Da Favela da Kelson ao Rock in Rio: a trajetória de AR Baby até um dos maiores palcos da música

Artista nascido e criado na comunidade da Kelson, AR Baby começou a compor ainda na adolescência, trabalhou como camelô e hoje se prepara para viver um dos momentos mais importantes de sua carreira.

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A música entrou na vida de AR Baby antes mesmo do rap. Aos 14 ou 15 anos, Mateus, nome de batismo do artista, começou a escrever e compor dentro da igreja. Foi ali que surgiram os primeiros versos e também a relação que, anos depois, o levaria ao palco do Rock In Rio. 

O rap apareceu pouco tempo depois, mas por um caminho diferente do imaginado. O primeiro contato do artista com o gênero veio através do rap gospel. Antes de construir sua própria identidade musical, AR Baby conheceu o universo das rimas ouvindo grupos que misturavam a sonoridade do rap com a música religiosa.

Hoje, aos 25 anos, ele vive uma realidade que durante muito tempo parecia distante: o reconhecimento do público, viagens para outros estados e, principalmente, a oportunidade de se apresentar no Rock in Rio.

No dia 13 de setembro, AR Baby sobe ao Palco Supernova, espaço que também receberá nomes como Sant, Lourena e outros artistas da nova geração.

Uma trajetória construída longe dos grandes centros culturais

Morador da comunidade da Kelson, ele viu de perto a ausência de espaços culturais e de oportunidades voltadas para quem queria transformar a arte em profissão.

Segundo o artista, durante muito tempo, a comunidade precisou buscar fora aquilo que ainda não existia dentro dela. A música, o esporte e outras manifestações culturais chegavam de forma limitada.

“Então, aqui na Kelson é uma comunidade que é como se ela estivesse se desenvolvendo agora. Ela não é como o Complexo da Penha, ou o Complexo do Alemão, ou comunidades como Rocinha, Vidigal. É como se as coisas estivessem acontecendo aqui na Kelso agora, entendeu? Aqui é um lugar que o comércio tá começando agora, a cultura tá começando agora, porque nunca teve nada”, contou o artista.

AR Baby relembra que, há alguns anos, ele e seu produtor instalaram um dos primeiros estúdios da região. Para ele, esse movimento representou mais do que a criação de um espaço para gravar músicas: era o início de uma nova possibilidade para artistas e jovens da comunidade.

“A gente foi a primeira pessoa a colocar um estúdio aqui. Tipo, isso é inadmissível. Como não teve isso antes? Como não teve? Sabe?”, disse o artista.

Apesar de seguir o caminho do rap, suas referências musicais nunca estiveram restritas ao gênero. Michael Jackson ocupa um espaço especial entre suas maiores inspirações, mas pagode, funk e gospel também fizeram parte de sua formação musical.

“Se eu falar que minha referência vem do rap, eu vou estar mentindo”, afirmou ao lembrar dos estilos que fizeram parte de sua infância e adolescência.

Do trabalho nas ruas ao reconhecimento do público

Antes de viver exclusivamente da arte, AR Baby precisou conciliar a música com o trabalho e as responsabilidades da vida.

Como acontece com muitos artistas independentes, o sonho de construir uma carreira precisava dividir espaço com as contas e as necessidades do dia a dia. Ele trabalhou desde cedo e também atuou como camelô.

Para o rapper, esse equilíbrio entre a vida pessoal e o desejo de viver da música foi um dos maiores desafios de sua trajetória.

“Conciliar, conciliar a vida pessoal e artística, né? Porque você vir de baixo e querer ser um artista, querer fazer arte é muito difícil, né? Primeiro que investimento, né? É muito difícil”, destacou o artista.

AR Baby conta que passou anos acostumado a abordar pessoas nas ruas para vender seus produtos e lidar com a rejeição. Hoje, algumas dessas experiências deram lugar a uma nova cena: pessoas pedindo fotos, querendo conhecê-lo e acompanhando sua trajetória.

