Grabiel Galípolo, presidente do Banco Central do Brasil, participou nesta quarta feira do Blockchain.Rio, evento focado em tecnologia que acontece na ExpoRio no Rio de Janeiro. A autoridade máxima monetária no brasil trabalha no desenvolvimento do Drex, versão digital do real brasileiro.
Em sua fala sobre inovação no sistema financeiro, Galípolo defendeu uma abordagem agnóstica frente às tecnologias emergentes.
Segundo ele, o foco da autoridade monetária brasileira não está na ferramenta utilizada, mas na solução de problemas reais enfrentados por cidadãos, empresas e o próprio mercado. “Nenhuma tecnologia é boa ou ruim por si só. O que importa é o uso que se faz dela”, afirmou Galípolo, ao citar o exemplo de uma tesoura — que tanto pode cortar papel quanto ser usada de forma inadequada. “No Banco Central, nós regulamos usos, não objetos tecnológicos.”
O Drex como plataforma de transformação
Essa visão pragmática está no centro do desenvolvimento do Drex, o real digital, que integra a agenda de modernização do Banco Central. Longe de ser apenas uma moeda digital estatal, o Drex é uma infraestrutura que permitirá tokenização de ativos, contratos inteligentes e redução de custos operacionais, ampliando o acesso ao crédito e à inclusão financeira.
“A pergunta central para nós é: qual problema queremos resolver? E só então avaliamos qual tecnologia melhor se adequa a isso”, disse Galípolo.
A proposta do Drex, segundo ele, não é competir com o sistema bancário nem substituir os mecanismos existentes, como o Pix, mas sim atuar como uma nova camada de eficiência, oferecendo segurança, rastreabilidade e flexibilidade nas operações financeiras.
Criptoativos e stablecoins: distinções fundamentais
Em sua fala, Galípolo também destacou a diferença entre criptoativos — como bitcoin e stablecoins — e as moedas digitais emitidas por bancos centrais (CBDCs), como o Drex.
“Criptoativos têm se comportado como instrumentos de investimento, mais do que como moeda. Eles não cumprem bem as três funções clássicas: meio de troca, unidade de conta e reserva de valor”, pontuou.
Já o Drex, inserido no sistema regulado e com respaldo institucional, visa oferecer estabilidade e confiança, atributos essenciais para que qualquer moeda funcione plenamente na economia real.
Integração com o Pix: sistemas complementares
Segundo Galípolo, o Pix — sistema de pagamentos instantâneos que já revolucionou as transferências no Brasil — resolve muitos dos problemas que outros países ainda buscam enfrentar por meio de suas CBDCs. Nesse sentido, Pix e Drex são complementares, não concorrentes.
Enquanto o Pix atende o dia a dia da população, o Drex estruturará um novo ecossistema de ativos digitais, permitindo, por exemplo, transações com garantias digitais, microcréditos com base em dados reais e parcelamentos automatizados com liquidação imediata.
“As soluções desenvolvidas no Brasil, como o Pix, já respondem a parte significativa dos desafios discutidos globalmente. O Drex agora avança sobre camadas mais sofisticadas da infraestrutura financeira.”
O desafio de manter a inovação com responsabilidade
Por fim, Galípolo alertou para a necessidade de garantir recursos institucionais, legais e orçamentários ao Banco Central, a fim de manter e evoluir os sistemas que vêm sendo construídos.
“Mais de 70% do custo da inovação está na sua manutenção. E o Drex não será diferente. Precisamos assegurar que o Banco Central tenha as condições de sustentar essas entregas para a sociedade”, afirmou.
Com uma abordagem realista e centrada em problemas, o Banco Central brasileiro sinaliza que não se trata de seguir modismos tecnológicos, mas de usar as ferramentas certas para transformar, com responsabilidade, o presente e o futuro da economia digital no Brasil.


