Da Vila Kennedy ao Rock in Rio: Conheça o trio Soul de Brasileiro

Em conversa exclusiva, Gê Vieira, Negra e Júnior relembram a origem do trio, as influências musicais, os desafios de conciliar a carreira artística com outros trabalhos e os caminhos que levaram o grupo ao Rock in Rio; álbum SOU chega às plataformas em 29 de julho.

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A Soul de Brasileiro nasceu na Vila Kennedy, na Zona Oeste do Rio, a partir de uma amizade construída nos primeiros encontros na igreja e na música. Hoje, Gê Vieira, Negra e Júnior se preparam para levar essa trajetória ao Rock in Rio 2026, depois de um caminho iniciado em apresentações na própria comunidade e que agora chega a um dos maiores festivais do mundo.

Em entrevista exclusiva ao N4 News, o trio relembrou a formação do grupo, as influências que moldaram sua identidade musical e os desafios de construir uma carreira artística enquanto conciliava a música com outras profissões. A conversa também revelou os bastidores do álbum SOU, que chega às plataformas em 29 de julho, e da preparação para a estreia da Soul de Brasileiro no Espaço Favela do Rock in Rio.

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A origem da Soul de Brasileiro

Antes de dividirem palcos e estúdios, os três integrantes já compartilhavam uma história. O primeiro encontro aconteceu na igreja, por meio do coral. A partir dali, a relação com a arte se expandiu para o teatro e, posteriormente, para o desejo de transformar a música em profissão.

“A Soul de Brasileiro começou a existir muito antes de ter esse nome. Ela nasceu quando nós três nos encontramos na igreja, cantando no coral. Foi ali que tivemos o primeiro contato com a música, com a arte e com essa vontade de nos expressar através dela. Começar na igreja é algo muito comum nas comunidades, muitos artistas têm essa origem. E foi naquele espaço que a nossa conexão foi crescendo, que fomos nos apaixonando cada vez mais pela música e construindo, sem perceber, o caminho que nos trouxe até aqui”, comentou José Junior.

Mais do que reunir estilos diferentes, a identidade musical da Soul de Brasileiro foi moldada pelas vivências dos três integrantes. A convivência com rodas de samba, bailes de comunidade, a MPB presente dentro de casa e até a música internacional ajudaram a formar uma sonoridade que hoje mistura tradição e contemporaneidade.

Embora sejam a primeira geração de músicos profissionais de suas famílias, todos tiveram contato com a música desde cedo.

“Embora sejamos a primeira geração das nossas famílias a fazer da música uma profissão, todas elas tinham algo em comum: eram muito musicais, cada uma à sua maneira. Eu e a Negra nos aproximamos nesse aspecto porque crescemos em famílias que viviam o samba no quintal, frequentavam pagodes e bailes de quadra. Já o Júnior teve uma influência muito forte da mãe, que é apaixonada por MPB. Foi dentro de casa que ele conheceu e absorveu os grandes clássicos da música popular brasileira”, explicou Ge Vieira.

“Eu me lembro que, na Vila Kennedy, tinha muito aquele lance da quadra. Toda sexta-feira à noite, a minha mãe e a mãe dele iam para a quadra, que era o grande acontecimento do bairro. A gente cresceu ouvindo de tudo um pouco: Dhema, Bebeto, Jorge Ben e Originais do Samba. Essas referências fizeram parte da nossa formação musical desde muito cedo”, comentou Negra Silva.

Para o trio, a Vila Kennedy não representa apenas o local onde cresceram. O bairro aparece como uma das principais fontes de inspiração artística, influenciando letras, melodias e a maneira como a banda constrói sua identidade musical.

Conciliação entre trabalhos

Antes de viverem um dos momentos mais importantes da carreira, os três precisam equilibrar o sonho da música com a rotina de trabalho. Enquanto os shows acontecem nos fins de semana e os ensaios ocupavam o tempo livre, a vida profissional seguia normalmente, exigindo organização e persistência.

A construção da carreira artística aconteceu paralelamente a outras profissões. Gê Vieira trabalha como cabeleireiro e concilia a rotina do salão com os compromissos da banda.

“Eu sou cabeleireiro e trabalho diariamente com cabelo. Muitas vezes, saio do salão direto para o show. Vivo toda aquela experiência maravilhosa de estar no palco, mas, no dia seguinte, preciso voltar para a rotina do salão. A Soul de Brasileiro me proporcionou muitas transformações. Ela despertou ainda mais o meu lado artístico e me ajudou a ressignificar os meus dias”, contou Ge Vieira.

Para ele, a identidade artística permanece independentemente da profissão exercida.

