Anthony Vaccarello na Saint Laurent: a década que redefiniu a estética da maison

Da sensualidade das passarelas à aproximação com o cinema, estilista construiu uma identidade própria para a maison sem abandonar a herança de Yves Saint Laurent.

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Nos últimos dez anos, Anthony Vaccarello ajudou a redefinir o que significa vestir Saint Laurent. À frente da direção criativa da maison francesa desde 2016, o estilista belga construiu uma identidade marcada por silhuetas sensuais, alfaiataria estruturada, transparências e uma elegância que transita entre o clássico e o provocador. Agora, com o anúncio de sua saída, nesta sexta-feira (9), chega ao fim um dos capítulos mais importantes da história recente da grife.

Mas entender a passagem de Vaccarello pela Saint Laurent exige olhar para além das roupas que desfilaram pelas passarelas. Ao longo da última década, o designer desenvolveu uma linguagem visual que se foi além dos cenários monumentais, às campanhas e até ao cinema. Seu trabalho partiu dos códigos de uma maison histórica para construir uma imagem que se tornou reconhecível no mercado de luxo contemporâneo.

A construção de uma nova identidade

O estilista belga assumiu o comando criativo da maison francesa em abril de 2016 substituindo Hedi Slimane, responsável por trazer uma estética jovem e roqueira para a marca, consolidando uma imagem bastante particular para a grife. 

Em sua coleção de estreia, apresentada em Paris em setembro de 2016, Vaccarello já indicava o caminho que pretendia seguir. O preto aparecia em destaque, acompanhado por couro, transparências, ombros marcados e peças curtas. Ao mesmo tempo, referências ao próprio Yves Saint Laurent, como o smoking e o monograma YSL, ajudavam a estabelecer uma conexão com a história da maison.

A coleção carregava elementos que já faziam parte do histórico da marca, mas o estilista começou a reorganizá-los de acordo com seu olhar. A sensualidade, que se tornaria uma de suas principais assinaturas, passou a dividir espaço com uma alfaiataria precisa e silhuetas contrastavam entre força e delicadeza. 

Sensualidade como assinatura

Ao longo das temporadas, alguns elementos passaram a aparecer com frequência nas coleções de Vaccarello. Vestidos transparentes, rendas, couro, saias ajustadas, decotes e ombros estruturados se tornaram parte do visual que ajudou a identificar a Saint Laurent de sua gestão.

O preto foi um dos protagonistas nessa história, junto com tons terrosos, dourados e outras cores que surgiam pontualmente nas coleções. A combinação entre peças reveladoras e cortes rigorosos também ajudou a criar uma imagem que não dependia apenas da exposição do corpo, mas da maneira como as roupas marcavam presença e atitude.

Essa estética já fazia parte da própria história da maison. Yves Saint Laurent ficou conhecido por desafiar convenções do vestuário feminino, aproximando referências tradicionalmente masculinas do guarda-roupa das mulheres. O smoking feminino, apresentado em 1966, tornou-se um dos exemplos mais conhecidos dessa transformação.

Vaccarello retomou esse legado sem simplesmente reproduzir peças históricas. Em suas coleções, a alfaiataria ganhou um olhar contemporâneo, enquanto vestidos e saias exploravam diferentes formas de sensualidade. A intenção estava menos ligada à criação de uma nova tendência a cada temporada e mais à consolidação de um universo próprio.

O resultado foi uma identidade visual consistente, capaz de conectar coleções diferentes sem fazer com que a marca perdesse o reconhecimento de seus principais códigos.

A Torre Eiffel como parte da identidade

A construção dessa imagem também aconteceu fora dos armários. Sob Vaccarello, os desfiles da Saint Laurent passaram a explorar cenários monumentais, com destaque para as apresentações realizadas na região do Trocadéro, diante da Torre Eiffel, em Paris.

A paisagem parisiense passou a compor a experiência visual das coleções. A iluminação, a arquitetura e a escolha dos espaços ajudavam a criar imagens que faziam parte da nova estrutura visual da marca. 

Essa dimensão era importante porque a identidade de uma marca de luxo não se constrói apenas pelo produto. A maneira como as peças são apresentadas, fotografadas e associadas a determinados lugares também influencia a percepção do público.

No caso da Saint Laurent, a combinação entre a arquitetura de Paris, a grandiosidade dos cenários e a estética das roupas reforçou a ligação da maison com uma ideia de elegância parisiense. Ao mesmo tempo, os desfiles ajudaram a estabelecer uma assinatura visual que podia ser reconhecida mesmo por quem não acompanhava todas as coleções.

Uma maison fora das passarelas

A expansão desse universo ganhou outra dimensão em 2023, com a criação da Saint Laurent Productions, iniciativa voltada à produção cinematográfica. Sob a direção de Vaccarello, a maison passou a se aproximar de cineastas e projetos que ampliaram sua presença no campo cultural.

Entre os trabalhos associados à produtora estão Emilia Pérez, de Jacques Audiard, A Mulher no Jardim?

A relação entre moda e cinema também recuperava uma conexão histórica: Yves Saint Laurent já havia desenvolvido figurinos e mantido relações com o universo cinematográfico, incluindo seu trabalho para o filme A Bela da Tarde (1967), de Luis Buñuel, estrelado por Catherine Deneuve.

A proposta de Vaccarello, portanto, não se limitou a inserir o nome da grife em outras áreas. A iniciativa ajudou a ampliar o universo criativo da maison e a aproximá-la de diferentes formas de expressão artística.

Anthony deixou claro que queria a Saint Laurent presente também fora das passarelas para comunicar sua identidade. Ela também poderia aparecer nas histórias contadas pelo cinema, nas imagens produzidas em torno da marca e nas referências culturais que atravessavam suas coleções.

Último desfile e o encerramento de uma década

Em 29 de setembro de 2026, Vaccarello apresentou a coleção primavera/verão 2027 da Saint Laurent durante a Semana de Moda de Paris. Seu último desfile foi sob três grandes lustres e diante da Torre Eiffel, a apresentação foi dominada pelo dourado e em clima de celebração, ao fim do desfile o estilista entrou na passarela emocionado e entregou uma chave dourada ao filho, o momento já antecipava a notícia que viria nos próximos dias. 

Dois dias depois de completar dez anos de sua estreia na grife, Vaccarello teve sua saída anunciada oficialmente pela Kering, grupo responsável pela maison.

Sua saída abre espaço para uma nova interpretação da maison, mas deixa uma pergunta importante para o futuro: como preservar uma identidade tão reconhecível sem transformá-la em uma fórmula?

Depois de uma década, Vaccarello deixa uma Saint Laurent cuja imagem foi construída pela repetição consciente de determinados códigos e pela expansão de seu universo para além das roupas. Mais do que mudar a maneira como a marca se vestia, o estilista ajudou a definir como ela queria ser vista.

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