Mesmo ainda cercado por tabus, o mercado erótico brasileiro vive um momento de crescimento acelerado. O setor já movimenta mais de R$ 2 bilhões por ano no país e vem conquistando cada vez mais espaço, impulsionado pelo e-commerce, pelas conversas mais abertas sobre sexualidade e pela busca por bem-estar e autoestima.
O que antes era tratado de forma discreta hoje começa a ganhar novas abordagens, mais leves, informativas e conectadas ao autocuidado.
E é justamente nesse movimento que histórias diferentes começam a chamar atenção. Entre elas, a de mãe e filha que decidiram empreender juntas no mercado erótico.
Unindo parceria, confiança e bom humor, as duas encontraram no segmento uma oportunidade de negócio e também uma forma de ajudar a quebrar preconceitos sobre sexualidade, mostrando que o tema pode ser tratado com naturalidade.
Em entrevista ao N4 News, a empresária e porta-voz da Désir Atelier, Bárbara Bastos, contou como surgiu a ideia de empreender ao lado da mãe no mercado erótico e explicou como a marca encontrou espaço ao unir sexualidade, autoestima e acolhimento feminino em uma proposta diferente da visão tradicional dos sex shops.

N4: Como surgiu a ideia de transformar um tema ainda tabu, como a sexualidade feminina, em um negócio — e como foi empreender juntas como mãe e filha?
Bárbara: A ideia surgiu de forma muito natural. Em 2018, antes mesmo do boom que o tema ganhou durante a pandemia, a gente ainda não tinha uma grande estratégia ou estudos de mercado que apontassem esse caminho. Era muito mais sobre sentir o negócio e entender para onde poderíamos evoluir.
Eu e minha mãe já trabalhávamos com lingerie — inclusive produzíamos nossas próprias peças — e, em um momento em que buscávamos fortalecer a empresa, começamos a olhar para novas possibilidades dentro desse universo. Foi aí que surgiu a ideia de trazer o sex shop para dentro da loja. Era um território que fazia sentido para a gente, tanto pelo produto quanto pela afinidade, principalmente da minha mãe, que sempre foi apaixonada por esse segmento.
Empreender juntas, sendo mãe e filha, costuma gerar curiosidade, ainda mais nesse nicho. Mas, sinceramente, sempre foi mais leve do que as pessoas imaginam. A gente nunca teve uma relação baseada em tabu dentro de casa. Não era um tema escancarado, mas também nunca foi cercado por medo ou vergonha.
Desde o início, encaramos tudo com um olhar muito profissional, entendendo que estávamos construindo um negócio com propósito. E esse propósito sempre foi muito claro: ajudar mulheres a se sentirem mais livres, seguras e confiantes em relação à própria sexualidade — seja individualmente ou em seus relacionamentos.
Nunca foi sobre simplesmente vender um produto, mas sobre transformar a forma como esse mercado é percebido. Existia — e ainda existe — um estigma muito forte em torno dos sex shops, como se fosse algo escondido ou errado. E a gente quis justamente romper com isso, criando uma marca com estética, linguagem e experiência próximas às de uma marca de moda, algo mais acolhedor, natural e elegante.
Claro que trabalhar em família traz desafios, como em qualquer sociedade. Ao longo desses quase dez anos juntas, a gente aprendeu muito, amadureceu processos e hoje tem uma dinâmica bastante alinhada. Mas, acima de tudo, existe uma parceria muito sólida, que foi fundamental para construir o que a Désir é hoje.

N4: Quais foram os principais fatores e estratégias que explicam o crescimento de 1.000% da Désir Atelier no digital?
Bárbara: Eu vejo o crescimento da Désir como uma combinação de fatores internos e externos. Do lado externo, tivemos um acontecimento completamente fora do controle, que foi a pandemia em 2020, e que acabou impulsionando positivamente o mercado de produtos eróticos.
Mas o mais importante é que a Désir já vinha se preparando antes disso. A gente começou com os produtos eróticos em 2018, e a marca existe desde 2015, quando ainda era focada em lingerie artesanal. Ou seja, quando esse movimento de mercado aconteceu, nós já tínhamos uma base construída e conseguimos aproveitar essa oportunidade de forma consistente.
Internamente, o que fez a diferença foi a construção de uma estrutura sólida, com valores muito claros e alinhados ao que as mulheres estavam buscando. Existia — e ainda existe — uma demanda real por informação, acolhimento e autoconhecimento. Muitas mulheres queriam entender melhor o próprio corpo, se sentir mais seguras e confortáveis, mas não encontravam espaços onde pudessem falar sobre isso sem julgamento.
Historicamente, esse mercado sempre foi cercado por estigmas, com uma percepção negativa, de vergonha ou até de algo “errado”. E a Désir nasceu justamente para romper com esse padrão, trazendo um olhar mais leve, informativo e acolhedor sobre a sexualidade.
Na prática, isso se traduz em um propósito muito claro: ajudar mulheres a se sentirem mais confiantes, seguras e tranquilas em relação à própria sexualidade. E esse propósito guia todas as nossas decisões.
Desde o atendimento, que é próximo, humano e realmente interessado em entender a necessidade de cada cliente, até a escolha dos produtos, logística e operação. A gente sempre se preocupou em oferecer uma experiência completa — desde orientar corretamente, até garantir agilidade na entrega e organização nos processos.
Tudo isso contribuiu para que, mesmo sendo uma empresa de pequeno a médio porte, a Désir se consolidasse com uma base forte, coerente e preparada para crescer de forma sustentável.
N4: De que forma o posicionamento da marca, focado em acolhimento e liberdade feminina, impacta a relação com o público e os resultados do negócio?
Barbara: Esse trabalho gera muita identificação e conexão com o público — e isso impacta diretamente os resultados, porque é uma construção contínua. Hoje, a gente já vive um cenário mais aberto do que em 2018 quando o assunto é sexualidade, mas, na prática, o tabu ainda existe e provavelmente sempre vai existir em algum nível.
Como terapeuta sexual e sexóloga, eu percebo que, mesmo com avanços, muitas pessoas ainda não se sentem totalmente confortáveis para falar sobre o tema sem medo de julgamento. Por isso, a existência de espaços seguros continua sendo essencial — lugares onde mulheres e casais possam conversar, tirar dúvidas e se informar com tranquilidade.
A gente ainda vê lacunas muito básicas de conhecimento. Muitas mulheres, por exemplo, não conhecem a própria anatomia com profundidade, não entendem a importância do clitóris ou nunca tiveram acesso a esse tipo de informação de forma clara e acessível.
Então, quando a Désir se propõe a falar sobre sexualidade com naturalidade e sem julgamentos, isso abre portas. As pessoas passam a se sentir mais à vontade para ouvir, aprender, compartilhar experiências e, principalmente, se reconhecer nessas conversas.
Com o tempo, isso vai construindo uma comunidade forte e, mais do que isso, uma relação de confiança. A Désir deixa de ser apenas uma loja e passa a ser um espaço que também entrega informação, acolhimento e valor — algo que hoje faz toda a diferença para o público.
Em um mercado que ainda enfrenta preconceitos, histórias como a da Désir Atelier mostram como o empreendedorismo feminino também tem ajudado a transformar a forma como a sexualidade é debatida no Brasil.
Mais do que vender produtos, mãe e filha apostam na informação, no acolhimento e na construção de um espaço onde mulheres possam falar sobre autoestima, prazer e autoconhecimento com mais naturalidade e sem julgamentos.


