Agentes de IA encontram no turismo um dos primeiros grandes mercados

Metade do volume de transações do Instinct já está relacionada a viagens, enquanto pesquisas mostram avanço da inteligência artificial no planejamento e nas reservas

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Pesquisar destinos, comparar passagens, escolher hotéis, montar roteiros e fazer reservas pode estar entre as primeiras atividades do cotidiano a sofrer uma transformação significativa com os chamados agentes de inteligência artificial.

O Instinct, assistente de IA que ganhou projeção no Vale do Silício, já movimenta o equivalente a cerca de US$ 1 bilhão por ano em transações, segundo seu fundador, Noah Shinn. O dado que mais chama atenção, porém, está na origem desse volume: aproximadamente 50% está relacionado a viagens.

A informação foi revelada por Shinn em um podcast e publicada pelo Skift. O executivo não detalhou publicamente a metodologia utilizada para calcular o volume total movimentado pela plataforma.

Ainda assim, o avanço das viagens dentro de um dos agentes de IA que mais crescem atualmente reforça uma tendência que já aparece em pesquisas sobre comportamento dos consumidores: viajar pode se tornar um dos principais testes para a próxima geração de agentes autônomos.

Por que viagens combinam tanto com agentes de IA?

Planejar uma viagem exige uma sequência de tarefas que normalmente estão espalhadas por diferentes sites e aplicativos.

O viajante precisa pesquisar destinos, comparar voos, verificar hotéis, consultar avaliações, analisar localização, organizar deslocamentos e, finalmente, realizar reservas.

É justamente esse tipo de processo com várias etapas que os agentes de IA tentam automatizar.

Em vez de pedir ao ChatGPT ou Gemini apenas uma sugestão de roteiro, a próxima geração desses sistemas pretende avançar para a execução.

Um usuário poderia dizer:

“Quero viajar para Buenos Aires por quatro dias, saindo do Rio, gastando até determinado valor e ficando perto dos principais pontos turísticos.”

O agente poderia pesquisar voos, comparar hotéis e organizar opções de acordo com essas condições.

Com autorização suficiente, poderia também realizar as reservas.

(Crédito: Pexels)

Mais da metade dos viajantes americanos já usa IA

O crescimento não está restrito a startups como a Instinct.

Pesquisa da Phocuswright mostra que 56% dos viajantes americanos a lazer utilizaram alguma ferramenta de inteligência artificial para planejar, reservar ou acompanhar pelo menos uma viagem nos últimos 12 meses.

No fim de 2025, eram 43%. Em 2024, o percentual era menos da metade do registrado atualmente.

O uso também começa a avançar para etapas mais próximas da compra.

Segundo a Phocuswright, 44% dos viajantes pesquisados afirmam que realizariam uma reserva diretamente dentro de uma plataforma de IA, enquanto 40% aceitariam deixar um assistente cuidar das reservas de voos e hotéis.

A tendência mostra uma diferença importante entre a primeira fase da IA generativa e o que começa a acontecer agora.

Antes, a tecnologia ajudava principalmente a planejar a viagem.

Agora, começa a disputar também a reserva da viagem.

O viajante ainda não entrega totalmente o controle

O crescimento da utilização não significa confiança irrestrita.

Uma pesquisa global da Booking.com, realizada com mais de 37 mil consumidores em 33 mercados, mostrou uma diferença significativa entre interesse e autonomia.

Enquanto 89% dos entrevistados disseram querer utilizar inteligência artificial em futuros planejamentos de viagem, apenas 6% afirmaram confiar plenamente na tecnologia.

Somente 12% se mostraram confortáveis em permitir que uma IA tomasse decisões de maneira independente.

Os dados são anteriores ao crescimento recente dos agentes autônomos, mas ajudam a mostrar o principal obstáculo para essa transformação.

O consumidor pode aceitar que uma IA encontre um hotel.

Permitir que ela escolha e pague pelo hotel exige outro nível de confiança.

IA já começa a fazer reservas

O mercado começa a testar justamente essa passagem da recomendação para a transação.

Nesta semana, a Reservations Group, antiga HotelPlanner, lançou oficialmente um aplicativo baseado em inteligência artificial no qual viajantes podem pesquisar, comparar e reservar hotéis, voos e transportes dentro de uma única conversa.

A Instinct segue uma lógica semelhante.

O agente funciona por mensagens e pode receber solicitações relacionadas a viagens, compras, ingressos e assinaturas. A empresa também desenvolve recursos para realizar ligações telefônicas em nome dos usuários.

Isso significa que a inteligência artificial começa a ocupar uma posição que anteriormente pertencia ao próprio viajante ou a um agente de viagens: coordenar diferentes fornecedores para montar uma experiência completa.

O que muda para Booking, Expedia, hotéis e companhias aéreas?

A transformação pode alterar a maneira como empresas disputam clientes no turismo.

Hoje, um hotel procura aparecer no Google, em plataformas como Booking e Expedia, nas redes sociais e em outros canais utilizados pelo viajante.

Com agentes autônomos, surge um novo intermediário.

Em determinados casos, quem analisará dezenas de hotéis poderá não ser mais o consumidor, mas a inteligência artificial que trabalha para ele.

Isso cria uma nova pergunta para o setor:

como fazer um hotel, voo ou destino ser escolhido por uma IA?

Preço e disponibilidade continuam importantes, mas informações estruturadas, políticas de cancelamento, localização, avaliações, benefícios e condições de reserva precisam estar facilmente acessíveis e compreensíveis para os sistemas.

A disputa pela atenção do turista pode, portanto, começar a incluir também uma disputa pela recomendação dos agentes.

Agências de viagens também podem mudar de função

A expansão da IA não significa necessariamente o desaparecimento do agente humano.

A diferença entre uso e confiança encontrada nas pesquisas sugere outro cenário.

A inteligência artificial pode assumir tarefas operacionais — pesquisa, comparação, organização de alternativas e monitoramento de preços — enquanto profissionais continuam importantes em viagens complexas, atendimento durante imprevistos e decisões nas quais confiança e experiência pesam mais.

Para as agências, isso pode significar utilizar IA não apenas como concorrente, mas como ferramenta de produtividade.

O profissional deixa de gastar parte do tempo procurando informações dispersas e pode concentrar o trabalho em orientação, negociação e atendimento.

Turismo pode ser o grande teste dos agentes de IA

A indústria de viagens já passou por diferentes transformações digitais.

Primeiro vieram as reservas pela internet. Depois, as agências online, os comparadores de preços, os aplicativos e as plataformas móveis.

A inteligência artificial pode representar a próxima mudança.

A diferença é que os agentes não pretendem apenas criar outro lugar para pesquisar uma viagem.

A promessa é pesquisar, comparar, decidir e executar parte do processo pelo viajante.

O fato de viagens já representarem metade do volume transacionado pelo Instinct oferece um primeiro sinal de onde essa tecnologia pode encontrar uma aplicação comercial de grande escala.

O desafio será conquistar algo mais difícil do que capacidade tecnológica: a confiança necessária para que o viajante entregue à inteligência artificial não apenas seu roteiro, mas também seu dinheiro e suas reservas.

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