“Tipo, quando eu encontro as pessoas na rua e as pessoas vêm tirar foto, ir para outro estado, viajar para outro estado e ter pessoas te esperando, é uma parada que a ficha ainda está caindo. Eu ainda não me acostumei. Eu sempre trabalhei na rua, sempre trabalhei de camelô também”, revelou o cantor.

“Eu vou cantar no Rock in Rio”

O convite para participar do Rock in Rio foi recebido com surpresa até pelo próprio artista.

AR Baby conta que, inicialmente, achou que poderia ser uma brincadeira. Ainda em processo de crescimento dentro da música, a ideia de fazer parte de um dos maiores festivais do país parecia difícil de acreditar.

“Eu, primeiramente, achei que era mentira, achei que era loucura, achei que era uma pegadinha, porque, tipo assim, eu sou um artista, assim, eu estou chegando, eu estou começando a botar o meu nome no mapa, as pessoas estão começando a me conhecer, mas você, por ser convidado para o Rock in Rio, é uma coisa que, assim, não dá para digerir de primeira vez, não dá para a tua ficha cair, nossa, eu vou cantar no Rock in Rio, não dá para encarar isso como se fosse uma coisa normal, entendeu?”, disse AR Baby.

Quando contou a novidade para a mãe e para outros familiares, a notícia também foi recebida com incredulidade. Para o artista, chegar ao festival representa uma conquista pessoal, mas também carrega o significado de uma vitória compartilhada com sua família e com a comunidade de onde veio.

O Rock in Rio, que realiza sua edição de 2026 em setembro, reúne artistas de diferentes gêneros e gerações em diversos palcos da Cidade do Rock.

Para AR Baby, estar nesse espaço é resultado de uma trajetória construída com trabalho.

Ele afirma que sempre buscou compreender os diferentes lados da indústria musical, e não apenas escrever, gravar e lançar canções. A intenção é continuar fazendo música nos próximos anos e entender cada etapa da profissão que escolheu.

“Eu sou um artista que sempre trabalhou muito pela minha parada, sempre correu, entendeu? Sempre procurou entender todos os setores da música, não só querer fazer música e lançar, entendeu? Eu sempre procurei entender o que eu faço, porque eu me vejo fazendo música daqui a 5, 10, 15, 20 anos, então eu tenho que entender o que eu estou fazendo”, ressaltou o cantor.

Rap para pessoas reais

A trajetória de AR Baby também aparece diretamente nas músicas que produz.

Em “Domingo Sem Deus”, por exemplo, o artista faz uma crítica à romantização do crime dentro de parte da produção musical contemporânea.

A canção conta a história de um amigo que se envolveu cedo com o crime e morreu, deixando uma filha. A música, segundo AR Baby, nasceu da necessidade de mostrar as consequências reais dessa realidade para quem vive dentro das comunidades.

Para ele, sua música está conectada principalmente à classe trabalhadora e às pessoas que vivem experiências semelhantes às suas.

“Eu sou um trabalhador que acabou virando artista e falando sobre a minha vida”, resume.

Essa visão ajuda a explicar a forma como AR Baby constrói sua identidade artística: sem glamourizar experiências que conhece de perto e usando a música para transformar vivências reais em narrativa.

O tempo de AR Baby

A apresentação no Rock in Rio não é o único passo importante que o artista prepara para os próximos meses.

No dia 28, AR Baby lança “Eu Ainda Tenho Tempo”, música que aborda a sensação de estar atrasado diante das conquistas da vida e das comparações que fazem parte da caminhada de muitas pessoas.

A faixa também está prevista para aparecer em sua apresentação no festival.

Em novembro, o artista pretende lançar o álbum “Mestiço”, projeto com 14 faixas e participações especiais.

Os próximos passos, porém, não mudam a forma como ele enxerga a própria caminhada.

Para AR Baby, não existe chegada sem trabalho, e também não existe trajetória construída completamente sozinho.

Depois de começar a compor ainda adolescente dentro da igreja, descobrir o rap através da música gospel, trabalhar nas ruas e construir seu espaço dentro da cena independente, Matheus agora se prepara para subir ao palco como AR Baby.

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