Streaming mudou o jogo: cinemas investem em tecnologia para reconquistar público

Salas VIP, projeção a laser, telas gigantes e experiências imersivas ganham espaço enquanto setor tenta recuperar audiência, ainda abaixo dos níveis anteriores à pandemia

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Assistir a um filme deixou de exigir uma ida ao cinema. Com milhares de títulos disponíveis em plataformas de streaming, as grandes redes passaram a enfrentar uma pergunta que vai além da programação: o que pode convencer o público a sair de casa e pagar por uma sessão?

A resposta passa cada vez mais pela experiência.

Salas VIP, poltronas reclináveis, projeção a laser, telas gigantes, sistemas avançados de som e até cadeiras que acompanham os movimentos dos filmes estão entre as apostas das redes para oferecer algo que seja difícil de reproduzir diante da televisão.

A estratégia ganha importância diante de um mercado que ainda tenta recuperar o público perdido nos últimos anos. Dados da Agência Nacional do Cinema (Ancine) mostram que 112,8 milhões de ingressos foram vendidos no Brasil em 2025, queda de 10% em relação ao ano anterior. A renda das salas também recuou 11,4%.

O número está distante do período anterior à pandemia. Entre 2017 e 2019, os cinemas brasileiros receberam, em média, 174,1 milhões de espectadores por ano. A média entre 2023 e 2025 ficou em 117,4 milhões, menos de 70% daquele patamar.

Cinépolis aposta R$ 80 milhões em tecnologia

É nesse cenário que a Cinépolis vem ampliando os investimentos no Brasil.

A companhia afirma ter destinado mais de R$ 80 milhões à tecnologia no país nos últimos cinco anos, segundo informações divulgadas nesta semana. A expectativa da rede é receber cerca de 17 milhões de espectadores em 2026.

A empresa também projeta elevar a receita de bilheteria de aproximadamente R$ 334 milhões em 2025 para R$ 410 milhões neste ano, crescimento de cerca de 23%.

Mais do que simplesmente ampliar o número de salas, parte da estratégia está justamente na diferenciação da experiência oferecida ao consumidor.

É um movimento que também pode ser observado em outras grandes exibidoras. A Cinemark, por exemplo, opera no país formatos como salas VIP, XD e D-BOX. Neste último, as poltronas se movimentam e vibram de acordo com as cenas apresentadas na tela.

A disputa, portanto, já não acontece apenas entre redes de cinema. O concorrente também está dentro da casa do consumidor.

O desafio é fazer o público voltar com mais frequência

Os números da Ancine mostram uma situação curiosa.

Enquanto a audiência permanece abaixo dos níveis anteriores à pandemia, o número de salas atingiu um recorde.

O Brasil terminou 2025 com 3.544 salas de cinema em funcionamento, crescimento de 1% em relação a 2024 e maior quantidade já registrada no país.

Ou seja: o parque exibidor cresceu, mas a frequência não acompanhou na mesma proporção.

A própria Ancine considera que os resultados recentes podem indicar a consolidação de um novo patamar de frequência às salas, inferior ao observado antes da crise sanitária.

Isso ajuda a explicar por que oferecer simplesmente uma tela grande deixou de ser suficiente.

Cinema vira experiência premium

Parte da transformação aproxima os complexos de cinema de outros negócios de entretenimento.

O ingresso deixa de dar acesso apenas ao filme e passa a envolver conforto, gastronomia, tecnologia e exclusividade.

As salas VIP são um dos exemplos mais evidentes. Poltronas maiores e reclináveis, atendimento diferenciado e cardápios mais elaborados transformam uma sessão convencional em uma experiência de maior valor agregado.

Em outros formatos, é a tecnologia que assume o protagonismo, com telas maiores, projeções de alta definição, sistemas de áudio imersivo e recursos de movimento.

Até cinemas de rua têm buscado outras formas de diferenciação. Na região da Avenida Paulista, em São Paulo, espaços apostam em estratégias que incluem curadoria especializada, festivais, retrospectivas, sessões com trilha sonora ao vivo, gastronomia e preços promocionais.

A lógica é semelhante: criar motivos para que assistir a um filme no cinema seja diferente de simplesmente apertar o “play”.

Grandes filmes ainda conseguem levar multidões às salas

Há, porém, outro elemento fundamental nessa disputa: o filme certo ainda consegue mobilizar o público.

A Ancine observa que o desempenho recente das bilheterias está diretamente relacionado à presença de títulos com grande capacidade de atração.

O fenômeno também apareceu no cinema brasileiro. Ainda Estou Aqui, por exemplo, ultrapassou 5 milhões de espectadores e R$ 104,7 milhões em renda, tornando-se uma das maiores bilheterias nacionais dos últimos anos.

Em 2025, O Auto da Compadecida 2, Ainda Estou Aqui, O Agente Secreto, Chico Bento e a Goiabeira Maraviosa e Vitória estiveram entre os filmes brasileiros de maior público.

Ao mesmo tempo, a competição com o conteúdo disponível em casa permanece como uma preocupação do próprio setor. Em documento apresentado durante as discussões sobre a Cota de Tela, representantes dos exibidores apontaram a ausência de uma janela mínima entre cinema e vídeo sob demanda como um dos fatores que afetam a atratividade das salas.

O cinema vai acabar por causa do streaming?

Os números não apontam para o desaparecimento das salas, mas indicam uma mudança no comportamento do consumidor.

O recorde de 3.544 salas em funcionamento mostra que as empresas continuam investindo no modelo físico. O desafio está em aumentar a frequência de um público que agora possui muito mais alternativas para consumir filmes e séries.

Nesse cenário, a sala de cinema tende a depender cada vez menos exclusivamente do conteúdo exibido e mais da combinação entre grandes lançamentos e uma experiência que justifique sair de casa.

Para as redes, é justamente aí que pode estar a resposta à concorrência do streaming: não tentar reproduzir aquilo que o consumidor já possui na televisão, mas oferecer aquilo que ele não consegue ter no sofá de casa.

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