos palcos, alcançando uma das manifestações mais representativas da cultura popular brasileira.
O último adeus e a permanência de um legado
O falecimento de Benito di Paula provocou manifestações de carinho de artistas, amigos e admiradores, que destacaram sua contribuição para a música brasileira. Nesta terça-feira, 20 de outubro, familiares, músicos e fãs se reuniram no Theatro Municipal de São Paulo para prestar as últimas homenagens ao cantor. O sepultamento foi reservado à família.
A despedida representa o encerramento de uma trajetória marcada pela originalidade, pelo sucesso popular e pela capacidade de criar músicas que permaneceram relevantes mesmo com as transformações da indústria musical. Benito fez parte de uma geração de artistas que ajudaram a construir diferentes caminhos para a música brasileira, sem deixar de lado a conexão direta com o público.
Sua história também convida a uma reflexão sobre o reconhecimento cultural. Durante décadas, o artista conviveu com críticas ao seu estilo, mas sua obra resistiu às classificações e permaneceu presente na vida dos brasileiros. O carinho demonstrado pelo público e as homenagens recebidas ao longo dos anos revelam a força de uma carreira que não pode ser resumida a rótulos.
Benito di Paula deixa uma contribuição que pode ser revisitada a cada reprodução de suas canções. Em “Retalhos de Cetim”, “Charlie Brown” e tantas outras músicas, permanecem as marcas de um artista que encontrou no samba, no romantismo e no piano uma maneira singular de contar histórias.
A morte encerra sua presença física, mas não interrompe o diálogo entre sua obra e o público. Afinal, artistas que transformam sentimentos cotidianos em canções capazes de atravessar gerações continuam presentes muito depois da última apresentação. Benito di Paula parte, mas sua música permanece como parte da história e da memória afetiva da cultura brasileira.