“Acho que sou artista antes mesmo de ser cabeleireiro. Se eu trabalhasse como frentista, seria o cantor da Soul de Brasileiro que também é frentista. Se fosse médico, seria o “doutor” que canta na Soul de Brasileiro. Não tem como escapar disso. A arte faz parte de quem eu sou”, afirmou Ge Vieira.

Negra também mantém uma atividade profissional fora da música. Escrevente em um cartório, ela destaca tanto a força da mãe quanto o apoio recebido no ambiente de trabalho.

“Eu venho da Vila Kennedy e fui criada por uma mãe solo, uma mulher preta, cheia de força. Hoje ela já está em outro plano, mas, se estou aqui, é graças a ela, à coragem e à determinação que sempre me transmitiu. Eu nunca vi minha mãe desistir de nada, e levo esse exemplo comigo todos os dias.

Antes da Soul de Brasileiro, e ainda hoje, trabalho como escrevente em um cartório. Tenho a sorte de contar com o apoio das minhas chefias, que sempre me liberam para os shows e incentivam a minha trajetória artística. Eu costumo dizer que ainda estou anestesiada com essa história do Rock in Rio, parece que ainda não caiu a ficha. E, lá no trabalho, eles vibram comigo e sempre me apoiaram”, destacou Negra Silva.

Júnior, por sua vez, destacou a influência dos pais em sua formação.

“Antes de qualquer coisa, eu sou filho de duas pessoas que me ensinaram o valor do trabalho. Meus pais sempre me mostraram que tudo o que a gente deseja conquistar exige dedicação, disciplina e perseverança. Esse ensinamento me acompanha em tudo o que faço e é um valor que carrego comigo todos os dias, tanto na minha vida quanto na minha trajetória com a Soul de Brasileiro”, explicou José Junior.

A chegada à Toca do Bandido

A entrada na Toca do Bandido representa um divisor de águas na trajetória da Soul de Brasileiro. Além da possibilidade de gravar o primeiro álbum, o contato com profissionais da indústria musical ampliou a visão do grupo sobre planejamento de carreira, produção e mercado fonográfico.

A parceria com a Toca do Bandido surgiu após a participação da Soul de Brasileiro no programa de aceleração de carreira LabSônica, realizado em parceria com a Oi Futuro.

“A nossa chegada ao selo Toca Discos aconteceu por meio do LabSônica, um programa de aceleração de carreira realizado em parceria com o Oi Futuro. Foi uma verdadeira imersão na indústria da música, com aulas sobre gestão de carreira, mercado musical, direitos autorais e diversos outros temas fundamentais para a formação de artistas independentes. Essa experiência foi decisiva para o nosso desenvolvimento e marcou o início da nossa parceria com a Toca Discos”, explicou José Junior.

Foi durante esse processo que surgiu a oportunidade de gravar o primeiro álbum autoral.

““Ainda veio a proposta de a gente fazer uma coisa que sonhava havia muito tempo: gravar o nosso próprio álbum. Era algo que a gente buscava e pelo qual vinha lutando fazia anos. Quando essa oportunidade apareceu, pensamos: ‘Cara, agora a gente vai poder fazer isso de verdade’. Foi um presente”, contou José Junior.

SOU: Um álbum sobre ser

O resultado desse trabalho chega às plataformas digitais no dia 29 de julho.

Foto: Divulgação Toca&Becker/ Alex Victor

Com 11 faixas, SOU nasceu para apresentar a essência da Soul de Brasileiro. O título faz referência ao verbo “ser” e sintetiza a proposta do álbum: falar sobre identidade, autoconhecimento, encontros, transformações e as diferentes emoções que fazem parte da experiência humana.

“Ele se chama SOU, S-O-U, ‘sou’, do verbo ser. E, a partir daí, o álbum abre um leque para falar das mais diversas emoções humanas, dessa jornada de busca pelo autoconhecimento, de transformar o que é ruim em aprendizado e valorizar o que é bom, de protestar por aquilo que a gente ainda quer ver mudar e celebrar os encontros, as uniões e até as desuniões”, explicou Ge Vieira.

Embora o disco seja lançado apenas agora, boa parte das músicas acompanha a trajetória do trio há anos.

Segundo os integrantes, o maior desafio não foi compor, mas escolher quais canções fariam parte do projeto.

“A gente tinha muitas composições. Em determinado momento, precisou parar e pensar: ‘Essa entra, essa fica de fora’. Foi uma escolha difícil, porque, tranquilamente, dava para fazer dois ou até três álbuns com o material que a gente tinha”, contou Negra Silva.

Para Gê Vieira, o disco representa muito mais do que um lançamento fonográfico.

