Durante a palestra “Cultura do Espelho” no evento Rio2C, nessa terça-feira (26), os pesquisadores Felipe Nunes e Suzana Pamplona apresentaram um retrato sobre os hábitos culturais dos brasileiros e a relação entre cultura, desigualdade social e formação familiar. O estudo ouviu 10 mil pessoas em diferentes regiões do país.
A pesquisa começou com uma pergunta simples: “o que é cultura?”. A maioria dos entrevistados, 25%, respondeu não saber definir o conceito. Outros 13% associaram cultura à música e 10% à arte.
Os dados apresentados mostram que, apesar do consumo cultural fazer parte da rotina dos brasileiros, muitos ainda têm dificuldade em identificar o que é cultura no cotidiano.

Arroz e feijão aparecem como símbolo cultural do Brasil
Entre os hábitos compartilhados pelos brasileiros, a comida surgiu como um dos principais elementos culturais. O arroz com feijão foi apontado como a refeição mais representativa do país, tanto nas capitais quanto no interior.
A música também teve destaque na pesquisa. O sertanejo lidera a preferência nacional com 26% dos entrevistados. Em seguida aparecem:
- gospel, com 16%, principalmente no Espírito Santo;
- forró, com 10%, predominante no Norte e Nordeste;
- samba, com 9%, associado ao Rio de Janeiro;
- MPB, com 8%.
Segundo os pesquisadores, os dados revelam diferenças entre capital e interior, além de mudanças geracionais no consumo musical.
Ainda assim, os palestrantes destacaram que consumo não significa identidade cultural. Para eles, representatividade exige identificação, referências e exemplos. É preciso “se ver e admirar”.

Religião lidera práticas culturais no Brasil
A palestra também apresentou os tipos de cultura mais praticados pelos brasileiros. A cultura religiosa aparece em primeiro lugar, seguida por mídias, atividades ao ar livre e práticas esportivas.
Na sequência estão:
- Religiosa
- Mídias
- Ar livre
- Esportiva
- Prática
- Noturna
- Erudita, como teatro e museus
- Jogos
Os pesquisadores identificaram que experiências vividas na infância influenciam diretamente os hábitos culturais na vida adulta.
Entre os entrevistados, 74% frequentavam igrejas quando crianças e 66% praticavam esportes. Já atividades sem incentivo durante a infância registraram índices baixos na vida adulta: apenas 1% frequenta teatros e 2% visita museus.
Pesquisa relaciona cultura e desigualdade social
O principal objeto de estudo da pesquisa foi o sociólogo francês Pierre Bourdieu, citado pelos palestrantes durante o evento.
Segundo Bourdieu, “cultura é um reflexo das estruturas sociais, da distribuição do capital econômico e do nível de desigualdade em uma sociedade”.
Os resultados apresentados reforçam essa teoria. Entre os 10 mil entrevistados:
- 85% possuem baixo capital econômico e baixo capital cultural;
- 2% possuem alto capital econômico e alto capital cultural;
- 4% possuem alto capital econômico e baixo capital cultural;
- 9% possuem baixo capital econômico e alto capital cultural.
A pesquisa concentrou atenção justamente nesse grupo de 9%. Os pesquisadores identificaram fatores em comum entre essas pessoas, como maior escolaridade, mães com maior nível educacional e o hábito da leitura desde a infância.
Segundo os dados apresentados na palestra, crescer em ambientes com incentivo à leitura e acesso ao conhecimento influencia diretamente na formação cultural ao longo da vida.


