As diferentes versões de Carrie

Mais de 50 anos após a publicação do livro, Carrie White continua ganhando novas interpretações no cinema e no streaming.

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Carrie White foi a protagonista do primeiro livro publicado por Stephen King. Em Carrie, o escritor conta apresenta uma menina tímida, filha de uma mãe extremamente religiosa, que sofre bullying dentro e fora da escola e descobre possuir poderes telecinéticos, a capacidade de mover objetos com a mente.

O que começa como a história de uma adolescente com dificuldades de se encaixar no mundo do ensino médio se transforma em uma história de terror sobre rejeição, violência e vingança. Publicado em 1974, o romance é considerado o grande trunfo da carreira de King e trouxe ao mundo uma personagem que, mesmo depois de mais de cinco décadas, continua sendo revisitada no cinema e no streaming.

A criação de Carrie, no entanto, não veio apenas da imaginação do escritor. A história nasceu da combinação de experiências que ele presenciou durante a juventude com uma reportagem que despertou seu interesse pela telecinese. Desde então, a personagem ganhou diferentes rostos e passou por adaptações que mostram como uma mesma história pode ser contada de maneiras diferentes.

Baseada na vida real

Apesar dos poderes sobrenaturais, boa parte da construção de Carrie veio de Stephen King presenciou de perto. O escritor já contou que a personagem foi inspirada na junção de duas adolescentes que conheceu na escola. As experiências ajudaram a dar vida à adolescente que vive isolada e se torna alvo de piadas por não se encaixar no padrão que se espera de uma adolescente no ensino médio.

Outra inspiração surgiu de uma reportagem que King leu sobre telecinese e fenômenos Poltergeist. A ideia de uma menina capaz de mover objetos com a mente se uniu às lembranças do ambiente escolar e à crueldade que pode existir nas relações entre adolescentes.

No livro, Carrie cresce em uma casa rodeada pela repressão religiosa da mãe, Margaret White, que trata as mudanças do corpo e, principalmente, a sexualidade da filha como pecado. Na escola, a situação não muda muito, as provocações e humilhações são intermináveis, sem encontrar um espaço onde consiga se sentir segura e acolhida.

Uma das cenas mais conhecidas da história acontece quando Carrie menstrua no banheiro da escola e, sem entender o que está acontecendo, pede ajuda às colegas. Em vez de receber apoio, ela vira motivo de piadas. O episódio mostra como a falta de informação e a crueldade dos outros contribuem para o isolamento da personagem.

Nesse cenário os poderes de Carrie também viram personagem dessa história. Além de um elemento sobrenatural, eles fazem parte de uma história onde a protagonista tenta lidar com tudo aquilo que acontece ao seu redor. Antes de se tornar uma figura aterrorizante, ela é uma adolescente de 16 anos tentando ser aceita e fazer amigos, mas encontra cada vez mais motivos para se afastar das pessoas.

De Sissy Spacek a Chlöe Grace Moretz

A primeira adaptação de Carrie chegou aos cinemas em 1976, sob a direção de Brian De Palma. Interpretada por Sissy Spacek, a personagem ganhou uma das cenas mais memoráveis do terror: o vestido de formatura coberto de sangue depois de uma das pegadinhas dos colegas.

Sissy Spacek coberta de sangue na cena do baile em ‘Carrie, A Estranha’ (1976) – Foto: Reprodução

A cena do baile se tornou uma das mais inesquecíveis do filme e ajudou a colocar Carrie como uma das referências do gênero. O longa também levou a história de Stephen King a cada vez mais pessoas, mostrando que o medo da personagem não estava nos poderes que ela possuía, mas na violência sofrida antes de qualquer manifestação sobrenatural.

Em 2002, Carrie ganhou uma nova versão para a televisão, dirigida por David Carson e estrelada por Angela Bettis. Onze anos depois, em 2013, foi a vez de Chlöe Grace Moretz interpretar a adolescente em um filme dirigido por Kimberly Peirce, com Julianne Moore no papel de Margaret White.

Apesar de contarem a mesma história, as produções escolheram maneiras diferentes de retratar a protagonistas e as pessoas ao seu redor. Cada versão encontra seu próprio caminho para explorar a relação entre mãe e filha, o bullying e a descoberta dos poderes telecinéticos.

A história também acompanha as mudanças do público e da própria sociedade. O que funcionava como terror em uma época pode ganhar novos significados em uma nova geração, que reconhece os conflitos da personagem a partir de perspectivas diferentes.

A nova série da Prime Video

Lançada na última semana pela Prime Video, a nova série Carrie apresenta uma versão da personagem criada por Stephen King. A produção escolhe contar a trajetória da adolescente em um formato que ainda não havia sido explorado: em uma série, permitindo desenvolver com mais tempo as relações familiares, os traumas infantis, os conflitos escolares e o processo de descoberta dos poderes telecinéticos.

A série também encontra uma forma de trazer para 2026 situações contadas ainda em 1976. Entre os elementos que ganham espaço na versão atual está o cyberbullying, que faz com que a exposição de Carrie ultrapasse os corredores da escola. Se antes as humilhações aconteciam principalmente diante dos colegas de classe, agora elas podem ser compartilhadas, comentadas e reproduzidas por pessoas que nem sequer estavam presentes.

A tecnologia muda a forma como a violência acontece, mas não elimina o desejo de transformar alguém em motivo de piadas. Desse jeito, a nova produção aproxima a história de questões presentes na vida dos adolescentes de hoje, sem abandonar os princípios do livro: rejeição, repressão religiosa, solidão e vingança.

Com mais episódios para explorar os acontecimentos, a série também acompanha melhor as relações que rondam a personagem e os fatores que contribuem para seu isolamento. Assim, o terror não se reduz aos momentos que Carrie usa seus poderes, mas aparece nas situações cotidianas que tornam sua vida cada vez mais difícil.

A nova adaptação mostra como a obra de King é tão atemporal que continua encontrada formas de ser contada mais uma vez.

Foto: Divulgação/Prime Video

Por que Carrie continua voltando?

Mais de 50 anos depois de ser apresentada ao mundo, Carrie White continua sendo uma personagem capaz de despertar diferentes sentimentos no público, até porque mesmo depois de 5 década a experiência de ser uma adolescente continua sendo aterrorizante na maioria das vezes. Ao mesmo tempo em que a história provoca medo, também desperta pena por tudo o que a protagonista enfrenta antes de chegar ao limite.

Essa contradição é uma das partes mais interessantes da trama. Carrie é vítima de humilhações e repressões até mesmo da mãe, mas sua reação também transforma o sofrimento em tragédia. A personagem não é apresentada como alguém que busca vingança, mas uma garota que cuja necessidade de aceitação nunca encontra espaço para existir de forma saudável.

As diferentes adaptações ajudam a mostrar como cada época encontra algo novo nessa história. O filme de 1976 marcou o cinema de terror, as versões seguintes apresentaram outras interpretações da protagonista e a nova série da Prime Video aproxima a narrativa de questões presentes na vida dos adolescentes de hoje.

No fim, as diferentes versões de Carrie não são apenas novas maneiras de contar a mesma história. São também formas de revisitar conflitos que deram origem à personagem e que continuam presentes, mesmo quando a época muda. Afinal, por trás dos poderes telecinéticos e das cenas que marcaram o cinema, está uma garota que só quer ser aceita.

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