“O álbum já existia dentro da gente. Era um sonho antigo, mas também uma necessidade profissional. A gente queria olhar para esse trabalho e poder dizer: ‘Aqui está a Soul de Brasileiro. Essa é a nossa identidade, essa é a nossa história’”, afirmou Ge Vieira.

Mais do que apresentar novas músicas, o trio espera que o público se reconheça nas histórias contadas ao longo do álbum.

“Quem ouvir esse disco do começo ao fim vai fazer uma viagem muito emocionante. A gente espera que as pessoas se sintam representadas, que se reconheçam nas histórias e encontrem um pedacinho delas em cada canção”, afirmou José Junior.

Do sonho à confirmação do Rock in Rio

Se o lançamento do álbum representa a consolidação de um trabalho iniciado há anos, a confirmação no Rock in Rio simboliza um reconhecimento ainda maior. Para o trio, subir ao palco do Espaço Favela significa levar a história construída na Vila Kennedy para um público de diferentes partes do Brasil e do mundo.

Foto: Divulgação/ Rock in Rio

“Rock in Rio sempre foi um sonho. Acho que é um sonho para muitos artistas, mas, para a gente, sempre foi um sonho muito pessoal. O que a gente mais desejava e manifestava em relação ao Rock in Rio era ter a oportunidade de subir naquele palco e poder se apresentar da forma mais plena possível, mostrando tudo aquilo que a Soul de Brasileiro representa”, comentou Ge Vieira.

“Era uma terça-feira. Nós estávamos em casa, eu e ele, nos preparando para ir trabalhar, enquanto a Negra já estava a caminho do serviço. Quando recebemos a notícia, a gente pirou, comemorou muito. Mas o que tornou esse momento ainda mais especial foi poder contar essa novidade para os nossos pais e para os nossos amigos, pessoas que sempre acreditaram na gente e acompanharam essa caminhada”, relembrou Ge Vieira.

Para Negra, subir ao palco do Espaço Favela também significa representar a comunidade onde tudo começou.

“A gente veio da Vila Kennedy e vai ter a oportunidade de levar a nossa arte para esse palco. Estar no Espaço Favela, um lugar que valoriza tantas histórias e trajetórias, tem um significado muito especial para a gente. É uma conquista muito gratificante poder viver esse momento e compartilhar a nossa música com tantas pessoas”, afirmou Negra Silva.

Ao olhar para trás, os integrantes lembram das primeiras apresentações e da importância de cada etapa da caminhada.

“Quando a gente olha para trás, parece que não foi há tanto tempo assim. É como se tudo tivesse acontecido ontem. Eu ainda lembro da primeira vez que a gente se apresentou na quadra da Vila Kennedy, das vezes em que cantamos na quadra da igreja. Essas memórias continuam muito vivas para a gente, a gente ainda lembra de cada detalhe”, relembrou Ge Vieira.

A comemoração rapidamente deu lugar aos preparativos. Com a confirmação da participação no festival, a rotina da banda passou a ser marcada por ensaios, reuniões e planejamento para uma apresentação inédita na carreira.

Veja também: Confira o line-up completo do Rock in Rio 2026

A preparação para o Espaço Favela

A estreia no Rock in Rio envolve uma estrutura inédita para o grupo.

A dimensão do Rock in Rio fez com que a estrutura da Soul de Brasileiro também crescesse. Além dos músicos, profissionais de diferentes áreas passaram a integrar o planejamento do show, permitindo que os artistas concentrassem esforços na performance.

“São muitos profissionais envolvidos. A gente nunca teve uma equipe tão grande. Além de nós três, já são mais de vinte pessoas participando de todo esse processo, para que a gente possa subir no palco e se preocupar apenas em cantar. É uma jornada muito intensa, porque nós somos muito organizados na forma como construímos os nossos shows. Ao mesmo tempo, precisamos deixar um espaço aberto para que a sensibilidade aconteça, para que a comunicação flua e para que a nossa arte chegue da melhor maneira possível ao público”, explicou Ge Vieira.

Com o lançamento de SOU marcado para 29 de julho e a apresentação no Rock in Rio prevista para setembro, a Soul de Brasileiro vive um dos momentos mais importantes da carreira. Entre um álbum autoral que reúne anos de composições, uma trajetória construída longe dos grandes holofotes e a estreia em um dos principais festivais de música do mundo, o trio transforma uma história de trabalho, identidade e persistência em um novo capítulo.

Sem se afastar das próprias origens, Gê Vieira, Negra e Júnior chegam ao Rock in Rio levando não apenas suas músicas, mas também as experiências que moldaram a Soul de Brasileiro desde os primeiros encontros na igreja, passando pela Vila Kennedy até alcançar um palco de projeção internacional.

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