Com as fronteiras abertas para atrair mão de obra estrangeira, a Itália vive um movimento demográfico incoerente.
De um lado, registra recorde na entrada de imigrantes; de outro, amarga o êxodo crescente de jovens qualificados.
Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (Istat), 760 mil estrangeiros se estabeleceram como residentes em 2023 e 2024 — um aumento de 31% em relação ao biênio anterior.
Vindos de países como Bangladesh, Tunísia, Egito e Ucrânia, muitos são empregados em setores com carência de mão de obra, como agricultura, hotelaria, construção e serviços domésticos.
No mesmo período, 270 mil italianos emigraram, o maior número desde 2014. De forma alarmante, entre 2019 e 2023, cerca de 192 mil pessoas de 25 a 34 anos deixaram o país, das quais apenas 73 mil retornaram.
Em 2024, 156 mil italianos saíram do país, 36,5% mais do que em 2023, totalizando quase 191 mil emigrantes.
Grande parte desse contingente é composta por universitários ou jovens qualificados: mais da metade dos imigrantes italianos dessa faixa etária em 2023 possuía diploma superior.
Entre os destinos preferenciais estão Alemanha, Reino Unido, Suíça, Espanha e França.
Limitação do modelo migratório
O governo de Giorgia Meloni lançou um plano ambicioso para mitigar o envelhecimento populacional, cerca de 25% da população tem mais de 65 anos, com a liberação de quase 1 milhão de vistos de trabalho até 2028.
Entretanto, esse “reforço” migratório não tem compensado o déficit de jovens formados.
Conforme projeções da ONU e do próprio Istat, a Itália pode perder cerca de 5 milhões de pessoas em idade economicamente ativa até 2040.
A redução do mercado de trabalho impacta o crescimento do PIB, que, segundo o Banco da Itália, pode ser reduzido em até 11% se essa tendência persistir.
Além disso, a taxa de fecundidade está muito abaixo do nível de reposição, situando-se em cerca de 1,2 a 1,4 filhos por mulher — o valor mais baixo desde a unificação do país.
O dilema italiano
Dos imigrantes, muitos chegam para suprir vagas que os jovens formados italianos não ocupam. Já os estudantes partem em busca de melhores salários, estabilidade e oportunidades de carreira.
Por isso, ainda que a imigração reduza timidamente os efeitos do envelhecimento populacional, ela não resolve a perda de capital humano.
E os sinais alarmantes aparecem por toda parte: queda histórica no número de nascimentos, excesso de mortes, drástica diminuição da população em idade ativa e déficit crescente no mercado laboral.
Perspectivas e desafios
A Itália enfrenta um “inverno demográfico” — termo usado por especialistas para descrever o declínio populacional estrutural.
Políticas migratórias, incentivos à natalidade e estímulos ao retorno de expatriados já estão na agenda nacional.
Entretanto, como reforça o governador do Banco da Itália, Fabio Panetta:
“A imigração legal pode contribuir significativamente… mas é preciso criar oportunidades de trabalho atrativas para os muitos italianos que deixam o país em busca de melhores perspectivas.”
Afinal, a pergunta que se impõe é: será que o influxo de imigrantes consegue, sozinho, reverter a perda de juventude e conhecimento?
Ou será necessário adotar um modelo integrado que combine atração, retenção, e retorno de talentos para garantir o futuro do país?
Fontes:
Instituto Nacional de Estatística da Itália (Istat), Financial Times, The Times, Folha de S. Paulo, La Via Italia, First Online, The Guardian, ONU.


